“Que cada bala acerte no alvo contra os inimigos da justiça e da nossa grande nação. Dá-lhes sabedoria em cada decisão, perseverança para a provação que se aproxima, união inquebrável e violência avassaladora contra os que não merecem misericórdia.” As palavras são do secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, e foram ditas no Pentágono a 25 de março deste ano, já depois do ataque contra Teerão que deu início à guerra entre os EUA e o Irão. Mas isto não foi um discurso. Foi uma oração, durante o culto religioso que Hegseth organiza todos os meses no Pentágono e em que militares e decisores políticos oram pelo sucesso de operações militares e pela letalidade e violência das tropas norte-americanas.
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A eclosão da guerra entre o Irão e os EUA, com o ataque lançado por Washington e Telavive no final de fevereiro (que resultou na morte do aiatola Ali Khamenei e de várias figuras de topo do regime iraniano), fez subir de tom a retórica religioso-belicista do governo de Donald Trump, conduzindo ao recente confronto público entre Trump e o próprio Papa. Além do Presidente dos EUA, Pete Hegseth, um homem que no passado defendeu abertamente as Cruzadas e a legitimidade da violência religiosa em nome de Deus e do Cristianismo, tem estado no centro deste discurso.
A tensão entre o Vaticano e a Casa Branca não é nova, mas chegou a um ponto particularmente intenso este fim de semana, com a realização, no Vaticano, de uma vigília pela paz organizada pelo Papa Leão XIV. O primeiro pontífice nascido nos EUA, que se tem posicionado frontalmente contra a guerra no Irão, convocou os católicos de todo o mundo para rezarem pela paz. “Que a loucura da guerra tenha fim”, pediu o Papa na oração que escreveu especialmente para aquele dia. Duas semanas antes, durante as celebrações do Domingo de Ramos, Leão XIV tinha dito na Praça de São Pedro que ninguém podia usar Deus para justificar a guerra.
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“Ele não ouve as orações daqueles que lançam as guerras, mas rejeita-as, dizendo: ‘Mesmo que faças muitas orações, não as vou ouvir. As tuas mãos estão cheias de sangue’”, afirmou o Papa, numa declaração que parece ter assentado diretamente em Pete Hegseth e no governo de Trump. A escalada de tensão agudizou-se no domingo, quando Donald Trump publicou uma longa mensagem nas redes sociais com insultos dirigidos ao Papa — que, esta segunda-feira, já veio assegurar que não tem medo do governo de Trump e acusar o Presidente dos EUA de “deturpar” o Evangelho.
Pelo meio deste choque entre Trump e o Papa, tem surgido em alguns meios de comunicação social norte-americanos uma pergunta: será que a Igreja Católica, que sempre admitiu a guerra justa em algumas situações, está a mudar a sua doutrina sobre este tema, passando a considerar que nenhuma guerra pode ser justa? Estará a Igreja a tornar-se pacifista, ignorando a sua própria doutrina, que considera que há situações concretas em que é possível e necessário recorrer à força, como sugeria recentemente um colunista do Wall Street Journal?
“Não existem guerras justas”, afirmou o Papa Francisco em março de 2022, nos primeiros momentos da guerra na Ucrânia. “Agora que a guerra está perto, ela está na nossa casa, praticamente, e isto faz-nos pensar no lado selvagem da natureza humana, aquilo de que somos capazes. Assassinos dos nossos irmãos.” Noutra ocasião, Francisco diria, numa expressão que ficaria célebre, que “a guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota diante das forças do mal”.

Vários líderes religiosos, incluindo pastores protestantes como Robert Jeffress e Franklin Graham, têm apoiado publicamente a guerra contra o Irão com base em argumentos religiosos. Mas também no contexto católico têm surgido vozes nesse sentido, com particular destaque para o padre norte-americano Gerald Murray, que defendeu, num debate organizado pela revista jesuíta America, “que a guerra é justificada em primeiro lugar pela ameaça que o Irão representa através do desenvolvimento do seu programa de armas nucleares” — e o governo de Donald Trump, sobretudo na voz de Pete Hegseth, tem procurado defender a ideia de que é moralmente aceitável levar a cabo a atual ofensiva contra o Irão.
