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(A) :: Um desafio a António Araújo

Um desafio a António Araújo

Conheço a posição de João Moreira da Silva e creio que a minha também é conhecida. O que nunca encontrei foi gente a defender a posição de meias-tintas, e talvez António Araújo possa vir explicá-la

João Pedro Marques
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Há dias, a propósito da morte de Boubacar Ould Messaoud e na qualidade de autor de um artigo biográfico sobre esse filho de escravos e principal impulsionador da luta contra a escravidão na Mauritânia, António Araújo fez preceder essa sua mini-biografia de algumas considerações sobre a Assembleia Geral da ONU do passado dia 25 de Março. Como é bem sabido nessa assembleia aprovou-se a proposta do Gana para que o tráfico transatlântico de escravos — e apenas essa modalidade de tráfico da escravatura — fosse solenemente declarado como o “mais grave crime contra a humanidade” e que, em consequência, deveriam os países que dele foram vítimas receber reparações. António Araújo notou que o governo português, alinhando com os outros governos europeus, se absteve perante tal proposta e sublinhou que essa abstenção “teve o condão de suscitar críticas dos dois lados da trincheira, com uns a defenderem que Portugal deveria ter votado a favor da resolução da ONU e outros a sustentarem o exacto oposto, isto é, que deveríamos ter votado contra”. António Araújo recorreu a João Moreira da Silva para ilustrar a posição dos que gostariam que o nosso governo tivesse aprovado a proposta do Gana, e usou um artigo meu — agradeço-lhe o facto de me ler — como exemplo dos que criticaram o dito governo por não ter votado frontalmente contra. De seguida, Araújo concluiu que “neste caso, como em tantos outros, os extremos tocaram-se e convergiram numa mesma conclusão: abstenção é que não.”

Não sei exactamente em que extremo António Araújo me colocou nem isso é importante. Mais importante, sim, é notar que quando afirmou que os extremos se tocaram, o articulista auto-atribuiu-se um lugar de moderação, razoabilidade, talvez, até, de serena superioridade analítica e política, e ficou como se fosse uma espécie de supremo árbitro ou de enigmático Salomão, a viajar no meio da estrada, sem pender para qualquer dos lados nem nos explicar a sua avaliação das coisas, o que é uma grande pena.

É que, ainda que seja errada, a posição de João Moreira da Silva e dos que partilham a sua opinião é conhecida, articulada e coerente com o que vêm defendendo no espaço público, nomeadamente a respeito das reparações, da alteração dos manuais escolares e das narrativas históricas, da culpa do homem branco, etc. Podemos opor-nos a esse conjunto de perspectivas, convicções e metas, mas sabemos quais elas são. Outro tanto relativamente àquilo que defendo e que já expus em centenas de textos, muitos deles em jornais. Creio que as minhas posições contra o pagamento de reparações e em defesa da ideia de que o tráfico transatlântico foi apenas uma de várias modalidades de tráfico de escravizados — que outras houve causadoras da movimentação de mais gente e a maiores distâncias —, ou também sobre o absurdo histórico e lógico de querer determinar qual dessas modalidades terá sido a mais grave ou criminosa (sublinhando que, em geral, não eram entendidas como crime na época em que se praticaram), e ainda sobre muitas outras questões adjacentes que seria cansativo trazer para aqui, são igualmente públicas e têm tido eco em Portugal e em algumas das suas antigas colónias. Encontra-se, aliás, este debate, a favor e contra a aprovação da proposta do Gana — tal como a favor ou contra as reparações —, nos noutros países ocidentais. O que eu nunca encontrei foi gente a defender uma posição de meias-tintas, uma posição de “nim”, que dando várias voltas não se sabe aonde e a quê vai desembocar na abstenção. Não vi sequer — e gostaria muitíssimo de ter visto — um representante do governo português a explicar nos jornais, nas rádios e televisões ou no parlamento, por que razão ou razões o governo se absteve, e qual o eventual mérito e adequação dessa sua posição intermédia.

E é aí que talvez António Araújo nos possa acudir vindo suprir essa lacuna, explicando não apenas a mim, mas a todo o país por que motivos Portugal deveria ter-se abstido, como efectivamente aconteceu. Por isso, aqui lhe deixo um pedido ou desafio nesse sentido. Se lhe corresponder, se for capaz de avançar os argumentos favoráveis à abstenção do nosso governo — com a qual parece, ainda que timida e subterraneamente, concordar —, e de os justificar em termos históricos, lógicos, morais e jurídicos, os portugueses ficar-lhe-ão certamente agradecidos por ter trazido os eixos de um lamentável e não assumido arranjinho diplomático à luz do dia.