São muitos os textos escritos ao longo dos anos que retratam João Penalva (Lisboa, 1949) como um contador de histórias. É-o, de facto, mas importa acrescentar um dado relevante: muitas das histórias que conta são mutáveis, outras até já distantes da sua origem, abertas à interpretação de cada um que se debruce sobre o seu labirinto de ficções.
João Penalva é um ficcionista, no melhor uso do termo. E é-o através da imagem, do texto, dos objetos, do filme e da própria mediação que as suas instalações propõem entre ficção e realidade, construindo experiências híbridas e imersivas. É a este universo singular – descrito como enigmático e intrigante – que regressamos agora em dose tripla, numa retrospetiva partilhada entre a Culturgest, o Pavilhão Branco das Galerias Municipais e a Cinemateca Portuguesa, dedicada à obra do artista. Assinalam a celebração de 50 anos de criação, que o colocam num lugar de destaque como um dos mais importantes artistas contemporâneos da sua geração.
Antes propriamente de nos voltarmos para algumas das propostas que compõem esta retrospetiva, importa ainda refletir como o trabalho de João Penalva foi adquirindo diversos formatos ao longo dos anos. Depois de um período concentrado na pintura – já depois de ter passado pela Chelsea School of Art, em Londres, entre 1976 e 1981 – o trabalho do artista, que já representou Portugal na Bienal de Veneza em 2001, foi-se ampliando no campo da instalação. Peças de grande escala revelam propostas espacializadas que tecem histórias carregadas de uma dimensão arquivística, por vezes teatral, que se desvendam à medida da curiosidade de cada espectador. “São, no fundo, as pessoas que têm a capacidade de ativar as obras”, explica o artista em entrevista ao Observador.
O desafio perante a obra de Penalva impõe-se, justamente, na forma como o espectador se predispõe a interpretar. Tal como explica o curador Bruno Marchand, esse processo é parte integrante de uma “obra particular que nos leva para um território onde nada é evidente”. Na busca pelo melhor termo, trata-se, em síntese, de uma forma de “literatura expandida, onde nem sempre sabemos até que ponto estamos perante algo que é historicamente factual ou não”, sublinha. É sob esta premissa de busca de sentido que se inicia o percurso na Culturgest.
As narrativas de um artista
Chegados à primeira sala da mostra, ei-la: Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos), de 1996, pertencente à Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Nas paredes veem-se pautas, mas também fotografias e textos manuscritos, num espaço onde ainda se encontram barras de dança e vídeos. É uma das poucas obras que apresentam um cunho autobiográfico evidente. Com formação em ballet clássico, João Penalva integrou as companhias de Pina Bausch (1973/4), Gerhard Bohner (1975) e a que formou com Jean Pomares, The Moon Dance Company, em 1976. Esta obra surge depois de 20 anos sem dançar, numa altura em que o artista estaria, nas suas palavras, na idade certa para interpretar o papel de Viúva Simone, personagem de La Fille mal gardée, bailado de 1960 de Frederick Ashton.
Num estúdio de dança recriado, o processo de especulação sobre o ato de voltar a dançar conduziu-o às questões éticas e legais envolvidas na interpretação e nos direitos de autor de um bailado. Foi a forma encontrada para “contar a história” em torno desta personagem e deste bailado, produzindo em simultâneo uma reflexão sobre a própria definição jurídica do que é uma obra de dança. Não é por acaso que a exposição na Culturgest se intitula Personagens e Intérpretes: remete para o título, quase idêntico, de uma obra ali presente, de 1998, e também para um documentário cinematográfico sobre o artista, da autoria de Luís Alves de Matos.




Por outro lado, o percurso na Culturgest segue-se com outras obras, em que muitas vezes os títulos remetem para personagens históricas e ficcionais. “Muitas destas obras acabam por ser conhecidas pelo nome dessas personagens; são parte do meu imaginário”, explica João Penalva. É o caso de Wallenda (2007–2008), mais à frente no percurso, obra em que o artista se lançou ao desafio de assobiar a totalidade de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, ou ainda a instalação Pavlina e Dr. Erlenmeyer (2010), na qual se debruça sobre a história do inventor da naftalina e a sua relação inusitada com uma vulgar traça-da-roupa.
Outra das obras emblemáticas aqui expostas é O Cabelo do Sr. Ruskin (1997). Quando convidado pela South London Gallery para realizar um projeto baseado na sua coleção, João Penalva deparou-se com uma pequena moldura contendo uma madeixa de cabelo do célebre crítico de arte britânico John Ruskin (1819–1900). A partir da descoberta desta madeixa – verdadeira ou não –, o artista criou outras sete pequenas molduras com um aspeto convincentemente antigo, contendo madeixas semelhantes, tornando a peça “original” indistinguível das suas falsificações. Nem o artista se atreve a identificar a peça original, contando apenas uma das muitas histórias que envolvem esta obra: o roubo e posterior devolução de uma das molduras ou ainda o episódio em que, em 2012, numa apresentação no Kunsthallen Brandts, na Dinamarca, alguém acrescentou uma nova cópia à série.
Estas e outras são apenas algumas das histórias que se acumulam no conjunto de obras expostas na Culturgest, onde se incluem ainda LM44/EB61 (1995), Petit Verre (2007), Arcada (2000), Light Beam (2007), Stanley (2018), Men Asleep (2012), On Stage a Fig Tree (2009) e Personagem e Intérprete (1998), bem como Livros de Artista (2007–2009). “No caso da Culturgest, decidimos destacar uma vertente do seu trabalho que começou há cerca de 30 anos. São obras estruturantes, onde o artista adota um método para criar obras ancoradas em narrativas que não sabemos se são ou não ficção”, sublinha Bruno Marchand. Por entre personagens e diversos meios, João Penalva “coreografa a atenção do espectador, através de detalhes e formatos muito distintos, numa postura bastante singular no contexto da arte portuguesa”, completa o curador.
Um curador de objetos, mas também um cineasta
Se na Culturgest o percurso se constrói como uma espécie de arquivo expandido – onde a narrativa se fragmenta entre objetos, textos e encenações –, a retrospetiva prolonga-se noutros registos nos restantes espaços que a acolhem. Chegados ao Pavilhão Branco, das Galerias Municipais, encontramos A Coleção Ormsson, apresentada por João Penalva. Trata-se da reinstalação de uma exposição ali apresentada em 1997.
Como explica a curadora e diretora das Galerias Municipais, Sara Antónia Matos, a proposta advém de uma “situação única, em que uma exposição pode ser novamente apresentada no mesmo local, pelo mesmo artista, sem alterações à sua configuração original, mantendo títulos, textos e disposição das obras”. Aos pares – ou em busca do par que falta –, são mostrados vários objetos, entre pinturas, desenhos, objetos e fotografias, provenientes da coleção de um ficcionado colecionador islandês, Loftur Ormsson, dispostos de forma a criar relações inesperadas e enigmáticas.

