Quando Donald Trump chegou ao John F. Kennedy Center, em Washington, tudo parou. Os flashes viraram, os microfones começaram a atropelar-se, o foco estava centrado numa pessoa – e não era Gianni Infantino, o líder da FIFA que despiu o traje de mestre da cerimónia para vestir um fato entre o acólito e o súbdito. “Vai ser o maior evento de sempre”, “Batemos todos os recordes que existiam”, “Nunca houve nada como aquilo que vamos fazer”. A narrativa tantas vezes ouvida a propósito de um sem número de assuntos, como se fosse um fenómeno de IA onde se coloca um tema acompanhado por um adjetivo no comparativo de superioridade sintético e está feita a festa. Foi assim no sorteio, continuou assim em tudo, será assim em muito mais.
O Campeonato do Mundo de futebol está de regresso aos EUA, agora acompanhados por México e Canadá que parecem ser pouco mais do que figurantes. Donald Trump era presidente quando a candidatura conjunta venceu Marrocos em 2018, Donald Trump será presidente durante a fase final em 2026. O mundo mudou, o país mudou, os traços que definem a liderança nem por isso. Se há oito anos a presidência ameaçava deixar a Organização Mundial do Comércio, se pelo meio o foco de discórdia chegou à Organização Mundial da Saúde e à ONU, entre outros, agora as ameaças chegaram à NATO. No entanto, o futebol conseguiu ter a atenção de Trump, a ponto de Trump querer acabar com a palavra “soccer” para chamar apenas “football” – e a NFL, a organização de futebol americano que tem no Super Bowl um daqueles eventos que concentram milhões e milhões de olhares nos EUA, que arranje outro nome. Mais atenção do que se poderia imaginar.
O Mundial de futebol não é da América do Norte ou dos EUA, é de Trump. E, como em tudo o que tem a mão mais ou menos visível de Trump, trará tanta ou mais imprevisibilidade dentro como fora de campo.
Recuemos até ao último verão. Quando em julho o líder norte-americano teve o seu Dia da Independência em pleno MetLife Stadium, colocando-se como figura principal no momento em que os capitães do Chelsea iam levantar o troféu do primeiro Mundial de Clubes no atual formato, o mote estava dado. Aí, recebeu “apenas” uma medalha de campeão e entregou o principal prémio ao vencedor. No sorteio da fase final do Mundial de seleções, dois meses depois da atribuição do Nobel da Paz a María Corina Machado, teve direito ao primeiro “Prémio da Paz da FIFA”. A FIFA, aquele órgão que lidera no protocolo e que não demorou a banir o famoso chef Salt Bae de todos os seus eventos por ter entrado sem autorização no relvado após a final do Mundial de 2022, estendeu a passadeira para alguém “de fora” estar e ficar no palco dos campeões. A FIFA, aquele órgão que proclama neutralidade política, não teve pejo em criar um prémio que não podia ser mais político.

Trump nunca teve ligação ao futebol – esteve perto mas não chegou lá, deixando cair a hipótese de comprar os escoceses do Rangers em 2012 quando viu a situação financeira do clube e não conseguindo convencer os colombianos do Atlético Nacional, em 2015, numa parceria com Alessandro Proto, polémico empresário ligado ao imobiliário e às finanças que lançou o livro “Eu sou o impostor – A história do homem que enganou todos”. No entanto, ainda se recorda dos tempos de Pelé no Cosmos e apercebeu-se da importância de ter Ronaldo logo nos primeiros lugares do Salão Este da Casa Branca quando a delegação saudita liderada pelo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salmám, visitou os EUA (ele e o filho Barron, claro). E tão depressa escreveu em fevereiro que Ronaldo era “o maior jogador de todos os tempos”, pedindo para que rumasse aos EUA, como no mês seguinte, quando recebeu o campeão Inter Miami, questionou Messi se o melhor de todos os tempos era ele ou Pelé. Dá para tudo, chega para todos, sente vai ter tudo e todos.
Foi nessa base que Trump transformou uma competição mundial numa prova “sua” para dar ao mundo – e com a criação de uma task force na própria Casa Branca especificamente para a organização do torneio, num grupo de trabalho que tem como missão coordenar todo o trabalho entre segurança, organização e logística de uma edição que será escrita no dialeto que mais gosta, no comparativo de superioridade sintético: vai ter o maior número de equipas de sempre (48, com os estreantes Curaçau, Cabo Verde, Uzbequistão e Jordânia), vai ter o maior número de jogos de sempre (104), vai ter a maior duração de sempre (39 dias). Agora, resta passar da teoria à prática em todos os outros maiores e melhores propagandeados nos últimos meses.

