(c) 2023 am|dev

(A) :: Cannes 2026: Alain Cavalier, Radu Jude e Lisandro Alonso na Quinzena dos Cineastas, Semana da Crítica abre com uma animação

Cannes 2026: Alain Cavalier, Radu Jude e Lisandro Alonso na Quinzena dos Cineastas, Semana da Crítica abre com uma animação

Com o anúncio paralelo da programação do ACID, também na manhã desta terça-feira, ficam concluídas as secções paralelas do festival para a edição deste ano. Cannes vai decorrer entre 12 e 23 de Maio.

Francisco Ferreira
text

A Quinzena dos Cineastas, secção independente de Cannes, anunciou esta terça-feira o programa para a edição de 2026 — 19 longas, 2 médias e 7 curtas-metragens — com destaque particular, respeite-se a veterania, para o regresso de Alain Cavalier, com Merci d’être venu. Pelo que se pôde perceber da conferência de imprensa, um último filme do cineasta de 94 anos, provável gesto derradeiro de um autor há muito atraído pelo retrato (inclusivé pelo auto-retrato) e que tantos filmes ergueu a partir de gestos e hábitos do quotidiano, as pequenas coisas da vida a que geralmente damos tão pouca importância. Merci d’être venu sucede a L’amitié (2022) no percurso sem paralelo de Cavalier. Foi descrito como “um acontecimento que não se esperava” e chega da parte de um cineasta que esteve directamente envolvido na fundação da Quinzena, em 1969, após os tumultos que paralisaram o festival no ano anterior (decorrentes do Maio de 68).

A Quinzena abre com Butterfly Jam, terceira longa-metragem do russo Kantemir Balagov, um dos alunos da escola de Alexandre Sokurov e, hoje, artista exilado. O autor de Tesnota e Violeta filmou desta vez em New Jersey com um elenco anglo-saxónico: Barry Keoghan, Riley Keough e Harry Melling juntam-se a Monica Bellucci. Era um dos filmes apontados à Seleção Oficial e ao concurso pela Palma de Ouro. Na Quinzena, terá honras de abertura.

Esta edição da Quinzena é variada de género e de geografia, há filmes de quase todos os continentes (só a Oceânia ficou de fora), com presença acima da média de documentários e animações, selecionados a partir de 1800 longas-metragens e de 2450 curtas. Once Upon a Time in Harlem, de William Greaves e David Greaves, distinguiu-se em Sundance e é um filme póstumo de William Greaves (1926-2014), cuja obra foi retrospectivada, no ano passado, pelo DocLisboa. Em 1972, William juntou, numa festa em casa de Duke Ellington, alguns dos notáveis da comunidade negra que levou a cabo o movimento Harlem Renaissance, nos 20s e 30s do século passado, naquele bairro de Nova Iorque. O filho de William, David Greaves, trabalhou nesse dia para o pai como operador de câmara. Foi ele que deu vida a este retrato luminoso e atípico (com material inédito por mais de 50 anos), só agora restaurado, montado e concluído.

De regresso à Quinzena, onde só havia mostrado curtas até agora, está o imparável e travesso romeno Radu Jude com a sua versão de Journal d’une femme de chambre, romance de Octave Mirbeau já levado ao cinema, entre outros, por Renoir e Buñuel (e, mais recentemente, por Benoît Jacquot). O filme foi produzido por Saïd Ben Saïd, interpretam Ana Dumitrascu, Vincent Macaigne e Mélanie Thierry. Outro regresso: o do argentino Lisandro Alonso, autor bem conhecido entre nós, e que revisita a sua primeira longa-metragem em La Libertad Doble. Em 2001, o cineasta de Buenos Aires deu-se a conhecer ao mundo com La Libertad (poucos o viram, mas quem o viu não o esqueceu) seguindo, praticamente sem diálogos, o quotidiano solitário de um lenhador das pampas, Misael Saaverda, compenetrado no seu trabalho, do nascer ao pôr do sol. Espere-se agora por La Libertad Doble, de novo com Saavedra, 25 anos depois, para se perceber se isto é remake ou sequela. Ou nem uma coisa nem outra.

