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(A) :: As compensações às vítimas de abusos, os "populismos" e os migrantes. No último discurso como líder dos bispos, José Ornelas deixou avisos

As compensações às vítimas de abusos, os "populismos" e os migrantes. No último discurso como líder dos bispos, José Ornelas deixou avisos

Bispo de Leiria-Fátima faz a sua última intervenção pública como líder da Igreja Católica em Portugal. Bispos estão reunidos para escolher dirigentes da Conferência Episcopal.

Miguel Pinheiro Correia
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A terminar o percurso de seis anos como líder da Igreja Católica em Portugal, José Ornelas voltou a falar, na sua última intervenção pública, sobre os abusos sexuais, assunto que marcou grande parte da sua liderança da Conferência Episcopal Portuguesa. Sobre a “redução significativa” das compensações dadas às vítimas, o bispo de Leiria-Fátima lembrou que a decisão é coletiva, apesar dos diferentes “pontos de vista” dos bispos.

“Os membros da Assembleia [Plenária de bispos] exprimem-se livremente na diversidade legítima dos seus pontos de vista, mas tem sido sempre possível chegar a uma solução que passa a ser a decisão da Assembleia. Esse é o nosso modo de trabalhar, que me parece normal em qualquer órgão colegial e sinodal”, explicou.

O bispo entende que “polemizar sobre posições individuais” dos bispos, “sem respeito pela realidade e a verdade”, “é lamentável e injusto tanto para as vítimas como para os visados”. Na passada quarta-feira, o jornal Sete Margens, especializado em assuntos religiosos, revelou que houve pelo menos três bispos a reagir frontalmente aos valores sugeridos: Manuel Linda (Porto), Nuno Brás (Funchal) e António Luciano Costa (Viseu). Para Ornelas, estas acusações não ajudam “a uma correta informação”.

https://observador.pt/2026/04/08/abusos-igreja-assume-reducao-significativa-das-compensacoes-mas-diz-que-corte-nao-esta-relacionado-com-dificuldades-financeiras/

“Se houve tema em que a Igreja em Portugal teve compromisso particularmente determinado nos últimos anos foi o da Proteção de Menores e de Adultos Vulneráveis. Não podemos olhar para este tempo sem reconhecer a dor das vítimas de abusos sexuais e a gravidade do mal que lhes foi causado, e as marcas profundas que esse mal deixou nas suas vidas”, acrescentou.

Caberá ao sucessor de Ornelas continuar o “caminho de purificação e de reconciliação com o passado”, reconhecendo o “caminho doloroso” que “expôs feridas profundas”. Este processo só foi possível, segundo o ainda presidente da CEP, com o trabalho de várias entidades — como a Comissão Independente para o estudo dos abusos, o Grupo VITA e as comissões das Dioceses.

“Estamos também a terminar uma etapa do processo de compensações financeiras às vítimas de abusos. Não se trata de pagar a dor, porque a dor não se paga. Trata-se de reconhecer um mal injusto e de colaborar, tanto quanto possível, na reparação e no refazer de vidas profundamente dilaceradas”.

Neste caminho de reconciliação, Ornelas reconhece que houve falhas na expressão das intenções da Igreja e que as soluções podem ter ficado “aquém das expectativas” das pessoas. “Foi um percurso complexo e sensível, mas sempre assumido com seriedade e responsabilidade, tendo as vítimas no centro do nosso pensamento e ação, no intuito de contribuir para a superação possível dos dramas vividos por quem foi vítima de abusos e para a reconstrução das suas vidas”.

O discurso do ainda presidente ficou marcado por algumas indicações deixadas para a sua sucessão, também no que diz respeito aos abusos. “O caminho não termina aqui nem pode voltar atrás”, enfatiza, pedindo uma mudança de “práticas”, reforçando a prevenção de forma a tornar a Igreja “num lugar seguro e mais coerente com aquilo que professa”.

“A ‘tolerância zero’ tem de ser mais do que uma fórmula dita: tem de tornar-se critério permanente de coerência evangélica e de responsabilidade institucional. Estivemos, estamos e estaremos sempre empenhados nesse propósito, na prevenção de todos os tipos de abuso e na promoção da formação necessária à proteção aos mais frágeis”.

Esta experiência adquirida pela Igreja durante todo o processo pode ser “partilhada com outras instituições da sociedade, ao serviço do bem comum”.

https://observador.pt/2026/03/26/igreja-catolica-vai-pagar-pelo-menos-16-milhoes-de-euros-em-compensacoes-a-vitimas-de-abusos/

“Há cansaço e desconfiança, e isso abre espaço a populismos”

José Ornelas terminou o discurso a falar sobre os conflitos geopolíticos que marcam a atualidade mundial. Num momento em que Donald Trump dirige fortes críticas à posição do Papa Leão XIV contra a guerra, o bispo português alertou para o crescimento de várias formas de “protesto”, “desilusão” e “radicalização”. “Há cansaço e desconfiança, e isso abre espaço a populismos e a formas de fazer política que se alimentam mais do medo e da manipulação do que da busca sincera de soluções”.

Sem esquecer a instabilidade internacional e os impactos da guerra na “pobreza crescente” de “tantas famílias”, Ornelas destaca o “desafio crescente” do “aumento do número de migrantes”. Ao mesmo tempo que reconhece a necessidade de “regular os fluxos migratórios”, defende que “nada pode justificar processos desumanos, tempos de espera humilhantes ou formas de integração insuficientes”.

