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(A) :: Entre pulos, piruetas e acrobacias, a ginástica é o que move quem não desiste: como Portugal deu o salto nos trampolins (e quer mais)

Entre pulos, piruetas e acrobacias, a ginástica é o que move quem não desiste: como Portugal deu o salto nos trampolins (e quer mais)

Portugal teve um dos melhores Europeus no trampolim, conquistando um inédito ouro por Vasco Peso – que recebeu chamadas de Seguro... e Marcelo. Gabriel Albuquerque é a esperança numa medalha em LA.

Tiago Gama Alexandre
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Cinco dias, 30 países, 745 atletas, uma cidade. Foi assim que se escreveu o início da história que trouxe a 30.ª edição do Campeonato da Europa de Trampolins até Portugal, com a elite europeia do trampolim, do duplo minitrampolim e do tumbling a instalar-se em Portimão, bem no sul do País. Pelo Portimão Arena passaram os melhores atletas seniores, juniores e, pela primeira vez, Sub-21, com a European Gymnastics (UEG) a juntar, a partir desta edição, os três eventos desse escalão aos 28 (14 de cada) que já aconteciam nas outras categorias. Deste modo, foram distribuídas 93 medalhas entre trampolim individual, trampolim sincronizado, duplo minitrampolim e no tumbling. E foi também distribuída a ambição que Portugal tem na modalidade, no presente e no futuro a breve/médio prazo, depois de uma página histórica em Paris-2024.

https://youtu.be/JNneOgQtC6Y

Esta edição dos Europeus de trampolins teve em competição 308 ginastas seniores, 346 no escalão de juniores e 91 pertencentes aos Sub-21. Para além disso, passaram por Portimão 70 juízes e 40 elementos das equipas médicas. Em termos de países, estiveram em ação 28 federações e duas comitivas de Atletas Individuais Neutros, referentes às equipas da Rússia e da Bielorrússia, que se juntaram a Alemanha, Arménia, Áustria, Azerbaijão, Bélgica, Bulgária, Rep. Checa, Dinamarca, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Geórgia, Grécia, Irlanda, Israel, Itália, Lituânia, Países Baixos, Polónia, Portugal, Eslovénia, Suíça, Eslováquia, Suécia, Turquia e Ucrânia. A organização ficou a cargo da Federação de Ginástica de Portugal (FGP), juntamente com a UEG, e o apoio da Câmara Municipal de Portimão.

Em termos globais, esta foi a quinta vez que Portugal recebeu uma edição do Campeonato da Europa de Trampolins na ginástica, com Portimão a juntar-se a Braga em 1987, Vila do Conde em 1998 (apenas juniores) e Guimarães, em 2014 e 2024. Em relação à competição disputada no Multiusos vimaranense, Portugal foi o país mais medalhado no escalão principal, tendo conquistado 11 medalhas, três de ouro, três de prata e cinco de bronze. Ainda assim, a Seleção portuguesa terminou no segundo lugar do medalheiro, já que a Grã-Bretanha conseguiu quatro títulos europeus. Na 30.ª edição, a principal novidade prendeu-se com o regresso dos atletas russos e bielorrussos, embora como neutros, que se traduziu na conquista de 41 das 93 medalhas em competição. No cenário global, Portugal terminou com oito medalhas (um ouro, duas pratas e cinco bronzes) e foi o quarto melhor país, mantendo-se atrás dos britânicos.

