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O Regresso do Homem Religioso

Se a ciência não explica, não consegue o pleno da assertividade, então deverá existir algo fora dela que a regule e lhe dê sentido. Os monoteístas chamam-lhe Deus.

José Torres da Costa
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Pautei toda a minha vida por certezas. Certeza de ser racional, ponderado, lúcido. Certeza de por entre o incerto haver sempre um caminho, um trilho, uma escarpa que leve à luz. Um rumo de, e para a lucidez. Sim, sou filho do iluminismo, da ciência, da demanda, da procura e da resposta, do método experimental, do mundo dos porquês! Nasci num mundo saído do ábaco que de há dois séculos acelerou em vertigem. Aprendi na lousa, usei pena, lápis, caneta, esferográfica. Tive papel, tabela de cálculo, calculadora de bolso, computador, portáteis, internet, WWW. Hoje, tenho isto tudo na palma da mão.

Se numa viagem mágica retrocedesse alguns milhares de anos e, nesse passe de mágica, surgisse assim, de repente, defronte de um sapiens do Neolítico, seria visto como um Deus!

Seria idolatrado, iriam-me construir monumentos, dar-me-iam oferendas, curvar-se-iam à minha passagem. Temer-me-iam, não ousariam olhar-me nos olhos! E se algum herege, um apóstata se atrevesse a desafiar-me, rugir-lhe-ia com voz tonitruante e enviar-lhe-ia o meu raio de morte. Ameaçá-lo-ia com pragas e numa fúria épica condená-lo-ia ao esquecimento. Amaldiçoava-lhe a prole e todos aqueles com que num raio de 1000 metros alguma vez tivessem privado! Seria O seu Rei, seria Divino. Porém, se não tivesse o comportamento vingativo do velho Deus, O do antigo Testamento, e se junto à fogueira, no conforto do círculo entre pares, se em comunhão numa noite estrelada e no calor das labaredas partilhássemos o alimento e as histórias do dia, se nesse momento de harmonia me olhassem no coração ensiná-los-ia o como tudo funcionava, como era o mundo, quais as leis e equações, ensiná-los-ia a fazer previsões, cálculos, contudo, se me olhassem no coração, bem fundo no coração veriam, que tal como eles, me sentia perdido sem as respostas sagradas que sempre procuramos. Porquê? Qual o sentido? Tem um objetivo? Qual o propósito? Tem um fim? Há algum depois? Se lhes abrisse o coração veriam que todas as questões que os atormentavam são exatamente as mesmas que me levam a escrever este texto.

Passaram 40.000 anos desde que nas grutas de Lacaux, Altamira ou de Chauvet registámos as mesmas empreitadas, a mesma jornada e eventualmente procuramos resposta aos porquês que ainda hoje nos atormentam. Passaram 10.000 anos desde que o homem construiu o primeiro monumento de que temos registo – Göbekli Tepe, um ponto de reunião, um ritual, uma celebração, senão de uma divindade, pelos menos da procura de algo que dê sentido à vida e à existência.

Esta procura de apoio, de proteção, de algo divino, brotou por toda a esfera terrestre num florir primaveril, como se tudo estivesse programado para assim ocorrer. Desde os primórdios dos registos dos Sapiens que é possível encontrar vestígios deste misticismo e espiritualidade humana – Rituais em enterros pré-históricos com cerca de 100.000 um pouco por todo o lado, África, Europa e Ásia; Göbekli Tepe, 9000 a.C. Ásia; Petróglifos, 9000 a.C. América do Sul; Nabta Playa, 6000 a.C. África; Stonehenge, 3000 a.C. Europa; Caral, 3000 a.C. América do Sul; Tábuas Cuneiformes Mesopotâmia, 3000 a.C. Ásia; Complexo de Gizé, 2600 a.C. África; Epopeia de Gilgamesh, 2100 a.C. Ásia; Templo de Karnak, 2000 a.C. África; Enuma Elish, 1800 a.C. Ásia; Código de Hamurábi, 1754 a.C. Ásia; Rigveda, 1500 a.C. Ásia; Antigo Testamento, 1200 a.C.: Ásia; Monte Albán, 500 a.C. América do Norte; e tantos outros poderiam ser citados. São todas elas manifestações de uma espiritualidade surgidas numa diversidade geográfica que não acolhe qualquer efeito de contágio civilizacional. Uma diversidade que parece emergir de algo muito intrínseco aos humanos, a emergência do homem religioso.

Não sei se foi o homem que inventou Deus, ou se este é O responsável por tudo o que vemos e existe. Não sei quem precedeu, nem quem deu a existência a quem. E provavelmente, talvez essa não seja a grande questão. Fazem ambos parte do ethos e páthos de cada um de nós, sentimo-lo, pressentimo-lo e, mesmo quando o negamos, nunca o fazemos absolutamente convencidos da nossa posição. Há sempre uma dúvida, há sempre perguntas sem resposta. Talvez a divindade seja isso, a resposta ao que não sabemos.