https://observador.pt/especiais/em-locarno-com-radu-jude-a-inteligencia-artificial-nao-me-tira-o-sono/

Clarissa, entrada africana de Arie Esiri & Chuko Esiri, adapta livremente Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, em Lagos, capital da Nigéria. Dora, da sul-coreana July Jung, passa-se nos dias de hoje mas inspira-se na “Dora” de Freud, pseudónimo de Ida Bauer (1882–1945), paciente de 18 anos tratada pelo pai da psicanálise. A estes se junta o novo trabalho da chilena Dominga Sottomayor, La Perra (o seu trabalho tem vindo a ser divulgado entre nós pelo IndieLisboa), assim como uma boa dezena de cineastas menos conhecidos, como o venezuelano Jorge Thielen Armand (La muerte no tiene dueño, com Asia Argento, é um western fantástico a retratar aquele país da América Latina), ou o tailandês Sompot Chidgasornpongse. 9 Temples to Heaven é a segunda longa-metragem deste habitual assistente de realização de Apichatpong Weerasethakul.

Esta edição da Quinzena privilegia igualmente a animação, cada vez mais presente em todas as secções do festival. 3 das 19 longas da Quinzena são trabalhos de animação: o francês Carmen, l’oiseau rebelle, de Sébastien Laudenbach, o nipónico We Are Aliens, de Kowei Kadowaki, e o igualmente francês Le vertige, novo trabalho de Quentin Dupieux, que fechará a secção. Dupieux tem outro filme em Cannes, na Seleção Oficial, fora de concurso, Full Phil, com Woody Harrelson e Kristin Stewart.

Recorde-se que a Quinzena homenageia este ano Claire Denis com a Carrosse d’Or, prémio honorário à carreira criado por aquela secção paralela do festival, em 2002. A cineasta francesa, de 79 anos, tem uma obra “profundamente política sem jamais ceder à ilustração, que interroga as heranças coloniais, as fronteiras, as identidades e desejos com uma exigência formal e uma confiança absoluta no cinema enquanto arte do presente”, escreveu a Sociedade das Realizadoras e Realizadores de Filmes (SRF), que organiza a Quinzena. O novo filme de Claire Denis, Le cri des gardes, com Isaach de Bankolé e Matt Dillon (é uma adaptação livre da peça teatral Combat de nègre et de chiens, de Bernard-Marie Koltès), será exibido pela primeira vez em Portugal dia 30, no Indielisboa.

A Semana da Crítica, dedicada a cineastas emergentes, seleccionou 11 longas-metragens e 13 curtas (que ainda serão anunciadas) e, pela primeira vez, abre com um filme de animação, In Waves, da jovem franco-vietnamita Phuong Mai Nguyen. A selecção deste ano, de resto, tem uma presença francesa muito acentuada, à semelhança do que acontece com a programação do ACID, também apresentada esta terça-feira.

O que fica a faltar agora de Cannes? Como já referido, a secção de curtas-metragens da Semana da Crítica, que será divulgada a 15 de abril. As repescagens para a Selecção Oficial, não se sabe ao certo quantas, e que serão anunciadas nos próximos dias, sem data fixa, quando o festival o bem entender. Por fim, a competição de curtas-metragens pela Palma de Ouro da categoria, a que concorreram, em 2025, os portugueses Arguments in Favor of Love, de Gabriel Abrantes e A Solidão dos Lagartos, de Inês Nunes. Recorde-se que Mau Por Um Momento, de Daniel Soares, recebeu uma Menção Especial neste concurso, em 2024. Daniel Soares, de resto, tem uma nova curta-metragem, Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio, produzida pela O Som e a Fúria, L’Oeil Vif e Kid with a Bike. Foi apresentada no Berlinale Talents, ainda como projecto em fase de desenvolvimento, e submetida aos comités de selecção de todas as secções de Cannes.