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Guimarães e Portimão, a partida para um futuro internacional… com medalha olímpica

Nos últimos anos, Portugal tem dado cartas na ginástica, modalidade em que Filipa Martins se evidenciou ao longo da última década e chegou à final do all-around nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, onde foi 20.ª e alcançou o melhor resultado de sempre do País. Por outro lado, Gabriel Albuquerque, o mais jovem atleta da delegação nacional, também fez história na capital francesa, com o seu quinto lugar no trampolim a perfilar-se como a melhor prestação olímpica de sempre de um português na disciplina. Essa evolução reflete-se no quadro de medalhas dos Europeus, onde Portugal figura no quarto lugar, com 84 pódios desde 1969, o ano da primeira edição. Ainda assim, no medalheiro, a ginástica de trampolins portuguesa surge na sexta posição, atrás de potências da modalidade como Rússia (ou equipa neutra), União Soviética, França, Grã-Bretanha e Bielorrússia. Agora, a Seleção Nacional chegou ao Algarve com um plantel alargado, composto por 50 atletas de diferentes faixas etárias, agregando juventude e experiência.

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O objetivo de João Marques, diretor técnico de trampolins da FGP, passava por voltar a conquistar medalhas, embora o regresso dos atletas neutros complicasse a missão portuguesa. Ainda assim, Portugal esteve em 11 das 12 finais por equipas da competição (falhou apenas o tumbling sénior feminino) e sagrou-se campeão europeu por Vasco Peso, que conquistou o primeiro título de sempre no tumbling, numa prova em que fez 29,200 pontos na primeira série e subiu ao primeiro lugar com uma pontuação de 31,400 na segunda ronda, superando o campeão do mundo, o azeri Mikhail Malkin.

Pedro Ferreira, que vencera no trampolim individual em 2024, terminou em quinto, ao passo que Catarina Nunes e Sofia Correia, no trampolim sincronizado, conquistaram a prata. O bronze caiu para Diogo Abreu, Gabriel Albuquerque e Pedro Ferreira (trampolim por equipas); João Azinheira, João Saraiva e Vasco Peso (trumbling por equipas); Inês Correia, Matilde Louro e Rafaela Rosa (duplo minitrampolim por equipas em juniores); Beatriz Mendes, Alexandra Garcia e Matilde Oliveira (duplo minitrampolim por equipas); e André Dias, Francisco José e Tiago Teixeira (duplo minitrampolim por equipas).

Em entrevista ao Observador, Luís Arrais, presidente da FGP, caracterizou esta prestação europeia como “fantástica”, destacando “o primeiro título europeu sénior do tumbling” e o “surpreendente” segundo lugar de Catarina Nunes e Sofia Correia no trampolim sincronizado, que entraram na final em oitavo e subiram ao pódio. “Nos últimos cinco anos temos crescido de forma sistemática todos os anos, nos últimos dois anos batemos o recorde de afiliados. Fechámos o ano de 2025 com 29 mil e nesta altura estamos com 39 mil. Temos nove disciplinas na FGP e todas têm crescido de forma sustentável, o que nos dá muita alegria. É um esforço de muita gente: dos ginastas, dos seus treinadores, dos dirigentes, dos clubes, das associações e das famílias portuguesas. A ginástica está a crescer imenso em números e também em termos qualitativos. Temos algumas disciplinas com os melhores da Europa e do Mundo”, analisou, admitindo que, o principal obstáculo do seu desporto, “é o setor financeiro”, embora o apoio do IPDJ e da secretaria de Estado seja “muito interessante”. Ainda assim, a FGP encontra-se à “procura de outras fontes de rendimento”.

"Os objetivos são continuar a crescer, termos mais ginastas e sermos competitivos em 2028 e 2032. Pretendemos ter todas as nossas disciplinas presentes nos Jogos. Nas disciplinas não olímpicas queremos continuar a alcançar finais e medalhas em Europeus e Mundiais. Daqui a oito anos espero que estejamos a competir para as medalhas nos Jogos. Penso que, em 2028, vamos seguramente lutar pelas medalhas numa das disciplinas"
Luís Arrais, presidente da Federação de Ginástica de Portugal, ao Observador