Preços exorbitantes (perdão, “dinâmicos”), o peso do shutdown e um comboio a 150 dólares
Uma das grandes marcas deste Mundial será sempre os preços exorbitantes – perdão, os preços “dinâmicos” – dos bilhetes, que já motivaram várias queixas de diversas organizações. As notícias que davam conta de um bilhete para o Colômbia-Portugal, da fase de grupos, que estaria à venda por quase 11 milhões de euros não eram propriamente reais mas tiveram o condão de mostrar como o sistema adotado podia inflacionar o valor de cada entrada no mercado de revenda, uma ideia que a FIFA abraçou à luz das leis de atividade comercial dos EUA para criar o seu próprio nicho com uma comissão de 15% aplicada a quem vende e a quem compra. Se um bilhete para o Super Bowl, a tal final do football-que-vai-deixar-de-ser-football, é um investimento que acontece once in a life time, agora um qualquer encontro do Mundial arrisca ser mais caro.
A base de toda a discórdia está na possibilidade de haver flutuação de preços consoante a procura, muito longe dos tempos em que havia três/quatro valores fixos por encontro consoante o local no recinto (não é por acaso que os preço médio das entradas para a final da competição podem ficar cinco a sete vezes mais caros do que no Qatar em 2022). Mas essa não é a única “verdade” entre mentiras. Exemplo prático: os três jogos de Portugal na fase de grupos estarão esgotados mas a fatia para adeptos da Seleção que se tenham inscrito na plataforma da Federação irá corresponder apenas a 8% da lotação do estádio, com valores aqui fixos entre os 265 e os 700 dólares. Mais: as federações nacionais ficaram com pouquíssimos bilhetes de custo reduzido a 60 dólares, que mais não foi do que uma mera parangona para desviar atenções do resto.
A questão das entradas nos estádios vive uma realidade sem precedentes, a forma de chega aos estádios não é muito diferente – pelo menos nos EUA. Como ironizava o Wall Street Journal no final de abril, “na lista dos grandes roubos da era moderna, ao lado da bebida a 25 dólares, do lugar de estacionamento a 80 dólares ou de uma faculdade a 90 mil dólares por ano, entra uma suada viagem de 150 dólares de Manhattan até ao pântano de Meadowlands para assistir a um jogo do Mundial”. Sim, isso mesmo: cento e cinquenta dólares para fazer uma viagem de pouco mais de meia hora de comboio para chegar ao MetLife Stadium, que entre vários encontros irá receber o grande final do Mundial. “Porquê parar por aí? Que tal pagar 100 mil dólares para atravessar o Túnel Lincoln no Chevrolet Suburban de 1999 do Tony Soprano? Ou 50 mil dólares para colocar um capacete vermelho, branco e azul e ser lançado de canhão sobre o rio?”, acrescenta.
Por altura do sorteio da fase final, aquilo que mais se falava era do impacto económico que a organização de um grande evento podia trazer. Agora, entrámos de novo numa realidade de comparativos de superioridade sintético que ninguém conseguiria imaginar – e que, por ser menos friendly em termos de reputação, gera comboios de passa culpas de um lado para o outro. Neste caso em concreto, a governadora de Nova Jérsia, Mikie Sherrill, atira as culpas para a FIFA, “que pagou zero por uma fatura de 48 milhões de dólares”. A FIFA, por seu turno, diz que não tem responsabilidade naquilo que se decide em termos locais e, sem falar nesse sentido, chuta para o governo central. Se a bola chega a Trump, o jogo vira-se contra todos. Na mesma altura em que a América recebe “104 Super Bowl”, como definiu Infantino comparando o jogo mais esperado pelos norte-americanos com um Equador-Curaçau, um Cabo Verde-Arábia Saudita, um Jordânia-Argélia ou um Uzbequistão-Congo, os EUA encontram-se em campanha para as eleições intercalares. E isso “pesa”.

Pesa na forma como todas as questões são abordadas em termos internos, numa realidade que não se pode comparar com o que se escreve de forma. Pesa na maneira como se tentam apontar culpados em busca dos mais inocentes votos. Pesa no conteúdo de qualquer abordagem sobre o Mundial com impacto no país.