QUINZENA DOS CINEASTAS

Longas-metragens (por ordem de apresentação na conferência de imprensa):

  • Butterfly Jam, de Kantemir Balagov (filme de abertura) (França/EUA)
  • Once Upon a Time in Harlem, de William Greaves e David Greaves (EUA)
  • Le journal d’une femme de chambre, de Radu Jude (França/Roménia)
  • Dora, de July Jung (Coreia do Sul)
  • Gabin, de Maxence Voiseux (França)
  • Clarissa, de Arie Esiri & Chuko Esiri (Nigéria)
  • Low Expectations, de Eivind Landsvik (Noruega)
  • La Libertad Doble, de Lisandro Alonso (Argentina/França/Alemanha)
  • We Are Aliens, de Kohei Kadowaki (Japão)
  • Merci d’être venu, de Alain Cavalier (França)
  • I See Buildings Fall Like Lightning, de Clio Barnard (Reino Unido)
  • Atonement, Reed Van Dyk (EUA)
  • Shana, de Lila Pinell (França)
  • La muerte no tiene dueño, de Jorge Thielen Armand (Venezuela/Itália/Canadá/Luxemburgo/Espanha/México)
  • Carmen, l’oiseau rebelle, de Sébastien Laudenbach (França)
  • 9 Temples to Heaven, de Sompot Chidgasornpongse (Tailândia, Singapura/França)
  • La Perra, de Dominga Sottomayor (Chile/Brasil)
  • Le Vertige, de Quentin Dupieux (filme de encerramento) (França)

Curtas-metragens:

  • The Joyless Economy, de Marjorie Conrad
  • Oh Boys, de Antonio Donato
  • Madrugada, de Sebastián Lojo
  • Eri, de Yano Honami
  • Pithead, de Pol De Plecker e Wannes Vanspauwen
  • Daughters of the Late Colonel, de Elizabeth Hobbs
  • Nothing Happens After your Absence, de Ibrahim Omar
  • Free Eliza (Notes on an Anatomical Imperfection), de Alexandra Matheou
  • À la recherche de l’oiseau gris aux rayures vertes, de Saïd Hamich Benlarbi

SEMANA DA CRÍTICA

Filmes a concurso:

  • The Station, de Sara Ishaq (Iémen/Jordânia/França/Alemanha/Países Baixos/Noruega/Catar)
  • Dua, de Blerta Basholi (Kosovo/Suíça/França)
  • La Gradiva, de Marine Atlan (França/Itália)
  • A Girl Unknown, de Zou Ling (China/França)
  • Seis Meses en el Edificio Rosa com Azul, de Bruno Santamaria Razo (México/Dinamarca/Brasil)
  • Tin Castle, de Alexander Murphy (Irlanda/França)
  • Viva, de Aina Clotet (Espanha)

Sessões Especiais:

  • In Waves, de Phuong Mai Nguyen (filme de abertura) (França/Bélgica)
  • Du Fioul dans les artères, de Pierre Le Gall (França/Polónia)
  • La Frappe, de Julien Gaspar-Oliveri (França)
  • Adieu monde cruel, de Felix de Givry (França/Bélgica)

ACID (Association du cinéma indépendant pour sa diffusion)

Recorde-se que as selecções da ACID, secção não-competitiva de Cannes, são efectuadas por um grupo rotativo de cineastas convidado para o efeito. Foi esta a secção que, em 2025, levou a Cannes Entroncamento, de Pedro Cabeleira.

Das 650 longas-metragens recebidas este ano pela associação, o júri seleccionou as nove seguintes:

  • Barça Zou, de Paul NOUHET  (France)
  • Blaise, de Dimitri Planchon & Jean-Paul Guigue (França)
  • Coeur Secret, de Tom Fontenille (França)
  • Dans la gueule de l’ogre, de Mahsa Karampour (França)
  • La détention, de Guillaume Massart (França)
  • Living Twice, Dying Thrice, de Karim Lakzadeh (Irão)
  • Mauvaise Étoile, de Lola Cambourieu & Yann Berlier (França)
  • Promised Spaces, de Ivan Ivan Marković (França/Alemanha/Sérvia/Cambodja)
  • Virages, de Céline Carridroit & Aline Suter (Suíça/França)

O autor escreve segundo a antiga ortografia.