“Ainda não temos os equipamentos suficientes, mas já são interessantes. Queremos continuar a crescer. Na disciplinas olímpicas queremos voltar e ter bons resultados nos apuramentos olímpicos e na competitividade. Para isso precisamos de equipamentos e de espaços físicos que nos coloquem ao nível dos grandes países. Recebemos algum equipamento através do apoio extraordinário do Governo, estamos a remodelar dois dos centros de treino. Queremos sempre mais e temos ambição e qualidade para isso. Temos perto do suficiente, mas ainda não temos o ótimo. Objetivos? Continuar a crescer, termos mais ginastas e sermos competitivos em 2028 e 2032. Pretendemos ter todas as nossas disciplinas presentes nos Jogos e sermos competitivos. Nas disciplinas não olímpicas queremos continuar a alcançar finais e medalhas em Europeus e Mundiais. Daqui a oito anos espero que estejamos a competir para as medalhas nos Jogos Olímpicos. Penso que, em 2028, vamos seguramente lutar pelas medalhas numa das disciplinas. Em 2032 espero que todas as disciplinas possam entrar em finais. Queremos estar acima dos 50 mil [atletas federados]”, destacou Arrais.

Nesta conversa com o Observador, o dirigente lamentou ainda a “falta de reconhecimento” que a ginástica tem em Portugal, sublinhando que a promoção se centra no canal específico da federação, o Ginástica TV. “Conseguimos atuar ao nível das redes sociais, crescemos mais de 100% no último ano. A grande surpresa foi o Presidente da República ter ligado ao Vasco Peso 20 minutos depois de ele ter alcançado o primeiro lugar. É algo inédito, infelizmente, mas que aconteceu, felizmente. É o reconhecimento que as entidades oficiais já dão à ginástica. Já tivemos muitos campeões da Europa e do Mundo e nunca tivemos este reconhecimento“. Nesse sentido, na última sexta-feira, a delegação nacional esteve na Assembleia da República, onde recebeu um voto de louvor do seu presidente, José Pedro Aguiar Branco.

Quanto ao recrutamento, a FGP lançou nos últimos anos “um projeto de deteção e acompanhamento de talentos”, que tem permitido “identificar rapidamente o talento e acompanhá-lo ao longo da sua vida”. Nesse sentido, a meta de Luís Arrais é “deixar a Federação com um número maior de participantes, mais visibilidade na sociedade e com resultados internacionais”, bem como com “um centro nacional” capaz de albergar todas as disciplinas da ginástica, algo que deverá arrancar “dentro de pouco tempo”.

Portugal na rota dos grandes eventos internacionais

Para lá das organizações dos Europeus de trampolins que decorreram em Braga, Vila do Conde, Guimarães e, agora, em Portimão, Portugal recebeu, em 1994, os Campeonatos do Mundo da mesma categoria. Mais recentemente, em 2025, o país organizou a quinta edição do World Gym for Life Challenge, que contou com um número recorde de atletas e delegações e decorreu em julho em Lisboa, no MEO Arena. Para o próximo ano está previsto o regresso do World Gymnaestrada 24 anos depois, com o maior evento de ginástica do planeta a acontecer entre 11 e 17 de julho de novo na capital. Este evento está classificado como sendo de interesse público e, nos últimos anos, tem registado mais de 50 delegações e cerca de 20 mil participantes.

Nesse sentido, Portugal tem sido amplamente reconhecido em termos de organização de eventos na ginástica. “As coisas correram muito bem a esse nível. O próprio presidente da European Gymnastics [Farid Gayibov] considerou que este foi dos melhores – se não o melhor – Campeonatos da Europa em termos de organização. Contámos com o grande apoio da Câmara Municipal de Portimão, que nos permitiu termos uma organização fantástica. Os colaboradores da FGP também foram importantes. Já têm muita experiência em termos de organização de provas. Já organizámos outros campeonatos da Europa, do Mundo, Taças do Mundo… Isto representa a grande promoção da ginástica em termos nacionais e internacionais. Permite-nos termos mais pessoas envolvidas, não só ginastas, como também as nossas organizações, clubes, associações, etc. O encaixe financeiro também é sempre importante. Todos esses fatores são importantes na organização”, explicou Arrais, que acrescentou que a organização de eventos internacionais “é uma fonte de receita interessante” para a sua Federação, que “já não depende muito do apoio estatal”.