Outro exemplo disso foi o cancelamento gradual de vários programas, atividades e espectáculos anunciados para essa fase em vários estados que recebem jogos da competição. Razão oficial? A questão do shutdown, que deixou o país parado durante mais de 40 dias até entrar em ação uma versão mais hardcore de política que colocou um pequeno grupo de democratas a contornar o sentido de voto da bancada para ficarem ao lado dos republicanos. O maior período de paralisação governamental de sempre na história dos EUA (outra vez o comparativo de superioridade…) congelou a saídas das verbas que tinham sido aprovadas antes no “One Big Beautiful Bill Act”, a FIFA também decidiu a determinada altura cortar quase 100 milhões de euros no orçamento operacional, a pressão aumentou de tal forma que nem a distribuição dos 625 milhões de dólares previstos evitou vários condicionamentos no planeamento, que funcionaram em casos pontuais como “vingança” contra os acordos de exclusividade com a FIFA que castraram fontes de receita aos estados.

O que caiu? Melhorias nas infraestruturas que ficariam como investimento a médio/longo prazo, renovação das redes de transportes e respetivas unidades, aumento de quadros com os novos estímulos na economia. Isso e o “tailgating”, tradição norte-americana sobretudo nos encontros de futebol americano que, na nossa realidade, acaba por ser um misto entre festa nas matas do Jamor e roulotes perto dos estádios. Não haverá em Boston, não haverá nos jogos na costa este, não haverá em Seattle – mas nem por isso as partidas que se vão realizar no Lumen Field deixarão de ter atenções mediáticas, sobretudo quando Egito e Irão, países onde vigoram leis que criminalizam a homossexualidade, entrarem em campo a 26 de junho no “Jogo do Orgulho”.
“Com centenas de milhares de visitantes e milhares de milhões de telespectadores, esta é uma oportunidade única para mostrar e celebrar as comunidades LGBTQIA+”, anunciara a cidade antes do sorteio que colocou as duas seleções nesse momento em concreto. O Egito protestou, nada feito. O Irão protestou, nada feito. O fim de semana do Seattle Pride, na mesma cidade onde aconteceram os Stonewall Riots há 57 anos, não será alterado. No entanto, e para os asiáticos, aquilo que era a maior dor de cabeça tornou-se quase secundário perante a guerra iniciada no final de fevereiro. Também aqui, foram feitos pedidos à FIFA para que o Irão pudesse jogar noutro país que não os EUA. Mais uma vez, nada feito. “A seleção nacional de futebol do Irão é bem-vinda ao Mundial, mas realmente não acho que seja apropriado que estejam lá, para a sua própria segurança”, chegou a escrever o presidente norte-americano na Truth Social a esse propósito, em março. Recentemente, Paolo Zampolli, enviado especial dos EUA e empresário próximo a Donald Trump, fez chegar à FIFA um pedido para trocar o Irão pela Itália no Mundial… “por uma questão de currículo”.
O Irão surge também como foco num outro ponto que tem marcado a antecâmara da fase final do Mundial: a entrada no país de milhares e milhares de adeptos de todos os países. Todos ou quase todos. Se o António, o Joaquim e o Manuel podem pedir um visto com a sua nacionalidade portuguesa e até beneficiarem do novo sistema do FIFA Pass para acelerarem o processo, outros não terão tanta sorte. Exemplos? Costa do Marfim, Haiti, Irão, Senegal ou Cabo Verde. Mais: assegurando esse tal visto de entrada, correm o risco de serem obrigados a deixar uma caução até 15 mil dólares quando entrarem nos EUA como garantia de que no final deixam o país. “Estamos interessados em participar no Mundial mas o governo norte-americano não fornece o apoio logístico e administrativo necessário”, lamentou Abolfazl Psedniddeh, embaixador iraniano no México. Foi por isso que, por altura do sorteio, o Irão viu apenas aprovados quatro vistos de entrada. Um dos que foi rejeitado foi o de Medhi Taj, nada mais do que o presidente da Federação Iraniana de Futebol.
O papel operacional do ICE entre a máxima “venham , celebrem e depois voltem para casa”
Tudo em nome da segurança, a grande bandeira de Donald Trump nesta segunda presidência. A FIFA parece ter deixado cair o pedido de isenção fiscal negociado com o governo norte-americano, o que vai fazer com que muitas seleções tenham impostos federais e custos extra por liquidar neste Mundial, mas ainda está, sempre com muitas pinças à mistura, a tentar que exista uma espécie de congelamento das operações de deportação do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Por pressão dos pares da Direção, por pressão das federações nacionais (com muitas europeias à mistura), por pressão de organizações e adeptos.
