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(A) :: Ex-diretor da CIA diz que 25.ª Emenda que permite remoção de um Presidente incapaz “foi escrita a pensar em Donald Trump”

Ex-diretor da CIA diz que 25.ª Emenda que permite remoção de um Presidente incapaz “foi escrita a pensar em Donald Trump”

O antigo responsável acusou a “megalomania" e "ignorância” do Presidente de terem prevalecido no início da guerra. Ao contrário de Trump, comunidade das secretas não via uma "ameaça iminente" no Irão.

Mariana Furtado
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John Brennan, o antigo diretor da CIA nomeado pelo ex-Presidente Barack Obama, afirmou que a 25.ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos — mecanismo que prevê a remoção de um Presidente incapaz de exercer funções — foi pensada para líderes que se comportem como o atual, num comentário crítico à liderança do Presidente norte-americano durante o que classificou como uma guerra “desnecessária” com o Irão.

“Acho que a 25.ª Emenda foi escrita a pensar em [pessoas como] Donald Trump, porque permitir que alguém como ele continue a ser o comandante-em-chefe e a controlar os enormes recursos das Forças Armadas dos EUA, incluindo a nossa capacidade nuclear — à qual ele pareceu aludir quando afirmou que iria simplesmente eliminar uma civilização inteira… Mais uma vez, vivemos tempos muito, muito preocupantes”, declarou Brennan à MSNOW, no sábado.

https://observador.pt/2026/04/07/trump-ameaca-que-uma-civilizacao-inteira-morrera-esta-noite/

A Secção 4 da emenda criada em 1977 e invocada por John Brennan refere-se à destituição involuntária de um Presidente. Este mecanismo permite que o vice-Presidente e a maioria do Governo (ou, em alternativa, o vice-Presidente e a maioria de outro órgão a designar pelo Congresso) declarem o chefe de Estado incapaz de exercer os poderes e deveres do cargo — algo que nunca foi acionado na história da política norte-americana.

O antigo responsável, que dirigiu a agência entre 2013 e 2017, contestou também a ideia de que o Irão representasse uma ameaça iminente. “Todos os funcionários dos serviços de informações que trabalharam na região ou em assuntos nucleares chegaram à mesma conclusão: o Irão não tinha uma arma nuclear, nem estava perto de desenvolver uma. Sim, tinha urânio enriquecido — o que era uma preocupação — mas em termos do impacto de uma campanha aérea no Irão, havia unanimidade de que não traria uma mudança de regime”, referiu.

Aliás, Brennan explicou ainda que, além do material enriquecido, são necessárias várias componentes para o desenvolvimento de uma arma nuclear: a capacidade para fabricar uma ogiva nuclear e a capacidade para depois a integrar num sistema de lançamento operacional. E o Irão não as reunia: “O Irão não tinha capacidade, neste momento, de fabricar uma ogiva nuclear e depois juntá-la a algum tipo de sistema de lançamento para uma arma”, disse, concluindo que “não havia motivo, nem justificação para entrar em guerra”.

Perante as justificações apresentadas pela administração para o início do conflito, Brennan intensificou as acusações. “Como todos sabemos, ele é um mentiroso inveterado nestas matérias, e usar essas mentiras como base para entrar em guerra levou à devastação de tantas pessoas”, afirmou, acrescentando que as decisões refletem um “narcisismo e megalomania” que o levam a considerar-se “a pessoa mais brilhante na sala”, ignorando os factos e as avaliações dos serviços de informações.

O ex-diretor da agência norte-americana criticou também a forma como decisões sensíveis poderão estar a ser tomadas na atual administração, sugerindo falta de contestação interna. Apontando “ignorância” sobre a região e “incompetência” ao Presidente, considerou que Trump poderá estar a decidir sozinho, sem considerar a informação dos serviços secretos. “E, de acordo com notícias recentes, ninguém se dispôs a dizer: ‘Senhor Presidente, isto é uma má ideia. Não devemos fazer isto’”.

A acusação de que o Presidente não tem em conta os contributos dos serviços de informações é, segundo Brennan, consistente com a relação de Donald Trump com as agências. “Isto é consistente com o passado de Donald Trump. Há muito que ele tem demonstrado desdém pelos relatórios da comunidade de serviços secretos e menosprezado os profissionais da área”, afirmou.

John Brennan contraria ainda a posição da diretora dos serviços de informações, Tulsi Gabbard, no seu primeiro testemunho no Congresso desde o início da guerra — nas quais defendeu que apenas o Presidente pode determinar o que constitui uma ameaça iminente. O ex-diretor da CIA sustenta, pelo contrário, que essa responsabilidade cabe aos próprios serviços de informações, cujo entendimento — “ao longo de muitos anos” — tem sido diferente.

Ainda assim, deixou uma nota positiva dentro da administração. Sobre o papel do vice-presidente J. D. Vance, disse ter ficado “muito contente” por este ter levado “profissionais e especialistas do Governo” para as discussões em Islamabad, acrescentando que isso permitiu afastar “figuras do capital de risco e promotores imobiliários” dessas negociações.

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