A urgência regional da Península de Setúbal, que começará a funcionar esta quarta-feira às 9 horas no Hospital Garcia de Orta, em Almada, vai contar com quatro médicos do Hospital do Barreiro e seis enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica, disse ao Observador fonte hospitalar. As escalas da nova urgência estão asseguradas, mas “estão no limite”, diz a mesma fonte.
Cada turno da nova urgência regional tem escalados dois especialistas e três médicos internos de Ginecologia/Obstetrícia (o mínimo exigido pela Ordem dos Médicos). Assim, e sem tarefeiros interessados em integrar as escalas, bastará a indisponibilidade de um médico para a urgência regional entrar em défice.
“Do Barreiro vão três médicos mais velhos e mais duas jovens recém-especialistas. Mas uma delas vai sair do SNS em maio, porque vai rescindir contrato”, diz fonte hospitalar, pelo que esta médica só irá integrar as escalas nas primeiras duas a três semanas de funcionamento da nova urgência. A nova urgência regional, centralizada no Garcia de Orta, será uma das maiores do país (com mais de três mil partos anuais), pelo que a mesma fonte se mostra cética quanto à capacidade de resposta resultante da concentração das duas urgências externas em Almada, com os recursos humanos atuais.
“Estas escalas, como estão construídas, estão no limite. Se falta um colega, não há um médico para substituir porque não existem mais recursos”, adianta a mesma fonte, que não quis ser identificada.
Uma das principais preocupações para os médicos são, por exemplo, as situações em que surgem complicações no trabalho de parto, que implicam a presença de grande parte da equipa obstétrica, o que acontece também no caso das cesarianas. “A diferença entre a vida e a morte é muito ténue quando as situações se complicam”, avisa.
Urgência regional arranca, mesmo com escalas “no limite”
Segundo a mesma fonte, foram feitos contactos com médicos tarefeiros, no sentido de perceber se haveria disponibilidade para integrarem as escalas da urgência regional, mas sem sucesso. “Os tarefeiros não querem trabalhar em Almada”. Por isso, a nova urgência contará, pelo menos numa primeira fase, apenas com elementos dos serviços de Ginecologia/Obstetrícia do Hospital Garcia de Orta e do Hospital do Barreiro, não estando excluída a contratação de tarefeiros no futuro (uma solução de recurso que foi adotada na primeiro urgência regional já criada, no Hospital Beatriz Ângelo, que, apenas uma semana depois de ter aberto portas, em março, já estava a preparar a contratação de tarefeiros, por dificuldades com as escalas, como revelou ao Observador o diretor de serviço).
https://observador.pt/especiais/urgencia-regional-apos-primeira-semana-diretor-de-obstetricia-prepara-contratacao-de-tarefeiros-12-dos-partos-vieram-de-vila-franca/
O Observador questionou a Unidade Local de Saúde (ULS) Almada-Seixal, a que pertence o Garcia de Orta, no sentido de perceber o número total de profissionais que vão integrar a urgência regional, mas a ULS remeteu para um comunicado emitido pela Direção Executiva do SNS no final de março. Em relação aos recursos humanos, o comunicado indicava apenas que o funcionamento do polo do Garcia da Orta da nova urgência regional (haverá um outro polo no hospital de Setúbal, para dar apoio ao litoral alentejano) será “primordialmente assegurado, em 80%, por equipas da ULS Almada-Seixal, e, em 20%, por equipas da ULS do Arco Ribeirinho”, que abarca o hospital do Barreiro.
No hospital do Barreiro, são realizados anualmente cerca de 1.400 partos, sendo que 40 a 45% são partos e cesarianas programados, que continuarão a realizar-se naquela unidade. Os restantes serão realizados no Garcia de Orta. Do Barreiro, devem ir 800/850 partos para o Garcia de Orta, ou seja, dois partos por dia, indicava outra fonte conhecedora do processo ao Observador, há cerca de um mês. Se tivermos em conta que o Garcia de Orta realiza anualmente 2.300 partos, a nova urgência regional deverá realizar mais de três mil partos por ano.
O regulamento atualmente em vigor relativamente às equipas de urgência de Ginecologia/Obstetrícia, elaborado pela Ordem dos Médicos (e que foi publicado em Diário da República em fevereiro de 2026) define que, em hospitais de nível 2 e 3 que realizem mais de 2.500 partos/ano, como será o caso do Garcia de Orta quando arrancar a urgência regional, deverão estar escalados, idealmente, entre os três e cinco especialistas por turno (um número que varia consoante o total de atendimentos diários). Em casos em que não existam especialistas suficientes, poderão ser integrados nas escalas dois especialistas, acompanhados por três internos — precisamente o que vai acontecer no caso da urgência regional da Península de Setúbal.
“O HGO vai estar sobrelotado várias vezes”, diz fonte hospitalar
A fonte hospitalar que falou com o Observador mostra preocupação com a possível sobrelotação do serviço de urgência de Ginecologia/Obstetrícia do Garcia de Orta. “Vai estar sobrelotado várias vezes”, antecipa, estimando cerca de 70 a 90 atendimentos diários na urgência regional e notando que já hoje é frequente o Garcia de Orta mostrar indisponibilidade para receber grávidas da Península de Setúbal, que têm depois de ser encaminhadas para os hospitais de Lisboa, nomeadamente para a Maternidade Alfredo da Costa.

