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"Vivemos euforia com IA igual à que havia com a rádio antes de 1929", diz autor de livro sobre colapso bolsista que levou à Grande Depressão

Andrew Ross Sorkin, um dos mais conhecidos jornalistas financeiros dos EUA, escreveu livro sobre o colapso bolsista de 1929 e diz-se surpreendido pelas semelhanças que encontrou com os dias de hoje.

Edgar Caetano
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Inês Correia
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Andrew Ross Sorkin garante que só quis escrever um livro sobre uma crise da qual sabia pouco, o colapso bolsista de 1929, que antecedeu a Grande Depressão. O jornalista, um dos mais reputados da área financeira nos EUA, não estava à espera de fazer a pesquisa para esse livro, ao mesmo tempo que continuava a escrever notícias sobre o mundo atual, e tantas vezes lhe passar pela cabeça: “Uau, isto parece muito semelhante“.

Em entrevista ao Observador, por videoconferência, Sorkin fala sobre os ingredientes que levaram àquela crise: excesso de dívida e euforia desmedida entre os investidores. Alguns desses mesmos fenómenos verificam-se também no mundo atual, com as devidas diferenças, e também estiveram presentes noutras crises, como a “bolha” das dotcom, que se formou no final da década de 90.

“A euforia em torno da inteligência artificial (IA) ​​é muito semelhante à euforia que havia naquela altura em torno de coisas como a rádio”, afirma Andrew Ross Sorkin, que também se diz preocupado com a falta de transparência nos mercados de dívida privada e com o volume que as dívidas soberanas, designadamente a norte-americana, acumularam, crise após crise.

Porém, o autor de “1929“, que acaba de ser editado em Portugal pela Lua de Papel (grupo Leya), sublinha que, na sua opinião, por muito violento que tenha sido o colapso bolsista de 1929, foram as decisões políticas erradas subsequentes que levaram à Grande Depressão dos anos 30. Apesar das tarifas lançadas para proteger a economia norte-americana, o plano não funcionou, e tentou-se subir impostos quando se devia ter feito o contrário, defende Andrew Ross Sorkin, esperançoso de que essas lições tenham sido aprendidas e que não sejam esquecidas se houver uma nova crise.

“Não sei se estamos à beira de uma grande crise que pode acontecer amanhã, mas sei que eventualmente teremos uma“, afirma.

Escreveu um livro sobre a grande crise financeira de 2008, uma crise que pôde testemunhar com os seus próprios olhos, como jornalista. Porque é que, depois disso, decidiu escrever este livro sobre o crash de 1929, o colapso financeiro que levou à Grande Depressão?
Quando escrevi “Too Big to Fail” (Grande Demais para Falir), houve muitas pessoas que me perguntaram de que forma é que a crise financeira de 2008 se comparava com a de 1929. E eu, na verdade, não sabia a resposta a essa pergunta, na altura. Por isso, decidi embarcar numa viagem, por assim dizer, para tentar conhecer mais sobre aquele período. E, à medida que lia mais e mais sobre essa crise, comecei a sentir que ninguém tinha escrito o tipo de livro que eu sempre gostei de ler: um livro que nos transportasse para dentro da sala, um livro focado nas personagens, onde realmente sentíamos que as compreendíamos, as pessoas, as suas motivações e os seus incentivos. Acho que compreender isso é muito importante, porque costumamos falar de crises financeiras como sendo fruto de ciclos económicos, mas cheguei à conclusão de que, na verdade, tudo se resume a pessoas, pessoas que tomam decisões, as quais, em última análise, impactam a economia e provocam esses ciclos económicos.