“Uma sociedade justa reconhece nos migrantes pessoas concretas que têm um rosto, que procuram um futuro de esperança e dignidade e que estão a dar um contributo fundamental para a sustentabilidade deste país. Legitimar a exclusão, a hostilidade ou o desprezo são atitudes que contradizem o Evangelho e que não contribuem para a afirmação de uma sociedade justa, aberta e a pensar num futuro melhor para si e para o mundo. (…) Vivemos dias pautados por novas mediações culturais e tecnológicas, em que a inteligência artificial entra no quotidiano, reconfigura a forma como acedemos à informação, como comunicamos e nos relacionamos. Neste mundo marcado por aceleração e ruído, a missão da Igreja passa também por aprender a falar todas as novas linguagens, sem perder a verdade do Evangelho”.

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Ornelas não quer uma Igreja “fechada sobre os seus ritmos habituais”

O presidente da CEP nomeou a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa “como um dos momentos mais significativos” do seu percurso. Para Ornelas, o maior evento católico do mundo foi mais do que “um grande evento”.

“Foi, sem dúvida, um tempo de alegria, de vigor e de renovada visibilidade da Igreja, mas foi também mais do que isso: toda a preparação da Jornada, a mobilização das dioceses, a dedicação de tantos voluntários e o encontro com jovens de tantas proveniências mostraram-nos que a Igreja, para ser fiel à sua missão, precisa de escutar mais profundamente os jovens e de levar mais a sério o lugar que eles têm na vida eclesial”.

Estes frutos que surgiram da JMJ “não se podem perder” e obrigam a Igreja a não viver “fechada sobre os seus ritmos habituais”. Em Portugal, Ornelas quer uma vivência da fé “mais missionária e mais capaz de integrar a diversidade sem medo”. “O diálogo e a participação corresponsável dos jovens continuam a ser um dos desafios fundamentais para a Igreja e para a sociedade em geral”, disse.

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“Solidariedade” na pandemia e na destruição provocada pelas tempestades deste ano

José Ornelas recordou o arranque do seu período de liderança da CEP, marcado pela pandemia da Covid-19, que o bispo classificou como uma fase desafiante para a Igreja, obrigando à alteração de hábitos e adaptações pastorais.

“Num tempo de incerteza, de sofrimento e de isolamento, a Igreja procurou sempre estar junto das pessoas, mas tivemos de nos reinventar para encontrar novas formas de proximidade”, lembrou, destacando que mesmo estando todos fechados em casa e com acesso limitado às igrejas, era “fundamental” manter o “sentido de presença comunitária”.

“[Durante a pandemia] houve sinais muito belos de generosidade, de solidariedade com os mais carenciados e solitários, de serviço e de criatividade pastoral, com a participação de muitas e renovadas caras. Mas houve também fragilidades que ficaram mais expostas, como, por exemplo, a perda de ligação concreta à comunidade e ao ritmo habitual da vida de fé”.

Esse espírito de solidariedade, destaca, foi recuperado “noutras crises naturais ou económicas”, como as tempestades que afetaram o País no início deste ano e causou “consequências que vão demorar a ser saradas”. “Testemunhámos igualmente a generosa vaga de solidariedade para acudir, intervir e participar na necessária obra de reparação. Foram milhares os voluntários, entre os quais muitos jovens, que puseram ‘mãos à obra’, entre as quais as instituições da Igreja. Esta mobilização, como a silenciosa e continuada atenção aos mais desfavorecidos, constitui, aliás, um dos campos bem presentes na ação da Igreja, que tem de ser mais bem coordenado para ir ao encontro de quem mais precisa”, acrescentou.

É recuperando o fervor solidário das pessoas que Ornelas aponta para o “caminho sinodal” iniciado pelo Papa Francisco e continuado agora com Leão XIV. “A sinodalidade não é apenas um método organizativo, mas é a forma de a Igreja se compreender e viver a partir do Evangelho. Trata-se de um caminho que exige conversão pessoal e comunitária, na escuta do Espírito de Deus e uns dos outros, para discernir e tomar decisões em corresponsabilidade”, rematou.

Ornelas foi eleito pela primeira vez em 2020 e reeleito em 2023 para o segundo mandato que agora terminou. Nesses seis anos acompanhou o final do pontificado do Papa Francisco e o primeiro ano do Papa Leão XIV.

“Foi uma abertura na Igreja a chegada do Papa Francisco”, disse o ainda presidente da CEP numa entrevista à Lusa, destacando um “novo” começo dentro da Igreja com a chegada do argentino ao cargo de líder da Igreja católica. Em retrospetiva, o bispo destacou seis anos de presidência da CEP como um período de experiências “novas e interessantes” e um tempo de dar respostas à sociedade, em vez de “se dormir na formatura”.

Apesar de ter atravessado um período de “crises económicas e sociais” e de ter lidado com a crise de abusos sexuais na Igreja, Ornelas destacou, em entrevista à Lusa, o “retorno de um tipo diferente” de prática religiosa depois da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa e o impacto de Francisco nos católicos.

Sobre Leão XIV, o bispo de Leiria-Fátima voltou a manifestar o desejo de receber o Papa no Santuário de Fátima, por ocasião dos 110 anos das aparições marianas na Cova da Iria, que se celebram no próximo ano.

“Espero que sim. Aliás, isso já foi um convite que lhe foi feito mais do que uma vez por mim e por outras pessoas, também membros da Conferência Episcopal. (…) Ele sabe, já deu um sinal de que quer vir também a Portugal e fizemos também já por escrito esse convite. (…) Acho que ele vai ser sensível, mas não tenho mais [informação] do que isso”, disse à Lusa.

Além da eleição do presidente, os bispos também discutirão as compensações financeiras no quadro dos abusos sexuais na Igreja portuguesa.