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Trump contra o Papa: as lições que a História ensina e o Presidente ignora

Da perseguição napoleónica ao Papa prisioneiro, quando os líderes atacam Roma é porque o seu poder já entrou em declínio – e Trump acaba de entrar nesse clube. Ensaio do padre João Basto.

P. João Basto
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As recentes declarações de Donald Trump acerca do Papa são o ponto culminante de uma exibição de impotência e fanatismo por parte da administração americana, que configuram, possivelmente, o nosso último sinal de alerta. Espero, por isso, que tenhamos aprendido, de uma vez por todas, que este não é, unicamente, um lado teatral e retoricamente excessivo do Presidente americano. Já não se pode usar, sem peso na consciência, o argumento: “Sim, ele diz isso, mas é para mexer com as águas, para espicaçar, depois é um estadista, ou melhor, o mundo está farto de estadistas, o que queremos é homens de ação”. Chegámos ao fim da linha, onde é preciso mais do que dizer que é a comunicação social que está contra Donald Trump ou que quem não concorda com ele tem uma doença do foro psíquico.

Nas palavras que dirigiu a Leão XIV, Trump não discute, como é hábito, argumentos de substância. O Presidente dos Estados Unidos está contra o Papa por um e só um motivo: ele não pode dominar o Papa e o Papa não se deixa dominar. A Igreja tem muitos problemas, mas é dos poucos lugares do mundo onde, independentemente dos contextos, se fala uma linguagem que não se reduz à gramática da força e do interesse pessoal. A Igreja tem muitos problemas, mas é incómoda para “os poderes deste mundo”, porque nela o poder é julgado por um critério que não controla. Não adianta enviar mensagens deste tipo, nem adianta chamar o representante do Papa nos EUA ao Pentágono para o ameaçar. Estes acontecimentos só se desenrolam porque o Papa e a Igreja ainda são livres e estão fora da armadilha do Presidente americano.

Historicamente, os papas têm criticado o governo dos Estados Unidos por causa de guerras. O Papa Paulo VI fez ouvir a sua objeção à Guerra do Vietname diretamente durante reuniões tanto com LBJ como com Nixon. E o Papa João Paulo II manifestou-se contra a Guerra do Golfo Pérsico de George H.W. Bush em 1991

Quando tive de comentar o funeral do Papa Francisco, que decorreu há aproximadamente um ano, disse que Trump, na praça de S. Pedro, com uma linguagem corporal próxima da de um miúdo irrequieto num parque de diversões, deve ter ido para casa a pensar que há um tipo de poder que ele, por mais dinheiro que tenha, nunca terá. Quando o Papa Leão foi eleito, sempre achei que, embora uma considerável parte da administração americana tenha ficado contente, isso foi o pior que lhe podia ter acontecido. E eu não fui consultar o oráculo de Delfos. Recorri àquilo que é incompatível com o Presidente americano: lições da História. E há três lições que Donald Trump devia conhecer.

  1. O Cristianismo introduziu a separação entre “o que é de César” e “o que é de Deus”. Isso foi visível quando os cristãos se recusaram a participar no culto imperial; quando o Imperador do Sacro Império, Henrique IV, entrou em choque frontal com o Papa Gregório VII, por querer ser  ele a nomear os eclesiásticos; quando Thomas Becket e Thomas More se opuseram às tentativas de Henrique II e Henrique VIII de suprimirem a liberdade religiosa e a separação entre Estado e Igreja.
  2.  A Igreja perde frequentemente as batalhas materiais, territoriais ou jurídicas, sai humilhada e despojada das suas propriedades físicas, mas sobrevive aos regimes que a derrotaram. Durante a Revolução Francesa, o poder revolucionário subordinou completamente a Igreja ao Estado, nacionalizando todas as propriedades da Igreja para pagar as dívidas nacionais e suprimindo conventos. A Igreja sobreviveu. Em 1870, o exército italiano tomou Roma, pondo fim de vez ao poder terreno dos papas e confinando o Papa Pio IX à situação de “prisioneiro do Vaticano”. A Igreja sobreviveu.
  3.  O ataque direto e físico à pessoa do Papa e a Roma nunca acontece em períodos de estabilidade institucional do poder secular. Ocorre sempre quando os líderes civis estão sem alternativas táticas e sentem que o chão da sua própria época está a ceder. Estes momentos são a confirmação exata de grandes ruturas civilizacionais. Nos séculos XIII a XIV, as tensões com o reino francês levaram a que o Papa fosse detido em Anagni em 1303, por ordem de Filipe IV. Este momento marcou o fim trágico da ordem medieval e inaugurou o nascimento violento dos Estados Modernos absolutistas. Em 1527, o exército do Imperador Carlos V, composto por mercenários, invadiu Roma, massacrou a Guarda Suíça e forçou o Papa Clemente VII a fugir para o Castelo de Sant’Angelo, assinalando o colapso da unidade europeia e o clímax sangrento da Reforma Protestante. Em fevereiro de 1808, Napoleão enviou tropas lideradas pelo General Sextius Miollis para ocuparem os Estados Pontifícios e apontarem canhões diretamente à Basílica de São Pedro. O Papa foi detido pelos franceses em maio de 1812 e viveu sob custódia até à sua libertação em 1814. Napoleão perdeu tudo na Rússia e em Waterloo; o Papa regressou a Roma.
O anticatolicismo não é novidade na história americana. Os Pais Fundadores tinham uma profunda suspeita da autoridade papal. O Partido Know-Nothing fez dos imigrantes católicos um alvo político na década de 1850

Trump, tal como Napoleão, age como o miúdo rabugento sem o brinquedo na hora do jantar

Pessoalmente, creio que o exemplo de Napoleão é significativo. Napoleão era cético em relação ao cristianismo, embora acreditasse na existência de Deus e na imortalidade da alma. No entanto, via a religião puramente como um instrumento da lei e da ordem, a par do dinheiro, das honras e das punições. Ele acreditava que a sociedade não podia existir sem desigualdade de riqueza e que essa mesma desigualdade não se podia sustentar sem a religião para manter as pessoas pacíficas.