Na sua leitura, o que é que levou à crise de 1929? O que é que descobriu sobre as causas da crise que acabaria, depois, por conduzir à Grande Depressão dos anos 30?
Foi uma conjugação de fatores, mas o principal foi o endividamento excessivo. Foi na década de 1920 que, pela primeira vez, os investidores comuns começaram a receber empréstimos para investir. Ninguém fazia créditos antes disso. Era moralmente repugnante, as pessoas não faziam esse tipo de coisa. Mas na década de 1920 as pessoas começaram a contrair empréstimos, a recorrer ao crédito e a investir de forma alavancada. Em simultâneo, estava-se a viver uma espécie de nova era da tecnologia, com o surgimento da rádio, do automóvel, todas essas coisas a acontecer. Isso fez com que as pessoas ficassem eufóricas, muito entusiasmadas com o futuro, até que tudo se desmoronou. Ora, o crash da bolsa em si não foi, necessariamente, o que criou a Grande Depressão. Foi, na verdade, o primeiro dominó numa série de dominós que levaram a que em 1932 tivéssemos [uma taxa de] desemprego de 25%…

Como é que a euforia com a rádio se tornou um dos símbolos da "bolha"?

Houve uma verdadeira euforia em torno da rádio durante a década de 1920, especialmente nos EUA, e muitos historiadores fazem paralelos entre essa “febre da rádio” e outras bolhas tecnológicas posteriores, como a Internet nos anos 1990. A rádio era vista como uma tecnologia revolucionária, que permitia comunicação instantânea e transformava a forma de fazer política.

Entre 1920 e 1929 o número de casas onde havia uma rádio explodiu, surgiram centenas de estações e os investidores despejaram rios de dinheiro em empresas ligadas à radiodifusão. A grande estrela dessa época foi a Radio Corporation of America, conhecida como RCA, cujas ações se tornaram o maior símbolo da especulação da década.

A RCA quase não pagava dividendos, mas os investidores acreditavam que dominaria o futuro das comunicações, o que levou o preço das ações a subir de forma extraordinária antes do violento colapso que aconteceu em finais de outubro de 1929.

Na sua leitura, o crash bolsista foi tão grave que seria inevitável termos tido, depois, aquela recessão fortíssima…
Diria que o crash foi importante do ponto de vista económico, claro, mas sobretudo do ponto de vista psicológico foi muito grave. Sugou toda a confiança que existia na economia e na psique coletiva dos norte-americanos. Porém, depois disso, houve uma série de escolhas políticas que acabaram, essas sim, por levar à Grande Depressão. Ou seja, não me parece que, uma vez tendo havido aquele crash, fosse inevitável haver uma recessão com tanta gravidade.

Podia ter sido evitada, então?
Havia coisas que poderiam ter sido feitas para evitar a Grande Depressão. Não se devia ter implementado as taxas aduaneiras (tarifas) que foram lançadas na altura para tentar proteger a economia. E deveriam ter-se baixado os impostos, em vez de tentar aumentá-los, naquele momento. Por outro lado, provavelmente teria sido importante a Reserva Federal intervir e tentar proteger os bancos. Havia coisas que podiam ter sido feitas, mas a reação emocional natural após uma crise de qualquer tipo não é gastar dinheiro, é encolher-se num canto. As pessoas enveredam pela austeridade, depois de uma crise, porque querem poupar, não querem gastar. Mas a lição de como se deve responder à maioria das crises é, na verdade, como dizia John Maynard Keynes: gastar-se o dinheiro. Perante uma crise, é preciso gastar dinheiro. É, provavelmente, essa a única altura em que se deve gastar.

Disse que não tinha lido muito sobre a crise de 1929 e que não sabia muito sobre ela. Ao aprender mais, qual foi a coisa que mais o surpreendeu na forma como as coisas aconteceram, algo que não sabia antes?
Tantas coisas. Uma delas foi perceber que, no final de 1929, a bolsa tinha caído apenas 17% no ano. Ou seja, houve uma recuperação e, no final do ano, a queda acumulada pela bolsa foi de apenas 17%. Se alguém olhasse apenas para a bolsa de valores no final de 1929 e não soubesse o que tinha acontecido durante o ano, pensaria que estava tudo mais ou menos bem. A realidade é que a bolsa chegou a cair cerca de 50% num só mês, entre outubro e novembro. E muitas pessoas tinham contraído empréstimos tão grandes – muitas vezes na proporção de 10 para 1, ou seja, davam um dólar e o banco emprestava-lhes 10 dólares –, que, à medida que a situação se deteriorava, os bancos começaram a ligar-lhes para tomar as suas casas.

