O Papa Leão XIV defendeu esta segunda-feira, ao iniciar uma visita pastoral à Argélia, que o Mediterrâneo e o Saara, “encruzilhadas geográficas e espirituais de enorme importância”, não devem tornar-se cemitérios para migrantes.
Numa intervenção no Palácio Presidencial, em Argel, Leão XIV referia-se às zonas atravessadas por muitos migrantes na tentativa de chegar à Europa.
“O Mediterrâneo, por um lado, e o Saara, por outro, constituem, de facto, uma confluência de caminhos geográficos e espirituais de grande importância. Se aprofundarmos a sua história, sem simplificações nem ideologias, encontraremos ali escondidos imensos tesouros de humanidade”, indicou perante o Presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune.
Porque o mar e o deserto, acrescentou Leão XIV diante das autoridades governamentais e corpo diplomático, são, há milénios, “lugares de enriquecimento mútuo entre povos e culturas”.
“Ai de nós se os transformarmos em cemitérios onde também morre a esperança! Libertemos do mal estes imensos depósitos de história e de futuro!”, exortou o Papa.
Leão XIV, que na viagem a Espanha, em junho, viajará às Ilhas Canárias e, a 4 de julho, à ilha italiana de Lampedusa, para colocar em destaque a crise migratória, instou à eliminação das “causas do desespero” das pessoas que são obrigadas a emigrar, mas também ao combate contra os traficantes.
“Lutemos contra aqueles que lucram com a desgraça alheia. São lucros ilícitos, de facto, os de quem especula com a vida humana, cuja dignidade é inviolável. Unamos, pois, as nossas forças, as nossas energias espirituais, toda a inteligência e recursos que façam da terra e do mar lugares de vida, de encontro, de maravilha”, acrescentou.
Na intervenção, o Papa lamentou ainda que, por vezes, “os símbolos e as palavras religiosas possam tornar-se, por um lado, em linguagens blasfemas de violência e opressão e, por outro, em sinais desprovidos de significado, no grande mercado de consumos que não saciam”.
Apelou então a “educar para o sentido crítico e para a liberdade, escuta, diálogo e confiança que nos faz reconhecer no diferente um companheiro de viagem, e não uma ameaça”.
“Devemos trabalhar pela cura da memória e pela reconciliação entre antigos adversários”, argumentou.
No primeiro dia da visita à Argélia, o Sumo Pontífice disse também “não” às tentações neocoloniais, sublinhando ser necessário um novo rumo da história e que “quem procura dominar os outros destrói o mundo”.
Defendeu que “um novo rumo da história [é hoje] mais urgente do que nunca, face às contínuas violações do direito internacional e às tentações neocoloniais”, pedindo às autoridades argelinas que desempenhem “um papel de liderança”.
“Exorto aqueles de entre vós que detêm autoridade neste país a não temerem a perspetiva [de participação popular] e a promoverem uma sociedade civil viva, dinâmica e livre, na qual se reconheça, em particular aos jovens, a capacidade de contribuir para alargar o horizonte da esperança para todos”, declarou Leão XIV em inglês perante responsáveis, entre os quais o Presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune.
Desde o impulso do movimento pró-democracia Hirak, em 2019, que reclamava reformas profundas e maior transparência, as autoridades argelinas retomaram o controlo do espaço público, sendo por isso denunciadas por organizações não-governamentais de defesa dos direitos humanos.