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Dois filmes e um ciclo para ver esta semana

"Fuori", do italiano Mario Martone, um ciclo de cinco filmes do japonês Hiroshi Shimizu, e "La Grazia", a nova realização de Paolo Sorrentino, são as escolhas de Eurico de Barros esta semana.

Eurico de Barros
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“Fuori”

O italiano Mario Martone, de quem vimos recentemente dois bons filmes, O Rei do Riso (2021) e Nostalgia (2022), vai agora, em Fuori, ao encontro da escritora e atriz inconformista (à falta de melhor palavra) Goliarda Sapienza nos anos 80, após ela ter saído da cadeia em que esteve presa durante dois meses, por ter roubado as joias de uma amiga durante uma festa em casa desta. Isto levá-la-ia a publicar em 1983 o livro A Universidade de Rebibbia (nome da prisão para mulheres de Roma onde cumpriu pena), sobre a realidade que encontrou lá dentro e o que aprendeu, as amizades que fez e manteve, e como tudo a estimulou a voltar a escrever. Fuori fixa-se num período muito limitado da agitadíssima existência de Sapienza (interpretada por Valeria Golino), e tem o senão de passar ao lado de quem não a conheça e à sua obra. Deixando ainda a impressão de que teria sido mais interessante (e mesmo tendo em conta o título) se Martone se tivesse demorado com mais pormenor na descrição da experiência carcerária da autora de A Arte da Alegria, ao invés de a mostrar apenas em flashbacks soltos.

https://www.youtube.com/watch?v=2J0ZR0i5nAo

“Ciclo Shimizu Tardio”

Contemporâneo de Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, e elogiado por estes, Hiroshi Shimizu (1903-1966) realizou mais de 160 filmes mudos e sonoros, com destaque para melodramas e comédias dramáticas, em que encontramos histórias de personagens à margem ou com vidas difíceis, modestas e discretas, bem como enredos centrados nos laços de família. A sua obra está agora em processo de divulgação e descoberta fora do Japão. Os cinco filmes que compõem este ciclo da responsabilidade da The Stone and the Plot, três inéditos em Portugal e dois em reposição, foram rodados na última fase da carreira de Shimizu, entre 1956 e 1959. São eles O Idiota Sentimental, de 1956 (inédito), Crianças à Procura de Mãe, idem (inédito), O Som do Nevoeiro, ainda de 1956 (reposição) A Dançarina, de 1957 (inédito) e Imagem de uma Mãe, de 1959 (reposição), este o seu derradeiro trabalho. Ficam em exibição até dia 22 no Cinema City Alvalade, e a partir de dia 17 no cinemas NOS Amoreiras de Lisboa e nos NOS Alameda Shop & Spot do Porto, e em salas de Coimbra, Sintra, Santarém, Maia, Guimarães, Barcelos e Fundão.

https://www.youtube.com/watch?v=I5l379N9AAQ

“La Grazia”

O novo filme de Paolo Sorrentino decorre nos últimos seis meses do mandato de Mariano De Santis (Toni Servillo), um Presidente da República fictício de Itália, viúvo, católico e retíssimo, que se orienta em tudo pela sua consciência e é bem-amado pelos seus concidadãos e respeitado pelos membros da sua equipa (que incluem a filha solteira, Dorotea, sua assessora jurídica), mesmo os que nem sempre concordam com ele. Antes de deixar o cargo, De Santis tem que promulgar ou vetar uma lei sobre a eutanásia, que não pára de mandar para trás para ser corrigida, aperfeiçoada, blindada, sempre que Dorotea lha apresenta; e conceder ou não dois perdões, um a uma mulher que matou à facada o marido que a maltratava há muitos anos, outro a um professor que estrangulou a mulher que sofria de Alzheimer. E o presidente é roído interiormente pela dúvida sobre a identidade do amante da sua queridíssima mulher. La Grazia foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.