Afinal, o que pensa a Igreja Católica sobre a guerra?
O pensamento da Igreja Católica sobre a guerra encontra-se plasmado num conjunto de artigos do Catecismo da Igreja Católica, documento que compila toda a doutrina católica, sob um título bastante direto: “Evitar a guerra.”
“O quinto mandamento proíbe a destruição voluntária da vida humana. Por causa dos males e injustiças que toda a guerra traz consigo, a Igreja exorta instantemente a todos para que orem e atuem para que a Bondade divina nos livre da antiga escravidão da guerra”, lê-se no catecismo. “Cada cidadão e cada governante deve trabalhar no sentido de evitar as guerras.”
Logo a seguir, vem o “mas”.
Citando um documento do Concílio Vaticano II (1962-1965), que moldou muito do pensamento contemporâneo da Igreja Católica, o catecismo afirma que, “enquanto subsistir o perigo de guerra e não houver uma autoridade internacional competente, dotada dos convenientes meios, não se pode negar aos governos, uma vez esgotados todos os recursos de negociações pacíficas, o direito de legítima defesa”.
O texto insiste, de resto, nesta palavra central: defesa. É ponto assente que para a doutrina católica nunca é moralmente lícito iniciar uma guerra, mas a Igreja reserva a possibilidade de os países exercerem o seu direito de se defenderem legitimamente pela força. É aqui que assenta o famoso conceito de “guerra justa”.
O documento do Concílio Vaticano II citado naquele ponto diz mais: “Uma coisa é utilizar a força militar para defender justamente as populações, outra coisa é querer subjugar as outras nações. O poderio bélico não legitima qualquer uso militar ou político que dele se faça. Nem, finalmente, uma vez começada lamentavelmente a guerra, já tudo se torna lícito entre as partes beligerantes.”
A Igreja Católica inclui também na sua doutrina a necessidade de respeitar escrupulosamente as convenções internacionais que regem os conflitos armados, com especial atenção aos direitos dos não-combatentes e dos prisioneiros de guerra. “Toda a ação bélica, que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões com os seus habitantes, é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza, sem hesitação”, diz a Igreja, afirmando ainda que a acumulação de armas é “um processo paradoxal de dissuadir da guerra eventuais adversários” e que a “corrida aos armamentos não garante a paz”.
No passado, mesmo antes do Concílio Vaticano II (e apenas para nos atermos ao século XX), a cúpula da Igreja Católica teve posições semelhantes, opondo-se frontalmente aos conflitos armados e apelando à sua resolução pacífica através do diálogo. Exemplo disso é a carta enviada em 1917 pelo Papa Bento XV aos países beligerantes da Primeira Guerra Mundial, propondo um conjunto de pontos para um possível acordo de paz, que acabaria por não surtir efeito. Mais complexa e historicamente discutida foi a posição da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial — particularmente o papel do Papa Pio XII, que, acusado de se manter em silêncio perante o nazismo, teve um papel discreto mas importante na oposição a Hitler.
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Outros papas opuseram-se frontalmente à guerra, criticando a posição norte-americana, nas últimas décadas. Depois do início da guerra do Iraque, João Paulo II afirmou que “a guerra é sempre uma derrota para a humanidade”. Nessa ocasião, a Igreja Católica norte-americana rejeitou a ideia de que há legitimidade moral num ataque preventivo, como aquele lançado então contra o Iraque — e agora contra o Irão. Por seu turno, ficaria célebre o apelo do Papa Paulo VI no púlpito da ONU durante a Guerra do Vietname — “Jamais a guerra!” — e a tensa relação entre o Papa e o Presidente Lyndon B. Johnson acerca desse conflito armado.
Mais recentemente, no contexto da escalada belicista dos últimos anos, o Papa Francisco multiplicou-se em declarações contra a guerra, fazendo-se ouvir de forma praticamente semanal sobre a guerra na Ucrânia e na Faixa de Gaza (até ao fim da vida, de resto, telefonava todos os dias ao único padre católico de Gaza). A sua afirmação, em 2022, de que “não existem guerras justas” — num contexto em que na Rússia eram esgrimidos argumentos religiosos para justificar a invasão da Ucrânia —, ficaria célebre, mesmo tendo aparentemente entrado em contradição direta com a ideia de “guerra justa” explicitamente mencionada no Catecismo da Igreja Católica.