“Há quatro anos conseguimos ganhar a candidatura de um evento que se chama World Gymnaestrada, que é o maior evento gímnico da federação internacional [World Gymnastics] e só se realiza de quatro em quatro anos. Em 2003 tivemos a Gymnaestrada pela primeira vez em Portugal. Nessa altura foi um êxito. Segundo as pessoas que estavam na federação internacional, foi uma das melhores organizações de sempre. Tivemos o recorde de participantes em termos de ginastas [25 mil]. Neste momento já batemos todos os recordes em pré-inscrições. Em janeiro deste ano tínhamos 22 mil pré-inscritos de 48 países e esperamos ter mais. Vamos ver se esta questão da guerra no Médio Oriente e do aumento do preço dos combustíveis não desmotiva alguns países de vir. Se isso não acontecer, vamos trabalhar para termos mais pessoas nesse evento. Gostávamos de chegar aos 25 mil [atletas]”, contou Luís Arrais ao Observador.

https://twitter.com/FGP_Ginastica/status/1664963351812751360?s=20

O atleta-estudante que se inspira em Iúri Leitão e “uniu” Seguro e Marcelo

Aos 23 anos, Vasco Peso vive o momento mais alto da carreira. O atleta da Sociedade Filarmónica Estrela Moitense alcançou o único ouro de Portugal na 30.ª edição dos Europeus de Trampolins, competição a que chegava “apenas” para lutar por uma medalha e acabou a derrotar o campeão do mundo.

“Foi espectacular, não estava à espera de ganhar, muito menos com a série que fiz. Cheguei a este Europeu muito receoso devido às condições que nos deram. A pista de tumbling e a marca que foi usada não são das minhas favoritas. Vinha com séries mais fraquinhas. Apontava ao pódio, mas não vinha para ganhar. Com a emoção da prova e a energia extra de competição, fiz a série que tinha dito que não ia fazer. Na última série arrisquei e ainda estou a viver esta espécie de sonho, que não parece muito real. Desde que recebi as medalhas que acordo e olho para o lado para ver se as medalhas ainda lá estão [risos]. É um trabalho de muitas pessoas, não é só meu. É uma boa experiência estar a viver estas recompensas”, começou por explicar o novo campeão europeu ao Observador.

“História? Já tinha sentido essa sensação, mas não a este nível. Já tinha batido alguns recordes na minha carreira, mas nunca tiveram esta proporção. Este título foi muito mais do que uma simples conquista. Acredito que vai dar, finalmente, um impulso ao tumbling nacional. Tem sido espantoso ver tanta gente interessada. Era o que o desporto precisava. As pessoas vão interessar-se mais e vão pesquisar mais, da mesma forma que aconteceu com o Iúri Leitão nos Jogos Olímpicos. A partir do momento em que ele ganhou a primeira medalha, as pessoas começaram a perguntar quando é ele ia voltar a correr. Depois ainda houve o ouro no madison, com o Rui Oliveira. Acredito que isso possa acontecer com o tumbling e com a minha conquista. Isto é histórico para a modalidade. Não é uma modalidade olímpica, não tem tanto interesse dos media e dos patrocinadores… Não há essa procura por modalidades não olímpicas. Do nada aparece um campeão da Europa e está toda a gente interessada. É muito especial”, acrescentou.