Ao longo da modernidade, sobretudo desde o Iluminismo, consolidou-se a ideia que o avanço da razão e da ciência conduziria ao declínio inevitável da religião. Pensadores como Friedrich Nietzsche anunciaram simbolicamente a “morte de Deus”. Max Weber descreveu o mundo moderno como progressivamente “desencantado”. No meio deste ubiquitário, desta morte anunciada houve ainda quem, como Richard Dawkins, no seu livro “The God Delusion” – pessimamente traduzido para português por “A Desilusão de Deus”, visse a religiosidade como uma forma de irracionalidade, mas também como logro e ardil. Para estes, as manifestações espontâneas com cem mil anos de existência, traduziriam um distúrbio psíquico, uma patologia persistente numa crença que – “todas as evidências denunciam como falsa”. Ao aplicar neste contexto o termo delusão é mais que uma visão irracional de se ver a religião, é também apelidá-la de dolo e desequilíbrio psiquiátrico. Outros, como Robert Pirsing acrescentam, “quando uma pessoa sofre de uma delusão chama-se-lhe insanidade. Quando são muitas pessoas a manifestar o mesmo chama-se-lhe religião”.

Para Richard Dawkins, e outros, a hipótese de Deus deveria ser confrontada com o mesmo racional que usamos em ciência. Para evidenciar um ethos divino, teríamos, como em qualquer teoria científica, de sujeitar Deus ao martírio da espectrografia fotoelétrica, à cristalografia de Rx, ou uma outra qualquer técnica que faria de “cientista” um erudito ou alguém apto a definir Deus em termos de temperatura, ponto de cristalização ou outra característica com que nos entretemos na demanda científica.

Porém, a hipótese de Deus é uma questão de fé e, ao contrário da ciência, não pode ser sujeita ao método experimental. Propô-lo ou fazê-lo só cobre o “investigador” de ridículo!

Alguns tentaram-no como decorreu num estudo financiado pela “Templeton Foundation”, e no qual foi testada a “influência da oração” na história natural da doença coronária. Para testar a hipótese os participantes foram divididos em três grupos, todos com tratamento médico semelhante, mas em que um foi objeto de preces, um segundo grupo controlo sem oração associada ao plano terapêutico, e um último que sabia haver quem rezasse pela sua recuperação. E os resultados foram inequívocos!

Este tipo de experiências é obviamente absurdo e mostra para onde nos dirigimos quando exigimos aos crentes uma prova material do objeto da sua fé.

Durante e após o iluminismo, muitos foram os homens de ciência que, deslumbrados pelos seus feitos, remeteram a hipótese de Deus, ou para um ridículo absurdo, ou, timidamente como Martin Rees, presidente da Royal Society, consideravam-se não crentes, porém, praticavam atos religiosos, não porque acreditassem, assim dizem, mas por “lealdade para com a tribo “. Será!

O mundo religioso, sempre teve dificuldade em lidar com o “asceticismo” da ciência e usou a insuficiência da mesma, onde uma resposta coloca sempre novas perguntas, como um argumento favorável à existência de Deus. Se a ciência não explica, não consegue o pleno da assertividade, então deverá existir algo fora dela que a regule e lhe dê sentido. Os monoteístas chamam-lhe Deus, outros viam na natureza, no universo ou no próprio cosmos uma consciência superior como origem de tudo quanto existe.

Contudo, as explicações eram demasiado dicotómicas e para qualquer homem de ciência sério e exigente, as águas deveriam ser sempre separadas. Se a ciência por cada resposta que encontra deixa um lastro de perguntas, é porque não evoluiu o suficiente nem ainda tem as ferramentas adequadas.

A tentativa de acomodar a religião no mundo da ciência nunca foi bem recebida nem por homens de ciência, mas também por religiosos e em particular pelos mais fundamentalistas que persistentemente veem no Darwinismo e nas teorias evolucionistas o seu principal inimigo.

Em finais do século XIX, início de XX, o afastamento assumiu o apogeu. Porém como tudo mudaria no decorrer desse século!

Neste jogo dos porquês, numa realidade de tartarugas-até- ao-fim, seria do próprio lado da ciência que um novo conceito de “Deus” e de “divino” acabaria por emergir!

Já no século XX, o regresso do homem religioso acabaria por emergir de duas formas. Uma destas foi sem dúvida das neurociências.

A consciência foi durante séculos vista como o que nos ligaria ao divino. Não teria uma localização precisa seria uma emergência do corpo, uma emersão divina, um toque como o retratado na Capela Sistina. A ciência, com raríssimas exceções, não a via como um fenómeno físico e deixaria durante séculos essa realidade para o estudo do divino e da relação do homem com Deus.

O paradigma mudaria algo com Descartes que ao formular a base do racionalismo cartesiano – “penso logo existo”, necessitava de encontrar uma estrutura física que acomodasse a alma e fosse o centro da consciência e da alma. Foi assim sugerida a glândula pineal como localização, porque se pensava que teria de ser uma estrutura ímpar e de preferência localizada no cérebro. O problema não ficaria resolvido porque esta mesma estrutura existia na maioria dos mamíferos e, não havendo animalistas à época, ninguém lhe queria reconhecer dignidade para ser sede nem da alma nem da consciência.

