Giulio Andreotti em Il Divo — A Vida Espectacular de Giulio Andreotti (2008), Silvio Berlusconi em Silvio e os Outros (2018), e agora Mariano De Santis em La Grazia. São já três os políticos italianos que Toni Servillo interpretou para Paolo Sorrentino, sendo que De Santis é um Presidente da República fictício, ao contrário de Andreotti e Berlusconi; e que – caso raríssimo na classe a que pertence — se orienta pela sua consciência. E também ao contrário daqueles dois, De Santis não cede nem ao maquiavelismo nem ao espectáculo e ao mediatismo. É uma figura idealizada, em que Sorrentino projeta como que ele gostaria que os políticos fossem.
[Veja o “trailer” de “La Grazia”:]
https://www.youtube.com/watch?v=zvQn44a_IHo
La Grazia decorre nos últimos seis meses do mandato do viúvo, católico e retíssimo De Santis, um presidente bem-amado pelos seus concidadãos e respeitado pelos membros da sua equipa (que incluem a filha solteira, Dorotea, assessora jurídica, personificada por Anna Ferzetti), mesmo os que nem sempre concordam com ele. A sua alcunha é “betão armado”, porque nunca cede a pressões. E por aquilo que um membro do público lhe grita quando vai a uma gala no La Scala (“Salvaste-nos daquele tolo!”), percebemos que houve uma grave crise envolvendo o anterior primeiro-ministro, bem resolvida pelo presidente (que parece dar-se lindamente com o seu sucessor).
Mas De Santis, que a certa altura diz à filha não ser um político mas sim “um juiz que é Presidente da República”, e uma pessoa “cinzenta e aborrecida, e de bem com isso”, está longe de ser um homem que não se deixa afetar pela dúvida, pela indecisão ou por estados de alma incómodos. Antes de deixar o cargo, tem de tomar decisões sobre casos e leis complexas, que o colocam entre dilemas morais. E é roído interiormente pelo desconhecimento face a um mistério pessoal.
[Veja Paolo Sorrentino falar sobre o filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=DUTBlRg_6AM
Este presidente interroga-se, a certa altura, temendo também o juízo da opinião pública sobre as decisões que estão em cima da mesa. E começa a desconfiar que a mulher talvez o tenha enganado com que menos esperava. De Santis, hesita, pede mais tempo para refletir, adia, interroga-se, suplica. Paz é coisa que ele não conhece.
[Veja uma entrevista com Toni Servillo:]
https://www.youtube.com/watch?v=OKlDmfNZGX8
Paolo Sorrentino filma este presidente tolhido pelos dilemas éticos e morais postos pelas três derradeiras decisões que tem que tomar, e obcecado pelo fantasma da mulher, enquanto passeia pela sumptuosa residência presidencial (a fita foi rodada em vários palácios e castelos de Itália, mas os cenários nunca abafam a história). E vai acumulando pequenos episódios. De Santis fuma às escondidas nos pontos altos do edifício com a cumplicidade do seu chefe da segurança; visita o Papa, um africano conservador, jovial e frontal, para pedir conselho; vive uma situação caricata envolvendo o Presidente de Portugal e uma súbita chuvada; recebe a embaixadora da Lituânia numa situação pouco ortodoxa; vai a um jantar de veteranos das tropas alpinas e canta com os militares; ouve rap nos auscultadores; deixa, cruel e estranhamente, um cavalo da guarda agonizar em vez de autorizar que seja abatido, confessa a um general que nunca foi corajoso. E medita sobre uma pergunta: “A quem pertencem os nossos dias?”.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=DdDZQhgK2Gc
La Grazia é um filme profundamente melancólico, íntimo e pictórico, servido pela elegância, fluidez e compostura da linguagem visual de Sorrentino, que alinha belíssimas composições cinematográficas e capta a régua e esquadro a figura austera de De Santis nos imponentes salões e corredores a perder de vista do palácio presidencial, a meditar na natureza invernosa ou movimentando-se com discrição pelos locais que visita. E insere no enredo um ou dois apontamentos insólitos tipicamente seus (a ligação ao astronauta italiano que está no espaço, o cão-robô que, com o serviço de segurança de De Santis, o acompanha no passeio até casa, após ter cessado funções).
O hesitante e atormentado presidente é o coração emocional e moral do filme, e Toni Servillo vive-o com imperial sobriedade, falando apenas o estritamente necessário, dizendo ou sugerindo o que é preciso com uma simples expressão, com o olhar, uma hesitação, um franzir da testa, um silêncio no lugar de uma palavra. La Grazia repousa sobre os seus ombros, mas ele nunca lhe sente o peso. Até que tudo é decidido, assinado e respondido, e o ex-presidente pode então falar com os filhos no computador, dar uma entrevista a uma revista de moda e jantar na cozinha com a velha amiga. E mostrar que o bicho do ciúme ainda o rói lá por dentro, ao pregar uma rasteira institucional ao suspeito de adultério com a mulher. É a forma de Paolo Sorrentino dizer que nem um político idealizado como ele está imune a fazer uma patifaria por despeito.