Esta foi a quarta vez em que o ginasta esteve presente em Europeus, sendo que as outras prestações foram pautadas por momentos altos e baixos. “Imaginava que era possível, mas não pensava que pudesse chegar. Tinha sido finalista individual e por equipas em todos, mas faltava sempre algo. Na preparação para este Europeu tinha essas memórias na cabeça. Em 2024 não estava bem preparado, mas apurei-me para a final individual em segundo e para a final por equipas em primeiro. Tanto numa como na outra, falhei nas minhas séries. Chegar aqui com essas memórias na cabeça foi um grande motivo de stress e ansiedade. Fiz um esforço gigante para deixar isso para trás, foi difícil. No final, tudo deu certo. Consegui quebrar o ciclo. Quando terminei a segunda série, quando tive a noção que ia ao pódio, toda a angústia desapareceu e transformou-se em felicidade”, revelou o atleta ao Observador.

Os momentos que sucederam ao triunfo foram de grande emoção para Peso e uma Portimão Arena praticamente lotada. Um desses instantes acabou por viralizar nas redes sociais, quando o Presidente da República, António José Seguro, entrou em contacto com Luís Arrais para felicitar o novo campeão europeu.

“Foi um choque, não estava à espera de receber uma chamada do Presidente. Na altura, no meio das emoções, o presidente da FGP chamou-me à parte e disse: ‘Vasco, não te vás embora que está aqui uma pessoa que quer falar contigo’. Não fui, colocaram-me um microfone, a câmara começou a gravar e o Luís Arrais passou-me o telefone. Assim que o António José Seguro começou a falar não reconheci a sua voz porque ele é Presidente há relativamente pouco tempo. Não associei a voz dele à do Presidente. Disse-me para aproveitar, que estava de parabéns e que Portugal agradece. Agradeci e disse que ia aproveitar bastante, sem associar a voz. Quando terminou a chamada perguntaram-me com quem estava a falar e eu disse: ‘Reconheço a voz, já a ouvi, mas não sei quem é’. O presidente da Federação respondeu: ‘É o Presidente da República’. Fiquei em choque e cheio de vergonha. Depois fiquei muito lisonjeado”, recordou.

Cerca de meia hora depois foi a vez do anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, entrar em contacto com Vasco Peso. “Foi diferente. Recebi uma chamada diretamente no meu telefone, de um número desconhecido. Normalmente ignoro, mas decidi atender. Assim que ele começou a falar já sabia quem era. Fiquei ainda mais assoberbado. Disse-lhe ‘Não sei como reagir, como é que o devo tratar. Agradeço imenso, muito obrigado’. Ele começou a rir, foi espectacular”, lembrou o atleta que, para além da sua carreira na ginástica de trampolim, encontra-se a estudar Engenharia Biomédica no Instituto Politécnico de Setúbal, na Escola Superior de Tecnologia. “Não é fácil conciliar. Querendo ou não, tenho de faltar muito [às aulas]. Já tive professores a prejudicarem-me, a ajudarem-se bastante, já tive colegas que me ajudaram, que prejudicaram… É muito importante escolher as pessoas que estão à nossa volta. Não é uma vida fácil de conciliar mas habituei-me. Não sou um aluno perfeito ou de excelência, sou um aluno normal, que tem uma vida desportiva à parte. Estou plenamente satisfeito com o meu percurso académico”, destacou.

“Já fui muitas vezes confrontado com essa escolha, não só em momentos pontuais. Nos momentos em que posso, opto sempre por ir para o treino, que me ajuda bastante. Querendo ou não, treinar ajuda-me a estabilizar a mente, faz-me muito bem e não consigo abdicar. Ajuda-me a lidar com os problemas da faculdade e com os meus problemas pessoais. Treinar é um tratamento. Hoje em dia ainda sou confrontado com a opção de sair da ginástica, mas continuo a ter mais motivos para continuar na ginástica do que sair para ir trabalhar. Infelizmente o desporto é assim, o meu corpo não vai durar para sempre, mas gostava muito de continuar e conciliar com o trabalho. A vida continua, isto não é um desporto olímpico, não recebo mensalmente, não é um trabalho, mas é a minha paixão. Ter de escolher entre uma vida académica ou de trabalho e a minha paixão… Ainda não consigo decidir. Estou a viver muito a ginástica. Um dia vou ter que responder a essa questão”, completou.

