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(A) :: Donald Trump partilha imagem gerada por IA em que surge como se fosse Jesus Cristo e apaga após indignação dos seus apoiantes

Donald Trump partilha imagem gerada por IA em que surge como se fosse Jesus Cristo e apaga após indignação dos seus apoiantes

A partilha sucede a uma publicação em que criticou abertamente o Papa Leão XIV pela sua oposição à guerra no Irão. A imagem escandalizou até elementos da direita cristã dos EUA associados a Trump.

António Moura dos Santos
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Donald Trump partilhou durante a madrugada desta segunda-feira na sua rede social Truth Social uma imagem gerada com recurso a Inteligência Artificial em que surge representado como Jesus Cristo. A publicação foi entretanto apagada após um coro de críticas por parte de apoiantes do presidente.

Na imagem, publicada sem descrição a acompanhar, era possível ver o Presidente dos EUA vestido com vestes brancas e aparentando estar a curar um homem usando a sua mão direita, pousada na testa do enfermo. A sua figura surge rodeada de várias pessoas, nomeadamente um militar ou uma enfermeira, além de serem visíveis outros elementos que remetem para a estética norte-americana: a Estátua da Liberdade, um edifício semelhante ao Lincoln Memorial, caças a jato, águias, fogos de artifício e uma bandeira americana.

Apesar desta partilha de Trump ter ocorrido sem o Presidente dos EUA fornecer qualquer contexto, subentende-se como um novo ataque ao Papa Leão XIV, a quem o chefe de Estado norte-americano tem feito várias acusações. Numa publicação anterior na mesma rede social, Trump acusou Leão de ser “fraco em relação ao crime e péssimo em política externa”.

“Não quero um Papa que ache que está bem o Irão ter uma arma nuclear. Não quero um Papa que considere terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela (…). E não quero um Papa que critique o Presidente dos Estados Unidos quando estou a fazer exatamente aquilo para que fui eleito”, atirou Trump, considerando que o Santo Pontífice está “a prejudicar a Igreja Católica” com a sua atuação.

https://observador.pt/2026/04/13/trump-afirma-que-leao-xiv-e-terrivel-em-politica-externa-apos-criticas-de-papa/

O Presidente dos EUA não ficou sem resposta — apesar desta fazer-se num tom de minimização das provocações de Trump. Instado a comentar o caso na sua visita à Argélia, Leão XIV disse não “ser político” e negou querer “entrar em debate” com o chefe de Estado norte-americano, frisando também não ter “medo da administração Trump, nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho”. “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas a fazer”, adiantou.

O que é certo é que o cariz da imagem partilhada por Trump escandalizou alguns dos seus mais fiéis apoiantes — mesmo aqueles que, situados na direita cristã evangélica dos EUA e com naturais oposições à corrente católica do cristianismo, consideraram a imagem de natureza blasfema.

Uma dessas pessoas foi a escritora e comentadora política Megan Basham, de grande influência nos setores evangélicos norte-americanos. “Não sei se o Presidente achou que estava a ser engraçado, se está sob a influência de alguma substância ou que explicação poderá ter para esta blasfémia escandalosa. Mas tem de retirar isto imediatamente e pedir perdão ao povo americano e, depois, a Deus”, partilhou na rede social X.

Outra apoiante de peso de Trump indignada é a nadadora Riley Gaines, que se tornou numa das caras do movimento anti-transgénero no desporto. “Um pouco de humildade far-lhe-ia bem” e “Deus não se deixa escarnecer”, avisou. Já Ross Douhat, que escreve uma importante coluna de opinião de pendor conservador no The New York Times, lembrou sarcasticamente que tal imagem viola um dos dez mandamentos bíblicos, “Não terás outros deuses além de Mim”.

Michael Knowles, comentador de direita altamente ligado a Trump, também exprimiu o seu desagrado. “Presumo que alguém já lhe tenha dito, mas convém ao Presidente, tanto do ponto de vista moral como político, apagar a fotografia, independentemente da intenção”, apontou.

Não foram, porém, apenas figuras de mediatismo a opôr-se à publicação do Presidente dos EUA: muitos dos seus próprios apoiantes de base — do chamado movimento MAGA — tinham contrariado o pendor normalmente adulatório a Trump na rede social Truth Social com críticas e pedidos para que apagasse; alguns acusaram-no mesmo de ser um “anticristo”.

A partilha gerou até desconforto no seio da própria Casa Branca, com um funcionário da administração a admitir ao Washington Post que a indignação criada pela imagem dissipar-se-ia nos próximos dias, mas que Trump foi longe de mais. “Outras pessoas nestes comícios de Trump fazem isso por ele, mas quando o fazes tu próprio, … é, na melhor das hipóteses, um sacrilégio”, afirmou, falando sob condição de anonimato.

Trump acabou por apagar a publicação sem fazer um pedido de desculpas. Entretanto, em declarações aos jornalistas esta tarde na Casa Branca, o Presidente dos EUA admitiu ter partilhado a imagem, mas com a justificação de que estava a representar-se como um “médico da Cruz Vermelha”.

“Apenas as Fake News podiam inventar [a associação com Jesus]. Era para eu ser um médico a curar as pessoas. E eu curo as pessoas”, garantiu.

Esta imagem, de resto, já tinha sido gerada em fevereiro por Nick Adams, um ativista MAGA com mais de 600 mil seguidores que costuma recorrer a IA para criar imagens sobre o presidente. No entanto, como alguns utilizadores do X fizeram notar, a imagem partilhada pelo Presidente dos EUA foi posteriormente alterada para substituir um dos soldados que se encontram nas nuvens por uma estranha figura que aparenta ser um demónio.

O Presidente dos EUA, de resto, tem recorrido ao apoio dos setores evangélicos do país para reforçar a sua autoridade política e social. Em março, já com a guerra do Irão em curso, surgiu na Sala Oval da Casa Branca rodeado de pastores evangélicos a rezar por ele e pelas tropas norte-americanas, com vários a pousar as mãos sobre a sua figura e a abençoá-lo.

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