Como mostra a biografia escrita por Andrew Roberts, Napoleão queria assegurar-se de que a Igreja independente não se tornasse um foco de oposição ao seu governo e, por isso, acreditava que devia controlá-la. Ele via o clero como um poder que nunca estava quieto, procurando transformar os párocos naquilo que foi descrito como os seus “prefeitos morais”.

Inicialmente, Napoleão procurou cooptar o Papa e iniciou delicadas negociações com Pio VII, com o intuito de restabelecer o culto e trazer a França católica para a causa napoleónica; mas, quando o Papa se recusou a aderir ao bloqueio europeu que proibia o comércio com a Grã-Bretanha, negou o divórcio ao irmão de Napoleão, Jérôme, e não quis reconhecer o seu outro irmão, José, como rei de Nápoles, a coisa azedou. Mas permite-nos tirar uma conclusão: tal como Napoleão, Trump não age como o grande estratega militar afastado dos seus interesses e preocupado com o bem comum, age como o miúdo rabugento, possuído por si, a quem é negado o brinquedo na hora do jantar.

Todavia, o anticatolicismo não é novidade na história americana. Os Pais Fundadores tinham uma profunda suspeita da autoridade papal. O Partido Know-Nothing fez dos imigrantes católicos um alvo político na década de 1850. Durante mais de um século, o “Dia do Papa” foi celebrado nas cidades americanas todos os dias 5 de novembro, com efígies do Papa queimadas nas ruas, até que George Washington denunciou a prática. E Ulysses Grant, no seu discurso sobre o Estado da União de 1875, visou as instituições católicas num ataque velado às escolas paroquiais. As afirmações de Trump são o ataque mais direto e pessoal ao Papado por parte de um Presidente americano desde então.

Além do mais, historicamente, os papas têm criticado o governo dos Estados Unidos por causa de guerras. O Papa Paulo VI fez ouvir a sua objeção à Guerra do Vietname diretamente durante reuniões tanto com Lyndon B. Johnson como com Nixon. E o Papa João Paulo II manifestou-se contra a Guerra do Golfo Pérsico de George H.W. Bush em 1991 e mais tarde repreendeu o envolvimento de George W. Bush na Guerra do Iraque, referindo-se às revelações de tortura em Abu Ghraib quando os dois se encontraram no Vaticano em 2004. Permitam-me que vos diga: Paulo VI e João Paulo II tinham razão.

Robert Francis Prevost, quando foi eleito, escolheu o curioso nome de Leão. Curiosamente, o primeiro Papa com esse nome, Leão I, teve um papel central na História, também através de um conflito diplomático. Nessa altura, Átila, o Huno, não queria necessariamente a destruição total do Império Romano, mas sim, através de uma estratégia cuidadosa de extorquir tributos e riquezas, forçar um império já sobrecarregado a pagar por proteção através de saques e ataques calculados; adicionalmente, a sua invasão da Itália em 452 teve o objetivo específico de reivindicar Honória como sua noiva. De novo, objetivos militares misturados com objetivos pessoais e íntimos. Neste contexto, foi o Papa Leão I a desempenhar um papel apaziguador crucial: liderando uma embaixada enviada pelo imperador Valentiniano, encontrou-se com Átila, conseguindo travar o seu avanço sobre a Itália. Anos mais tarde, Leão I usaria, novamente, a sua influência para intervir junto dos Vândalos, convencendo-os a não incendiarem a cidade de Roma nem a massacrarem os seus cidadãos.

https://observador.pt/2026/04/13/donald-trump-partilha-imagem-gerada-por-ia-em-que-surge-como-se-fosse-jesus-cristo-e-apaga-apos-indignacao-dos-seus-apoiantes/

Na época, a pressão contínua provocada pelo avanço dos Hunos empurrou vários outros povos para o interior das fronteiras romanas e, em conjunto com a perda de territórios vitais e das respetivas receitas fiscais, deixou o Império do Ocidente financeiramente arruinado e incapaz de sustentar as suas defesas. O vazio de poder deixado pelo colapso da autoridade imperial romana permitiu que vários povos germânicos estabelecessem os seus próprios reinos independentes nas antigas províncias romanas. Apesar de todo o terror que inspirou, o império construído por Átila não sobreviveu à sua morte súbita em 453 d.C. E a intervenção do Papa Leão I na negociação com Átila simbolizou uma transferência crucial de autoridade. Com a administração imperial em colapso e os imperadores enfraquecidos, a Igreja Católica começou a assumir papéis não apenas espirituais, mas também políticos e diplomáticos, estabelecendo as bases para o enorme poder e influência que o Papado exerceria durante a Idade Média.

Não sei se vivemos um espelho desse tempo. As semelhanças são tão curiosas como assustadoras. Mas parece-me que, tal como se diz no final do Star Wars, é mais importante que nunca: “Ganhar não destruindo o que odiamos, mas salvando o que amamos”.

[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódioaqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]