Apesar do sucesso que alcançou no tumbling, Vasco Peso já teve de lidar com vários dissabores ao longo da sua carreira. Para lá das deceções no trampolim, o atleta da Moita ultrapassou questões relacionadas com a sua saúde mental, em especial episódios de burnout. “Não é uma questão fácil de se falar. Felizmente tenho o privilégio de ter uma psicóloga que me acompanha bastante. Sou uma pessoa que tem uma ansiedade muito elevada, que em certas ocasiões pode ser demasiado perigosa. Ainda estou em desenvolvimento em termos de controlar esses pensamentos e essa ansiedade. Sempre que estou mais ansioso e a ter uma crise de pânico, peço a alguém para ficar ao meu lado. Sentir a presença de alguém ajuda-me a acalmar. No primeiro ano de faculdade lidei com situações de burnout, mas já aprendi a conciliar a faculdade com a ginástica. Estava a faltar em todos os campos da minha vida e não tinha muita energia. Isso esgotou-me imenso na altura. Na altura não pedi ajuda por vergonha e tinha de o fazer”, contou.

“Hoje em dia, muita gente tem vergonha de pedir ajuda. Isso tem de mudar. Quando alguém chega ao pé de nós e diz que não está a saber lidar, temos que nos sentar ao lado da pessoa e ouvi-la, sem julgar ou apontar o dedo. A pessoa tem que encontrar a sua forma de ultrapassar. A questão da saúde mental é perigosa e muito séria, tem de ser mais falada e investida. Durante alguns anos quebrei regras em Campeonatos do Mundo por causa da minha saúde mental. Cresci e aprendi a lidar. Esta questão da saúde mental tirou muita da pressão que coloco em mim. Era uma pessoa que punha muita pressão em mim mesmo, que era a maior que eu sentia. Quando aprendi a colocar de parte essa pressão, o meu corpo começou a voar e apenas a reagir, de forma muito natural. Há sempre nervosismo, mas não é perigoso e incontrolável. Já não lido da mesma forma com a competição. Há um impacto muito grande nas minhas performances, na forma como encaro os resultados e o processo de ser um ginasta de alto rendimento”, detalhou Peso.

Quanto ao futuro, Vasco revelou ao Observador que a sua ideia passava por deixar a ginástica “depois do Campeonato do Mundo”, que vai acontecer em novembro, em Sófia, na Bulgária. “Era para ingressar num projeto relacionado com desporto, que só vou revelar depois. Provavelmente vou ter de adiar, acho que a minha carreira não vai acabar este ano [risos]. Acho que ainda tenho um bocadinho mais para dar. Europeu de 2028? É uma resposta que não tenho, a minha vida está numa incógnita. Não era suposto, mas recebi uma notícia que me vai fazer ir até 2027. Estão a aparecer demasiadas oportunidades para garantir que não vou revalidar [o título]”, afirmou, antes de deixar uma mensagem para os mais jovens, que estão a começar na ginástica: “Se realmente gostas deste desporto, dedica-te, apaixona-te por este desporto, encontra diversão todos os dias e acredita nos teus sonhos. Só com dedicação e muita paixão é que os sonhos se tornam realidade. Pode demorar, mas no final todo o esforço vale a pena. Se trabalharem, se se dedicarem e se se apaixonarem cada vez mais pelo desporto, vão chegar muito longe”.