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Mas depois, então, a bolsa recuperou, até certo ponto, na reta final do ano…
O mercado recuperou no final daquele ano mas a maioria das pessoas não conseguiu manter as ações. Não beneficiaram da recuperação porque não conseguiram mantê-las, porque no pico da crise o banco já tinha ligado para os executar, dizendo: “O senhor deve-nos dinheiro”. E as pessoas deviam dez vezes o valor que tinham pedido, porque tinham investido com crédito, com alavancagem financeira. E, de repente, muitas pessoas estavam a perder as suas casas para os bancos. Isso tem um enorme impacto psicológico.

"O mercado recuperou no final daquele ano mas a maioria das pessoas não conseguiu manter as ações, não beneficiou da recuperação porque no pico da crise o banco já tinha ligado a dizer: "O senhor deve-nos dinheiro". E as pessoas deviam dez vezes o valor que tinham pedido, tinham investido com alavancagem financeira. E, de repente, muitas pessoas estavam a perder as suas casas para os bancos."

Analisando o período que antecedeu a crise, qual foi o sinal de alerta mais claro que parece óbvio hoje, mas que as pessoas ignoraram na altura?
Todas as crises financeiras são consequência do excesso de dívidas. E houve pessoas que viram os sinais de alerta e que gritaram aos quatro ventos que havia um problema. Charles Merrill, cofundador da Merrill Lynch, disse a toda a gente para sair da bolsa em 1928. Disse a toda a gente: saiam. Mas muito poucas pessoas quiseram prestar atenção. E o mercado bolsista ainda subiu 90%.

Depois disso…
Depois disso, sim.

Fazendo com que ele parecesse um tonto, provavelmente…
Pois…

Mas acha que os principais envolvidos na formação da “bolha” acreditavam, realmente, na estabilidade do sistema ou havia um certo grau de cinismo consciente?
Costumo ter muita empatia pela maioria das pessoas, por isso acho que muitas delas eram genuínas, mas terá havido uma dose de cinismo também. Isto é, acho que as pessoas acreditavam mesmo que isto era o futuro e ficaram entusiasmadas com isso. Mas também acho que havia outros que atuaram como agentes económicos que precisavam que os mercados se mantivessem naquele estado, beneficiavam disso.

Instituições como os bancos, as entidades reguladoras ou mesmo os meios de comunicação social foram observadores passivos ou contribuíram ativamente para a formação da bolha?
A comunicação social? Ouça, a comunicação social era um dos itens que constavam da folha de pagamentos. Metade dos jornalistas era paga por estas pessoas. Era uma loucura. Havia uma manipulação generalizada. Havia todo o tipo de coisas estranhas a acontecer. Mas o mais interessante é que, muitas vezes, o público percebia que estava a ser manipulado.

Como assim?
Nessa altura, existiam as chamadas “stock pulls”. Isso acontecia quando a elite se reunia e dizia: “Vamos inflacionar o preço de uma ação e depois, num momento que só nós sabemos qual é, vamos deitar tudo abaixo, vamos puxar o tapete”. As pessoas comuns sabiam, através dos jornais, que estava a acontecer uma “operação” com determinada ação cotada. E sabiam que, nas semanas seguintes, a ação iria provavelmente subir, mas que, a dada altura, o preço ia cair. E havia muito quem quisesse participar nisso. Queriam comprar as ações e tentar sair antes de o tapete ser puxado, só não sabiam quando é que isso iria acontecer.