Outra questão que se levanta com a criação da urgência regional prende-se com a própria infraestrutura daquela unidade hospitalar, que não foi ainda alvo de obras de ampliação para acomodar o aumento do número de atendimentos diários. Em setembro de 2025, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, anunciou, na Assembleia da República, a ampliação do hospital, com vista à criação do Centro Materno-Infantil de Setúbal, mas avisou que as obras demorariam dois a três anos a concretizar, e a concentração de urgências não iria esperar e era para avançar.
Fonte hospitalar alerta também que a equipa de médicos do serviço de Ginecologia/Obstetrícia do Garcia de Orta é jovem. “A equipa do HGO é muito jovem. Têm poucas pessoas com mais de 10 anos de experiência”, diz, realçando que na área de influência do hospital do Barreiro há um número crescente de grávidas originárias de países africanos e do sudeste asiático com um maior número de comorbilidades associadas e gravidezes não vigiadas, o que aumenta o recurso às urgências e o risco de complicação antes e durante o parto.
https://observador.pt/especiais/obstetras-que-ministra-queria-mobilizar-a-forca-recusam-garcia-de-orta-maioria-tem-mais-de-55-anos-e-esta-dispensada-da-urgencia/
Neste momento, o serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital Garcia de Orta tem cerca de 15 médicos, embora parte não realize serviço de urgência, apurou o Observador. Depois de se ter registado uma grande sangria de especialistas até ao verão de 2025, com a saída de nove médicos em poucos meses, a contratação de quatro médicos no final do ano (alguns deles vindo do setor privado, como o atual diretor de serviço, Pedro Rocha) veio reforçar a capacidade de resposta, permitindo ao hospital manter, desde aí, a urgência de Obstetrícia aberta praticamente sem constrangimentos. O mesmo não acontece com a urgência do hospital do Barreiro, que fecha com frequência.
Depois de alguma resistência inicial, três médicos com mais de 55 anos do hospital do Barreiro (que conta com apenas sete especialistas no quadro) aceitaram deslocar-se para o Garcia de Orta. Os médicos em causa estão dispensados de realizar serviço de urgência (devido à idade), mas aceitaram deslocar-se voluntariamente — uma vez por semana, para fazer um turno de 12 horas de urgência em Almada. No entanto, garante fonte hospitalar, a pressão da tutela foi determinante. “Os colegas não querem ir. Se quisessem ter ido para o HGO, tinham concorrido, houve um concurso este ano”, salienta.
Em janeiro, o decreto-lei das urgências regionais definiu que os profissionais de saúde poderão ser deslocados para unidades até 60 quilómetros de distância do seu local de trabalho para integrarem as urgências regionais. A medida está a ser contestada pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM), que considera o diploma “frágil do ponto de vista jurídico, laboral e sem garantias de segurança clínica” e defende que viola os Acordos Coletivos de Trabalho dos médicos, que determinam que nenhum médico pode ser obrigado a deslocar-se em trabalho para fora do concelho onde trabalha.
Ao Observador, a vice-presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá, adianta que o sindicato enviou, a 19 de janeiro, um requerimento à Provedoria de Justiça a solicitar a sua intervenção junto do Tribunal Constitucional para que fosse feita uma “avaliação abstrata” do diploma, estando ainda a aguardar uma resposta.
https://observador.pt/2026/01/15/profissionais-das-urgencias-regionais-nao-podem-ser-deslocados-mais-de-60-quilometros/
Fonte hospitalar adianta que os obstetras do Barreiro que vão trabalhar na urgência regional vão receber as ajudas de custo definidas por lei pela deslocação (de cerca de 30 quilómetros) e o valor corresponde ao custo do estacionamento durante o período do turno da urgência. Tal como já aconteceu na concentração de urgências a norte de Lisboa com o hospital de Vila Franca de Xira (que viu encerrada a urgência externa, agora concentrada em Loures, no Beatriz Ângelo), também no hospital de Barreiro se manterá toda a restante atividade assistencial: consultas, internamento, cirurgias e exames. No entanto, admite a fonte que falou com o Observador, a deslocação dos médicos para Almada pode prejudicar a atividade programada. “O que acontece é que, normalmente, os médicos saem da urgência do seu hospital e vão fazer alguma atividade extra ou que tenha ficado atrasada. Assim já não”, alerta.
A mesma fonte garante que, sem reforço dos recursos humanos, não será possível manter o modelo da urgência centralizada durante muito tempo. “A situação vai-se agravar, os médicos não vão conseguir aguentar este ritmo no HGO. Uma urgência destas aguenta-se dois anos, no máximo“, antecipa a mesma fonte, deixando críticas à opção do Ministério da Saúde. “Enquanto não mudarem a postura e não tratarem os médicos de acordo com a diferenciação que têm, vai continuar esta sangria desatada” para fora do SNS, critica.
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