Feira do Seixal, a prata que sabe a ouro e uma medalha em LA: Gabriel, a (nova) referência

Um dos espelhos do crescimento de Portugal na modalidade é Gabriel Albuquerque que, depois da brilhante prestação olímpica, foi quarto classificado na vertente individual dos últimos Campeonatos do Mundo, realizados em Pamplona. A competir perto de casa, já que foi em Loulé que estabeleceu a sua residência para se notabilizar no desporto, o atleta da Associação de Pais e Amigos da Ginástica de Loulé (APAGL) foi o último a competir na final, fez o que nunca ninguém tinha conseguido em Portugal – chegar aos 64,240 pontos em finais –, mas acabou por ser derrotado pelo bielorrusso Ivan Litvinovich, que foi campeão olímpico em Tóquio-2020 e Paris-2024. Ainda assim, este foi um dos pontos altos na ainda jovem carreira de Gabriel, que subiu a um pódio em grandes eventos pela primeira vez.

https://observador.pt/2024/08/02/rap-underground-a-hipotese-mac-sem-a-ginastica-um-ja-foste-a-merino-e-muita-ambicao-a-cronica-de-uma-estreia-contada-por-gabriel/

“Há sempre espaço para melhorar. Já tinha feito uma pontuação melhor que esta, de 64 pontos, numas preliminares, mas esta prestação tem um grande significado, não só por ser um Europeu, mas por ser a minha primeira medalha em provas major. É muito importante porque acho que já podia ter conquistado uma medalha há algum tempo, não por não ter tido uma boa performance, mas por não ter sido a melhor que podia ter. Nesta correu muito bem. Esta prova serviu de exemplo daquilo que consigo fazer. Não tenho dúvidas que, nas próximas provas, vou continuar a lutar pelas medalhas. Já ando a dizer que o meu objetivo é o pódio – será sempre. Para mim, competição é para ganhar, ponto. Este segundo lugar soube-me a vitória, mesmo não conseguindo chegar ao Ivan [Litvinovich]. Soube-me a vitória exatamente porque já andava à procura disto e de uma boa performance, constante, há algum tempo”, começou por dizer o olímpico ao Observador.

O início de Gabriel Albuquerque na ginástica de trampolim acabou por acontecer, como habitual em atletas deste calibre, ainda novo. Natural de Lisboa, foi no Seixal que o jovem de 20 anos descobriu a sua vocação, numa… feira. “Comecei a praticar no Seixal, numa feira que tinha várias atividades. Num ano em que fomos lá, havia trampolins e eu quis ir saltar. A treinadora que estava a gerir o espaço perguntou à minha mãe se eu queria começar a treinar e assim foi. Não enfrentei muitas dificuldades nessa altura, só quando fui para o Algarve. Foi um bocadinho mais difícil conciliar a escola com os treinos, bem como fazer novos amigos. Já tinha a minha vida toda em Lisboa e tive que mudar em praticamente todos os aspetos. Não foi fácil, mas em termos de condições não me posso queixar”, recordou.

https://twitter.com/COPPORTUGAL/status/2043353976347722167?s=20

“Os Jogos Olímpicos foram muito marcantes, obviamente, mas não sei se posso dizer que foi o ponto mais alto da minha carreira até agora. Provavelmente muitas pessoa dirão isso, mas diria que o ponto alto foi este Europeu, que significa mais para mim. Os Jogos não mudaram grande coisa porque o objetivo é sempre o mesmo: a medalha, o pódio, sempre que seja possível e esteja num bom dia. Já estou lá em cima. O que me pode faltar são coisas que estou a trabalhar e que já estávamos a trabalhar antes: melhorar um pouco a execução, um pouco de ToF (time of flight, ‘tempo no ar’, em português) e colocar um bocadinho mais de dificuldade. Considero que já estou a entrar num possível debate [pelo topo]”, analisou Albuquerque.

Por agora, o ginasta da APAGL vai focar-se em “preparar a qualificação para os Jogos Olímpicos” de Los Angeles, em 2028, onde Gabriel acredita que poderá chegar à medalha. “Diria que é possível”, partilhou com o Observador. Até lá, os próximos objetivos passam por chegar à medalha “e fazer pódio nas Taças do Mundo” e, no final do ano, repetir o feito no Campeonato do Mundo: “Também quero o pódio”.