Numa critica a este dualismo cartesiano, e assente em ombros de gigantes – Spinoza e Darwin, o português António Damásio assumiu que mente e corpo são um só, sendo impossível a sua dissociação! Dennett tem uma visão mais radical. Rejeita também o dualismo cartesiano, o “teatro Cartesiano”, como lhe chama, para interpretar a consciência como resultado da evolução biológica, um processo “diluído” por todo o organismo.

E os estudos de neurociência de hoje parecem dar razão à esta visão de Damásio e Dennett. Não conseguimos localizar a consciência em nenhum ponto do organismo. Nem mesmo nos que se encontram em coma profundo, nem nesses conseguimos saber se alguma “consciência” os habita ainda.

A dificuldade em localizar a “sede da consciência” de alguma forma facilitou o “regresso do homem religioso” valorizando na “experiência interior” a busca de um sentido para um mundo marcado pela incerteza.

Por outro lado, a própria ciência, acabaria por abrir espaços inesperados para esta reflexão. A neurociência, por exemplo, através dos estudos de Andrew Newberg, demonstrou que a meditação esta associada a padrões específicos de atividade cerebral. Observações semelhantes levantam interrogações para as quais a ciência não tem resposta pronta. Os registos da actividade de uma área cerebral conhecida por “Default Mode Network”, uma rede neuronal associada à construção do “eu” consciente, revelaram que em certos estados de meditação profunda ou induzidos por estímulos musicais próprios acompanhavam-se da diminuição da sua atividade e a par desta, de uma sensação de plenitude global. Experiências como esta – e muitas outras há, não demonstram a existência de qualquer realidade transcendente, mas abrem dúvidas e dão algum crédito aos que insistentemente ao longo da história, referiram, ou se lhes conhece experiências místicas ou transcendentais.

Dir-me-á, isto não é evidencia de nada! E tem razão, não demonstra nada, mas sejamos honestos, se mérito têm, é o de abrir a porta a um talvez!

Se os avanços em neurociência abrem portas para uma realidade que a ciência mecanicista estava longe de imaginar, o ressurgimento de um novo conceito místico, acabaria por surgir do infinitamente pequeno. Se no mundo macroscópico a realidade se apresenta fragmentada e composta por elementos separados no espaço e no tempo, já no domínio do infinitamente pequeno essa separação aparenta desfazer-se. A física quântica, através de fenómenos como o “entrelaçamento quântico” ou o princípio de incerteza de Heisenberg, vieram mostrar que a realidade é muito mais estranha que o que poderíamos supor. No muito pequeno, o que existe aparenta estar ligado apesar de separado em eóns de espaço. Uma verdade tão estranha como a de a realidade só acontecer após colapso de uma “existência” probabilística. A nossa realidade, a nossa “tartaruga” assenta numa outra onde espaço e tempo deixam de existir, e onde, por paradoxal que nos pareça, emerge o que percecionamos, ainda que seja apenas uma perspetiva de um todo bem maior e mais complexo.

A visão do mundo registada pelas neurociências, física quântica e psicologia experimental, sugerem que a realidade é diferente do que nos vem dos sentidos ou do que intuímos na vivência diária. Não sabemos o que há para além dos nossos limites!

O físico teórico David Bohm (1917-1992), ao tentar integrar os conceitos quânticos na realidade percecionada – a nossa tartaruga, propôs a ideia de uma ordem implícita, uma dimensão profunda onde todas as coisas estariam interligadas, uma realidade onde o mundo visível seria apenas uma manifestação superficial dessa totalidade. Embora estas ideias não se estruturem na prova científica de uma “consciência universal”, este olhar desafia a visão mecanicista e separadora herdada da modernidade, aproximando-se de intuições presentes em diversas tradições espirituais.

É, contudo, em Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) que encontramos uma das sínteses mais ousadas entre ciência e espiritualidade. Para o teólogo e paleontólogo, a evolução não se limita ao plano biológico, mas implica um crescimento progressivo da consciência, culminando na formação da Noosfera — uma espécie de mente coletiva da humanidade. Este processo tenderia para uma convergência final, onde as diversas formas conscientes atingiriam uma unificação plena.

O “Regresso do Homem Religioso” não é assim um retrocesso face ao progresso científico. Poderá ser antes a emergência de algo que intuímos, de que vislumbramos apenas de franjas, mas que verdadeiramente desconhecemos. A ciência explica bem o como, mas está longe de eliminar o sentido e as necessidades dos porquês! Surpreendentemente foi no mais pequeno que as interrogações se alargaram levantando a suspeita de haver uma relação complexa entre a consciência e a profundidade de um mundo micro que como se invagina na realidade que experienciamos.

Talvez o homem religioso nunca tenha verdadeiramente desaparecido. O que mudou foi a forma como interpreta o sagrado, agora já não como algo exterior e transcendente, mas como uma dimensão que atravessa a própria realidade e a consciência. Neste sentido, o seu “regresso” pode afinal ser um sinal de maturidade, o início de um diálogo entre razão e transcendência, entre conhecimento e sentido.