Depois das celebrações da expressiva vitória este domingo nas eleições legislativas húngaras, Péter Magyar deu uma longa conferência de imprensa esta segunda-feira: durou quase três horas. Num estilo bastante distinto de Viktor Orbán, o primeiro-ministro eleito da Hungria falou diretamente sobre vários assuntos, desde a guerra na Ucrânia à forma como pretende governar.
Péter Magyar dinamitou as possibilidades de Viktor Orbán se tornar primeiro-ministro novamente. O vencedor nas eleições legislativas assegurou que, “sob o Governo Tisza, o primeiro-ministro não será um Rei Sol, mas sim um capitão de equipa que conta com os seus ministros, os seus representantes e o povo húngaro”. Nessa lógica, prometeu alterar a Constituição húngara — algo que lhe é permitido, dado que o seu partido atingiu dois terços dos deputados no Parlamento húngaro.
“Vamos estipular que o primeiro-ministro só pode exercer o cargo por dois mandatos”, prometeu, salientando que vai restaurar o sistema de check and balances na Hungria. Péter Magyar sublinhou que o limite de mandatos que será estabelecido de forma não consecutiva. Dito doutro modo, o primeiro-ministro eleito assegurou que Viktor Orbán nunca mais será líder de um Governo. O presidente do Tisza defendeu que o antecessor teve uma grande oportunidade para mudar a Hungria — e não a aproveitou.
O presidente do Tisza reiterou que o objetivo da campanha que fez nestas legislativas foi a “mudança de regime”.”Não vamos tomar medidas contra o Estado de Direito para restaurar o Estado de Direito, muito pelo contrário”, prometeu. Adicionalmente, o primeiro-ministro eleito salientou ser “importante limitar os poderes como primeiro-ministro”. “Não estou aqui para ficar rico nem quero governar para sempre”, assegurou.
Péter Magyar atacou ainda os aliados de Viktor Orbán que foram escolhidos para instituições como o Supremo Tribunal ou o Tribunal Constitucional: “São fantoches”. O facto de terem sido nomeados por 12 anos “deixa o próximo governo de mãos atadas” e é, na opinião do próximo primeiro-ministro, “contra o Estado de Direito”. Porém, lembrou a supermaioria no Parlamento. O Tisza “terá o poder para transformar” o sistema criado pelo chefe do executivo em funções.
Nesta linha, Péter Magyar acusou os aliados de Viktor Orbán de estarem a destruir documentos no Ministério dos Negócios Estrangeiros. O vencedor nas eleições legislativas húngaras relatou que recebeu informações de que os documentos sobre sanções estão a ser destruídos. E lamentou que Viktor Orbán não esteja a partilhar informações consigo.
Para o futuro do seu Governo, o vencedor das eleições na Hungria anunciou uma separação dos ministérios da Saúde, Educação, Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural, reunidos num único Ministério dos Recursos Humanos durante a última legislatura. Os assuntos económicos serão retirados da alçada do Ministério das Finanças e a economia externa e interna unificadas.
Péter Magyar apelou mesmo ao Presidente da Hungria, Tamás Sulyok, para acelerar a sua tomada de posse. O chefe de Estado é do Fidesz e é aliado de Viktor Orbán. “Apelo ao Presidente para que não espere até 12 de maio para convocar a sessão inaugural da Assembleia Nacional. Peço que me deixe formar um governo antes disso”, disse, insistindo: “O país não tem tempo a perder”. A Hungria “foi roubada, traída, endividada, arruinada e transformada no país mais corrupto da Europa”, tendo sido governada por um “grupo criminoso organizado”.
Magyar reitera europeísmo e levanta veto ao empréstimo à Ucrânia
Durante a conferência de imprensa, Péter Magyar deixou bem claro uma promessa eleitoral: vai reaproximar Budapeste de Bruxelas. Sobre a União Europeia (UE), o primeiro-ministro eleito prometeu manter a mensagem europeísta. “Os húngaros orgulham-se da sua identidade europeia e constataram que, independentemente das mentiras da propaganda, a União Europeia é um projeto de paz”, constatou.
Respondendo à campanha de Viktor Orbán (que alegou que a UE queria arrastar a Hungria para uma guerra na Ucrânia), o presidente do Tisza justificou que não houve guerra em território da União Europeia, acrescentando que a paz que há na Hungria deve-se, em parte, à NATO e à UE. Péter Magyar prometeu, assim, continuar as negociações com Bruxelas para desbloquear os fundos congelados por Bruxelas.
Questionado sobre o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, o primeiro-ministro eleito disse que foi aceite em dezembro por Viktor Orbán, seguindo a lógica de que não Budapeste não contribuíria para essa verba. O presidente do Tisza concorda “pessoalmente” que a Hungria não faça parte do empréstimo. “Não nos podemos dar ao luxo de contrair novos empréstimos agora.”
Péter Magyar reiterou também que não apoia a adesão acelerada da Ucrânia à UE, explicando que o país vizinho ainda está em guerra. Kiev deve submeter-se ao processo normal de adesão, como “todos os candidatos, e discutir os capítulos”, afirmou. O vencedor nas eleições legislativas lembrou que vários Estados-membros do bloco comunitário defendem o mesmo e prometeu realizar um referendo na Hungria se entretanto a situação se alterar.
Além disso, o presidente do Tisza distanciou-se face a um possível federalismo europeu. “Não temos de ter uma unidade de Estados europeus, os europeus não desejam isto”, defendeu. Os cidadãos “querem nações funcionais e fortes e uma UE onde possam trabalhar, viajar, investir, e viver em paz”, acredita.
Em relação à saída da Hungria do Tribunal Penal Internacional (TPI), Péter Magyar frisou que o Governo que será eleito não pode mudar o processo em curso instaurado pelo Executivo de Viktor Orbán. Contudo, deixou a promessa de um novo processo de admissão da Hungria ao TPI.
Magyar falava ao telefone com Putin e Trump, mas preferia falar com o segundo
Questionado sobre se já recebeu uma chamada de Donald Trump, Magyar afirmou que não e garantiu que não vai ligar ao Presidente norte-americano. O primeiro-ministro eleito recordou que o líder dos EUA tinha o direito de apoiar quem quiser nas eleições. Mas agora deseja ter um “bom e próximo relacionamento com os Estados Unidos”.
Em relação às relações entre Moscovo e Budapeste, Péter Magyar afirmou estar satisfeito com a declaração do Kremlin de que os resultados das eleições seriam respeitados. O líder do Tisza disse que muitos países mantêm relações pragmáticas com os russos. Caso “Vladimir Putin lhe ligasse”, o político assegurou que “atenderia a chamada”.
O primeiro-ministro eleito da Hungria assinalou que, caso conversassem, diria a Vladimir Putin para “parar com as mortes na Ucrânia”. “Seria uma conversa breve”, preconizou. Péter Magyar afirmou que o governo do Tisza diversificará as suas compras de petróleo russo, mesmo não podendo “ignorar a geografia”. “Mas faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para diversificar o nosso fornecimento, embora isso não signifique que nos vamos livrar do petróleo russo”, reiterou.
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