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O Inverno da Vontade: porquê continuar?

Uma civilização não se mede pela sua capacidade de durar, mas pela sua vontade de permanecer. E essa vontade parece estar a esgotar-se.

Nuno Nabais Freire
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Há um silêncio que cresce na Europa. Não é o silêncio respeitoso das bibliotecas ou o das catedrais, é o silêncio terminal das casas sem crianças. Um continente que, durante séculos, se expandiu, colonizou e moldou o mundo através da ciência e da cultura, confronta-se hoje com uma evidência que a política teima em maquilhar: a Europa desistiu de se substituir a si própria.

Portugal é o rosto deste deserto. Com uma taxa de fecundidade estagnada nos 1,3 filhos por mulher, cada geração é, matematicamente, uma sombra menor da anterior. O fenómeno repete-se em Itália, Espanha ou Alemanha. Sociedades tecnologicamente avançadas, financeiramente estáveis, mas demograficamente moribundas.

Historicamente, o veredicto é cruel: civilizações não colapsam apenas por invasões bárbaras ou crises bolsistas. Colapsam também quando deixam de ter filhos. O Império Romano, o pilar sobre o qual nos erguemos, enfrentou este mesmo “vazio” antes da queda. A perda de vitalidade interna é sempre o prelúdio da perda de poder externo.

A Europa foi construída sobre a ética cristã e o direito romano. Um deu-nos o sentido do sacrifício e da família; o outro, a estrutura da lei e da ordem. Ambos partilhavam um pressuposto que hoje parece extinto: o futuro vale o investimento.

Atualmente, ter filhos deixou de ser um ato natural de continuidade para ser tratado como uma “opção de consumo inconveniente”. Adia-se pela carreira, relativiza-se pelo conforto, substitui-se pela liberdade individualista. O problema não é apenas o custo de vida ou a precariedade habitacional, embora esses fatores sejam reais. O problema é cultural. É uma mudança profunda na forma como olhamos para o tempo e para o sacrifício.

Uma civilização que não quer ter filhos é uma civilização que deixou de acreditar em si própria. Ter um filho é o derradeiro ato de fé, não biológica, mas civilizacional. É aceitar o sacrifício presente em nome de algo que nos ultrapassa. Quando essa vontade morre, a demografia é apenas a primeira peça do dominó a cair.

Surge então a solução tecnocrática: compensar o défice através da imigração. Mas sejamos claros: a integração não é um processo de copy-paste demográfico. Requer uma base cultural sólida e uma identidade capaz de absorver e transmitir valores. Sem essa espinha dorsal, o que temos não é continuidade, é uma substituição desordenada. Se nós próprios não sabemos quem somos, como esperamos que quem chega o saiba?

É a ironia trágica da nossa era: nunca tivemos tanto conforto, tanta longevidade e tanta liberdade. E, no entanto, nunca estivemos tão hesitantes em perpetuar o nosso legado. Como se, no auge da capacidade técnica, tivéssemos perdido a razão de ser.

O verdadeiro “inverno demográfico” não é de nascimentos, é de sentido.

Descartes encontrou a certeza no pensamento: Cogito, ergo sum penso, logo existo. Hoje, perante o vazio das nossas creches e o envelhecimento das nossas ruas, a pergunta é outra, muito mais perturbadora:

Pensamos, existimos, mas será que ainda queremos continuar?

Uma civilização não se mede pela sua capacidade de durar, mas pela sua vontade de permanecer. E essa vontade parece estar a esgotar-se.

Na teoria musical, a pausa não é a ausência de música, é a respiração que dá sentido à pauta. Mas o que estamos a compor hoje na Europa já não é um compasso de espera antes do próximo andamento. É um decrescendo prolongado, um ritardando voluntário rumo à folha em branco. Uma grande sinfonia civilizacional não sobrevive apenas de silêncios bem-educados. Alguém tem de ter a ousadia vital, a bela e instintiva irreverência de se sentar ao piano e, recusando que a música acabe no nosso turno, bater com força na primeira nota da próxima geração.