Tal como em 1997, o papel de João Penalva circunscreve-se à cuidadosa apresentação daquelas peças e ao rigoroso agenciamento das micronarrativas que delas emanam. Mas, por intermédio da eventual leitura da lista de obras, poderá o visitante aperceber-se de que as peças provêm, de facto, de um vasto conjunto de coleções privadas e institucionais, dado que lhe indicaria que toda a estrutura sobre a qual se alicerça a exposição – Ormsson, a sua coleção e a lógica dos pares – é também fruto de uma ficção. “Não é tão diferente de outras peças minhas, a única coisa difícil foi perceber que aquele espaço já é diferente nalguns aspetos. De resto, espero que tenham o mesmo impacto”, explica o artista.
“A premissa mantém-se e esta mostra é demonstrativa do quão intrigantes podem ser as propostas artísticas de João Penalva. Havendo a possibilidade de voltar a fazer neste mesmo sítio foi um desafio aceite, sendo que é uma instalação que já naquela década anuncia claramente dimensões do seu trabalho que se tornaram evidentes nos anos subsequentes, nomeadamente na forma como transforma estes artefactos em narrativa e lança questões sobre o que é a curadoria, sobre o ato de colecionar e sobre a obsessão pela criação de histórias”, realça Sara Antónia Matos.
A esta retrospetiva em três partes junta-se ainda a Cinemateca Portuguesa, que irá exibir cinco dos seus filmes. No dia 8 de junho projeta-se The Roar of Lions (2006, 37 minutos), 336 Pek (1998, 60 minutos) e The White Nightingale (2005, 42 minutos), e no dia 9 de junho será possível ver Kitsune (2001, 55 minutos) e A Harangpzó (2005, 58 minutos). É uma forma de voltarmos a olhar para o cinema dos artistas, nas palavras de Nuno Sena, subdiretor da Cinemateca, ressalvando o “cruzamento que beneficia a ideia de continuidade entre territórios que se contaminam entre si”. Também aqui, como no restante percurso, a imagem em movimento prolonga esse território ambíguo entre documento e ficção, onde cada narrativa permanece aberta e em permanente reformulação.
[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.

Uma obra revisitada
Num ciclo de revisitação da sua obra, esta retrospetiva surge na sequência de uma mostra na Galeria Francisco Fino, em 2025, e antecede uma grande exposição no MAAT, prevista para 2027, com trabalho inédito e curadoria de João Pinharanda. No seu conjunto, estes momentos expositivos contribuem para um renovado olhar sobre a obra de um dos nomes mais influentes da arte contemporânea portuguesa, assinalando também o seu regresso a Lisboa, em 2021, após 46 anos vividos em Londres.
Esse percurso, marcado por um certo desenraizamento, coloca-o num lugar simultaneamente errante e singular. “Na verdade, até por isso, nunca me senti ligado ao meio português, no sentido de fazer parte da comunidade. Sempre me senti um pouco fora de tudo isso”, reconhece o artista. Ainda assim, João Penalva encara esta retrospetiva como uma espécie de súmula do seu trabalho: “Permitiu-me trabalhar cada espaço e cada uma destas instalações apresenta uma situação particular que, volvidos anos, me fazem voltar a lançar questões”, afirma.




Fora de Portugal, a sua obra foi frequentemente conotada com o universo de Fernando Pessoa. “Acho extraordinário, porque o Pessoa, com os seus heterónimos, é uma das coisas que mais me marcou, quando começámos a ouvir falar da descoberta da sua obra, mas não sei até que ponto isso está realmente presente na minha”, observa. Na recusa de uma tradição de interpretação, João Penalva diz que nunca quis ser apenas um “artista português” ou fazer parte de grupos.
Entre ficções, arquivos e identidades instáveis, o seu trabalho continua a ocupar um território ambíguo onde nenhuma narrativa se fixa por completo. Tal como um equilibrista apoiado por um só braço (imagem decorrente de outra das obras apresentadas na retrospetiva), João Penalva move-se entre linguagens, tempos e geografias, mantendo sempre em aberto o sentido das histórias que constrói. Num mundo onde tudo parece exigir definição, a sua obra persiste, deliberadamente, nesse limbo entre o mistério e a pura invenção, entre o que se mostra e o que permanece por decifrar.