Mas foi com o Papa Leão XIV, cujas primeiras palavras na varanda da Basílica de São Pedro após a eleição papal foram um apelo à paz, que o governo norte-americano entrou numa violenta rota de colisão, sobretudo depois do início da guerra no Irão, que o Papa tem condenado abertamente. Leão XIV tem sido profundamente crítico da administração Trump — não só na geopolítica e na guerra, mas também no tema quente da imigração. Antes ainda de ser eleito Papa, o cardeal Robert Prevost já tinha vários atritos com o governo de Trump, com especial destaque para o momento em que recorreu às redes sociais para criticar duramente o vice-presidente dos EUA, JD Vance, por ter tentado defender a deportação de imigrantes ilegais através de argumentos da teologia cristã.
Quando, no Domingo de Páscoa, Leão XIV surgiu na varanda da Basílica de São Pedro para apelar a “quem tem o poder de desencadear guerras” para optar pela paz, era claro que o Papa tinha Trump em mente: “Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo. Não com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar.” Entre os apoiantes de Trump, particularmente entre aqueles que, como Hegseth, usam a retórica religiosa para justificar a guerra, houve quem tenha visto mais um sinal de incoerência da Igreja: afinal, onde anda a doutrina da guerra justa?
O que é a Igreja considera uma guerra justa?
A ideia de “guerra justa” tem raízes em Santo Agostinho, teólogo do século V e um dos mais influentes pensadores dos primeiros séculos do Cristianismo. A partir do seu pensamento, o Cristianismo desenvolveu a tese de que uma guerra poderia ser justa se estivessem reunidas, simultaneamente, três condições: que a causa seja justa, que a intenção seja reta e que a autoridade que aprova a intervenção bélica tenha legitimidade para o fazer.
Ao longo de séculos, a Igreja foi desenvolvendo e fazendo evoluir o pensamento sobre a doutrina da guerra justa, até à formulação que hoje consta do Catecismo da Igreja Católica, integralmente centrada na ideia de legítima defesa. “Devem ser ponderadas com rigor as estritas condições duma legítima defesa pela força das armas. A gravidade duma tal decisão submete-a a condições rigorosas de legitimidade moral”, diz o catecismo, sublinhando que é necessário que estejam reunidas simultaneamente quatro condições para que uma defesa armada seja considerada justa:
- “Que o prejuízo causado pelo agressor à nação ou comunidade de nações seja duradouro, grave e certo;
- Que todos os outros meios de lhe pôr fim se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes;
- Que estejam reunidas condições sérias de êxito;
- Que o emprego das armas não traga consigo males e desordens mais graves do que o mal a eliminar. O poder dos meios modernos de destruição tem um peso gravíssimo na apreciação desta condição.”
Mas a verdade é que mesmo esta formulação do catecismo, que data da década de 1980, já não é exatamente atual. “Existe algo como uma guerra justa?”, perguntava, num artigo de 2014, o colunista e ativista católico pela paz Tony Magliano, num artigo no National Catholic Reporter. “Podem a morte e a destruição em massa de um conflito armado alguma vez ser moralmente justificadas pelos seguidores do Príncipe da Paz? Para os primeiros discípulos de Cristo, a resposta era um claro ‘não!” Durante os primeiros 300 anos de Cristianismo, era impensável para os seguidores do não-violento Jesus matar um ser humano. Levavam muito a sério o mandamento de Jesus: ‘Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. Bendizei os que vos amaldiçoam, rezai por aqueles que vos maltratam. A quem te bater numa face, oferece também a outra. [Lucas 6:27-28] (…) Volta a pôr a tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam na espada, pela espada hão de morrer.’ [Mateus 26:52]”

O pensamento sobre a “guerra justa” mudou nas últimas décadas?
Com efeito, os últimos papas têm questionado a validade e a atualidade do princípio da guerra justa.