E os supervisores? Não faziam nada?
Bem, as pessoas da Reserva Federal tinham claramente reservas sobre tudo o que estava a acontecer, mas não intervieram quando deveriam tê-lo feito. Mas “supervisores” é uma palavra interessante porque naquela altura não existia a SEC [Securities and Exchange Commission, equivalente à CMVM]. Não existiam leis sobre o uso de informação privilegiada. Não havia regras nenhumas sobre nada disso. Não era como se houvesse um grupo de reguladores sentados a dizer: “Vamos fingir que não vemos nada”, simplesmente porque não havia regras para eles poderem fingir que não viam.

"A comunicação social? Ouça, a comunicação social era um dos itens na folha de pagamentos. Metade dos jornalistas era paga por estas pessoas. Era uma loucura. Havia uma manipulação generalizada. Havia todo o tipo de coisas estranhas a acontecer. Mas o mais interessante é que, muitas vezes, o público percebia que estava a ser manipulado."

Tendo em conta as grandes diferenças que já referiu, entre esses tempos e agora, que paralelos podemos traçar com o que temos hoje, não só nos mercados regulamentados mas, também, em mercados menos regulamentados, como os da dívida privada e dos criptoativos?
Penso que o ponto mais importante a que temos de estar sempre atentos é o volume de dívida que existe. Refiro-me à dívida privada. Podíamos falar de dívida soberana, que é um assunto completamente diferente. Mas acho que a dívida privada é um grande problema, pela falta de transparência. Os “private equity” não têm a transparência necessária. Os fundos de capital de risco não a têm. Claramente, as criptomoedas também não a têm – embora seja um mundo diferente. Acho que existem muitos paralelismos e semelhanças com algumas coisas que temos hoje. E não sei se estamos à beira de uma crise que pode acontecer amanhã, mas sei que eventualmente teremos uma.

Uma crise começando em alguma dessas áreas que mencionou?
Não sei se será em algum destes sítios que acabámos de referir ou se será algo diferente. É bem possível que exista um problema numa parte do mercado – como o crédito privado, por exemplo – e que isso afete outra parte do mercado, como o sistema bancário. Ou talvez haja um avanço tecnológico na IA que torne todos estes data centers menos valiosos. Ou talvez algumas destas empresas de LLM [modelos de linguagem em inteligência artificial, ou IA] podem fechar portas e não conseguir suportar os custos de todos os centros de dados. [Uma eventual crise] pode começar de tantas formas diferentes…

Enquanto escrevia o livro, ou mesmo enquanto pesquisava para o mesmo, chegou a pensar “uau, estamos novamente a viver o mesmo“?
Sem dúvida. Quando comecei a escrever o livro, não o fiz pensando que iria tentar encontrar paralelos com os dias de hoje. Só queria escrever o que achava ser uma grande história sobre um período extraordinariamente interessante e sobre estas personagens fascinantes que adoro tentar compreender. Adorei ler os seus diários, as cartas, os memorandos, os testemunhos que prestaram. Isto para tentar perceber quem elas eram realmente. Mas depois, enquanto escrevia o livro, ao mesmo tempo também escrevia as minhas notícias do dia a dia, como jornalista, claro. E, muitas vezes, dava por mim a pensar: “Uau, isto parece muito semelhante”.

Sentiu isso quando fazia notícias na área da tecnologia? Há pouco falava sobre eventuais riscos nessa área… Acha que a história pode estar a repetir-se, quando escreve sobre as avaliações milionárias dessas empresas ou de empresas conexas, como a Nvidia?
Acho que a euforia em torno da IA ​​é muito semelhante à euforia em torno de coisas como a rádio, na década de 1920. Isso é claro. Além disso, acredito que parte disto está a ser alimentada por dívida, o que também é um problema. Não creio que seja alimentado pela dívida com a mesma magnitude, porque não acho que os investidores estejam alavancados dez vezes, como na crise de 1929. Quando penso que chegámos a estes níveis de valorização excessiva… talvez o que temos hoje se assemelhe mais a 1999 do que a 1929, mas vivemos, definitivamente, num período de euforia. E isso é sempre algo que é assustador.

Quem é Andrew Ross Sorkin?