Há números que traçam o diagnóstico do que tem sido a ação do ICE nos últimos meses. O Washington Post escreveu que, nas seis semanas que se seguiram à morte do norte-americano Alex Pretti, no final de janeiro, houve cerca de mil detenções por dia, das quais 42% de pessoas sem antecedentes criminais. Desde que a “operação Mundial” arrancou em termos práticos, o ICE foi sempre colocado como “uma força com um papel fundamental” em toda a operação. Problema? Muitos temem que aquilo que deveriam ser apenas ações tendo em conta a segurança interna se possam alargar a operações de combate à imigração nos arredores de todos os estádios que vão receber a prova – algo que teria acontecido no Mundial de Clubes de 2025, em conjunto com a Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP). “Meros alarmismos”, apontaram os visados.

Trump, que no ano passado ameaçara mudar algumas cidades-sede como Seattle e São Francisco, “lideradas por esquerdistas lunáticos radicais”, caso não fossem “seguras”, não está propriamente preocupado com esse ruído e mantém a máxima em relação a todos os adeptos – “que venham, que celebrem e que depois voltem para casa”. E é isso que continuará a defender junto de Infantino, numa das várias ocasiões em que estarão juntos numa relação que levou o líder da FIFA ao comício inaugural, à tomada de posse, aos encontros de um tal Conselho de Paz ou a inúmeras presenças no Salão Oval sempre ao lado do presidente norte-americano (ou, se estiverem na cidade de Nova Iorque, à Trump Tower, local que a FIFA considerou ser o melhor para abrir o novo escritório recentemente). Ah, e deverá levar à inauguração do Arco do Triunfo.
Washington está num período de mutação nesta segunda gestão de Trump tendo como bandeira a celebração dos 250 anos da independência dos EUA, a 4 de julho. Vai haver de tudo um pouco, das corridas Indy pelas ruas da cidade e combates de UFC na Casa Branca. É também aí que está a ser projetado um salão de baile na ala este, depois de várias mudanças nos designs interiores. No entanto, o grande ex libris das comemorações será a gigantesca obra já catalogada por alguns como o Arco de Trump, mais alto do que o Memorial Lincoln e o Capitólio (76 metros) e com a figura da Estátua da Liberdade com as inscrições a ouro de “Uma Nação Sob Deus” e “Liberdade e Justiça para Todos”. “Vai ser um grande acrescento a toda a área de Washington DC para que os norte-americanos apreciem durante muitas décadas”, destacou. “Vai ser o maior e mais bonito Arco do Triunfo em qualquer parte do Mundo!”, frisou. Claro, o comparativo de superioridade.
Em paralelo com isso, a FIFA tem um desafio real – ou, neste caso, um teste a esse tipo de mentalidade onde as palavras “maior”, “melhor” e “sempre” estão em qualquer formulação. Há um retângulo de quase 120 por 90 metros onde, até ver, Trump, a entrar, só o faz após o apito final. É também aí que estão todas as atenções de quem alimenta toda esta máquina de milhões e milhões e milhões de euros: os adeptos. O alargamento do número de equipas para 48 não só transformou a qualificação num pro forma em versão speed dating como vai tornar a fase inicial num terreno pródigo a resultados expressivos que de espectáculo podem ter pouco ou nada. Em alguns casos, as melhores seleções arriscam ter o seu principal exame apenas a partir dos oitavos. Dará isso audiências? Aumentará a competitividade? Será um “custo” com retorno?
Equipas como Portugal, a par de Espanha, França, Alemanha, Brasil ou Argentina, entre outras, darão essa resposta. Nomes como Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi serão vendáveis em qualquer formato competitivo, a prova em si depende de vários fatores entre a imprevisibilidade do primeiro Mundial de sempre entre três países, que obrigará a constantes viagens, que terá diferentes condições climatéricas e que dependerá em larga medida da condição física dos atletas depois de outra época desgastante com mais de 50 jogos oficiais nas pernas. Para Trump, que percebeu cedo o impacto que um Campeonato do Mundo podia ter no país, a vitória está assegurada – no comparativo de superioridade sintético. E a bola que faz girar todo o movimento da FIFA foi passada para que os EUA tivessem o palco que mostrasse o renascimento americano.