Em 2003, numa entrevista em Roma, o cardeal Joseph Ratzinger, que dois anos depois se tornaria o Papa Bento XVI, foi diretamente questionado sobre se a guerra no Iraque, que acabara de começar, se podia enquadrar na tese da guerra justa. “Não havia razões suficientes para lançar uma guerra contra o Iraque”, afirmou taxativamente Ratzinger. “Para não falar do facto de, com as novas armas que permitem destruições que vão muito além dos grupos de combatentes, hoje em dia deveríamos perguntar-nos se ainda é lícito admitir, sequer, a própria existência de uma ‘guerra justa’.”
Mais recentemente, em 2020, o Papa Francisco dedicou um segmento da sua encíclica Fratelli Tutti à “injustiça da guerra”, no qual avisou que “a guerra não é um fantasma do passado, mas tornou-se uma ameaça constante” e lamentou que se esteja “facilmente” a optar “pela guerra valendo-se de todo o tipo de desculpas aparentemente humanitárias, defensivas ou preventivas, recorrendo-se mesmo à manipulação da informação”.
Francisco foi mais longe e denunciou a facilidade com que se cai “numa interpretação demasiado larga” do direito à legítima defesa. “Assim, pretende-se indevidamente justificar inclusive ataques ‘preventivos’ ou ações bélicas que dificilmente não acarretem ‘males e desordens mais graves do que o mal a eliminar’. A questão é que, a partir do desenvolvimento das armas nucleares, químicas e biológicas e das enormes e crescentes possibilidades que oferecem as novas tecnologias, conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes”, apontou Francisco. “Já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar duma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra.”
Numa nota de rodapé relativa a este parágrafo, Francisco acrescentou ainda: “Mesmo Santo Agostinho, que elaborou uma ideia da ‘guerra justa’ que hoje já não defendemos, disse que ‘matar a guerra com a palavra e alcançar e conseguir a paz com a paz e não com a guerra, é maior glória do que a dar aos homens com a espada’.”
Ainda assim, não é certo que seja sequer a tese da guerra justa aquilo que está na cabeça da administração Trump para justificar esta guerra, já que, mesmo nos discursos sobre o conflito, não são os termos historicamente associados à teoria da guerra justa que brilham: em vez da ideia da proporcionalidade, surge a promessa de um ataque “sem misericórdia” contra os inimigos; em vez da ideia de alcançar a paz, é apresentada a necessidade de uma vitória.
Independentemente das mudanças na perspetiva dos últimos papas sobre a tese da “guerra justa”, nos Estados Unidos, alguns importantes líderes da Igreja Católica têm reiteradamente afirmado que a decisão norte-americana de atacar o Irão não é suportada pelo que o Catecismo da Igreja Católica diz sobre a teoria da guerra justa. “Neste momento, a decisão dos EUA de ir para a guerra contra o Irão não alcança o limiar necessário para uma guerra moralmente legítima”, afirmou recentemente o cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington DC e um dos mais influentes cardeais norte-americanos, uma semana depois de a Conferência Episcopal dos EUA ter divulgado um comunicado opondo-se à guerra no Irão.
Já esta segunda-feira, o presidente da Conferência Episcopal dos EUA, Paul Coakley, arcebispo de Oklahoma, veio a público defender o Papa Leão XIV dos insultos de Donald Trump. “Estou desalentado pelo facto de o Presidente ter optado por escrever palavras tão depreciativas sobre o Santo Padre”, disse Coakley. “O Papa Leão não é seu rival; nem o Papa é um político. Ele é o Vigário de Cristo, que fala a partir da verdade do Evangelho e em prol do cuidado das almas.”
Perante uma Basílica de São Pedro cheia no último sábado, o Papa Leão XIV não poupou nas palavras sobre o atual estado do mundo, garantindo que no Reino de Deus “não há espadas, nem drones, nem vinganças, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão”. A oração, acrescentou, é uma “uma barreira contra esse delírio de omnipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo à nossa volta”. Menos de 48 horas depois, Trump publicava na sua conta do Truth Social uma imagem gerada por Inteligência Artificial retratando-se a si próprio como Jesus e com aviões de guerra em pano de fundo.

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