Andrew Ross Sorkin é um jornalista, autor e produtor nova-iorquino especializado em economia e finanças. É anfitrião de Squawk Box, um dos programas mais importantes do canal financeiro CNBC, é colunista do The New York Times e fundador do portal financeiro DealBook, que se tornou uma das principais referências mundiais em notícias sobre Wall Street, mercados e grandes negócios. Tornou-se conhecido pela cobertura da crise financeira de 2008 e pelas entrevistas que fez a algumas das figuras mais influentes do mundo empresarial e político.

Escreveu em 2009 o livro Too Big to Fail (Grandes Demais para Falir), uma história sobre a crise financeira global que deu origem a um filme produzido pela HBO. Mais recentemente, debruçou-se sobre a crise de 1929 para escrever o livro que fala sobre o colapso bolsista que antecedeu a Grande Depressão. Além do trabalho jornalístico, é co-criador e argumentista da série Billions, inspirada nos bastidores do poder financeiro em Nova Iorque..

Preocupa-se com a possibilidade de algo correr mal com a IA e com o volume de investimentos que estão a ser feitos nessa área?
Há muitas coisas que podem correr mal com a IA, mas também há muitas coisas que podem correr bem. Aliás, mesmo que corra bem, que a IA seja bem-sucedida, podemos ter um efeito que é um grande aumento do desemprego, por exemplo. Estamos todos a discutir se a IA vai ser um fracasso e se estamos a investir demais… Mas e o que é que acontece se ela realmente funcionar? Se funcionar, também podemos ter um colapso económico. Portanto, não é assim tão simples.

Com base no que aprendeu ao escrever estes livros sobre as maiores crises da História, se pudesse mudar um elemento central do sistema financeiro para reduzir a probabilidade de mais colapsos catastróficos como estes, o que mudaria?
Duas coisas. Provavelmente imporia algum tipo de limite máximo na concessão de crédito para investimentos. Na maioria dos casos, os bancos não emprestam mais do que duas ou três vezes o valor do capital próprio. Mas alguns emprestam mais, em determinadas situações. Penso que limitaria o nível de alavancagem que uma empresa ou indivíduo poderia obter num empréstimo para investir.

E o que mais?
Bem, a outra coisa que faria seria criar transparência obrigatória, incluindo para os ativos privados. Um dos problemas da área da dívida privada é que ninguém sabe realmente o que está a acontecer. Não temos acesso a toda a informação. Os ativos que servem de base a estes empréstimos, que são geralmente ativos de private equity, não são avaliados pelo mercado. Eu e você podemos simplesmente decidir, entre nós, quanto é que algo vale, sendo tudo feito a título privado. Seria importante ter avaliadores externos que não fossem pagos pelas pessoas que gerem os ativos – e seria bom que as avaliações fossem totalmente transparentes para o público. A informação sobre o mercado de dívida privada devia ser acessível ao público ou, pelo menos, aos banqueiros centrais e ao Departamento do Tesouro. Acho que isso poderia evitar-nos muitas dores de cabeça.

"Acho que existem muitos paralelismos e semelhanças [entre 1929] e algumas coisas que temos hoje. E não sei se estamos à beira de uma crise amanhã, mas sei que eventualmente teremos uma."

E a dívida pública, ou seja, a dívida federal dos EUA. Isso também o preocupa?
O que me preocupa é que achamos que, agora, temos um manual de instruções para lidar com as crises financeiras, que é gastar dinheiro, como John Maynard Keynes disse que devíamos fazer. Fizemos isso em 2008, fizemos isso, também, na pandemia. Parece funcionar, por isso as pessoas pensam: “Ah, ótimo, quando tivermos outra crise, é só passar um cheque”. Mas, agora, os EUA têm 38 ou 39 biliões de dólares em dívida. Há de chegar um dia em que vamos assinar o cheque e os investidores em obrigações vão dizer: “Não, não vamos mais aceitar isso”. E isso pode, depois, levar a que criemos, mais uma vez, um círculo vicioso.