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ArtExtasia, a escola artística que produz filmes eróticos em Sintra e onde o guru da Seita do Yoga recruta novos membros

A escola de yoga e tantra de Lisboa, Natha, recruta membros através dos retiros e formações da ArtExtasia. Mulheres fazem sessões nuas em Sintra e chegam a viver na Hungria, sob regras rígidas.

Mariana Marques Tiago
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A cerca de 44 quilómetros de Budapeste, na Hungria, há uma casa de dois pisos parcialmente isolada onde vivem cerca de 20 mulheres. A poucos metros, na mesma propriedade, existe uma segunda casa onde só vivem homens. Na rua, quem passa junto à densa vegetação que delimita o local não imagina que todas aquelas pessoas se sujeitam a regras como mudar de quarto regularmente para não criar laços com ninguém ou estar totalmente incontactável e deixar a família (e por vezes os filhos) para trás. Os residentes também precisam de autorização superior para cortar o cabelo ou sair à rua. Quem ali mora pertence à ArtExtasia, o ramo artístico do movimento criado pelo alegado guru do yoga e tantra Gregorian Bivolaru, figura central do Podcast Plus do Observador “Os Segredos da Seita do Yoga”, que está, desde novembro de 2023, detido em França, por suspeitas da alegada prática de crimes de violação, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de fraqueza.

A ArtExtasia, alertam antigos membros, é um meio para financiar o movimento de Bivolaru, o MISA (Movimento de Integração Espiritual no Absoluto), e também para recrutar novos seguidores. Em cada país onde este grupo artístico existe, há uma associação a uma escola de yoga e tantra do movimento de Bivolaru. Em Portugal, por exemplo, a escola chama-se Natha — Escola Espiritual de Yoga e Tantra, e situa-se no centro de Lisboa.

Os membros da ArtExtasia dedicam-se, entre outras atividades, à produção de filmes eróticos. Acreditam que estão a criar uma “via única onde a arte esotérica e o tantra convergem”, provocando “uma eficaz transformação da consciência” tanto no ator como no espetador, lê-se no site português. Defendem também, no site inglês (o site geral do movimento), que aquilo que produzem “inspira as pessoas a abraçar a sua natureza erótica sublime”, e a elevar-se espiritualmente.

https://observador.pt/2026/03/04/os-segredos-da-seita-do-yoga-ouca-aqui-todos-os-episodios/

Em Sintra, fazem-se sessões fotográficas sem roupa. Destino das imagens é incerto

Nos filmes produzidos pela ArtExtasia surgem muitas vezes cenas de sexo real e explícito, conta Ângela, que frequentou a academia de artes eróticas. Diz que nunca foi convidada para participar em filmagens, mas conhece “homens e mulheres que o fizeram, porque [olhavam para esta proposta como uma oportunidade] para ‘sublimação’ [do ser], como dizem”. Segundo Ângela, ninguém sabe para que são usadas as imagens após o filme ser concluído: “O que se diz e é falado nos bastidores é que é tudo vendido como pornografia. Não sei. Não confio que seja apenas para consumo interno, porque quando tentamos saber dizem logo para não fazermos perguntas.”

Mas antes de se chegar à gravação destes filmes, há todo um percurso que cada membro da ArtExtasia tem de percorrer e que passa, por exemplo, pela realização de retiros e sessões fotográficas na Serra de Sintra. Ao contrário daquilo que pensa Ângela, Rita (nome fictício) está certa de que os filmes da ArtExtasia — que “são sempre eróticos” — “nunca eram expostos, eram sempre para a egrégora [a entidade; o grupo] e não para sites pornográficos”.

Enquanto pertenceu a esta academia de artes eróticas, Luísa (também nome fictício) estava tão convencida quanto Rita de que os conteúdos produzidos eram apenas para consumo do grupo. Chegou a aceitar “vestir um body transparente para ser fotografada e ir para o meio da Serra de Sintra fazer uma sessão”, conta. “Na altura, acreditava mesmo que isto era para meu bem, para me valorizar a mim mesma. Mas hoje penso: onde estão essas imagens? O que é que lhes fizeram?”.

Tal como na Natha, na ArtExtasia "também havia iniciações só com mulheres, em que a mais velha partilhava ensinamentos mais eróticos"
Rita (nome fictício)

Em outubro do ano passado, a ArtExtasia anunciou aos seus alunos o lançamento de um novo site, o Tantra Revelations, um serviço de streaming para maiores de 18 anos com o custo de 21 euros por mês. O catálogo disponível nesta plataforma inclui várias fotografias e filmes eróticos e pornográficos.

Ângela, Rita e Luísa não se conhecem, mas todas decidiram contactar o Observador após a publicação do podcast “Os Segredos da Seita do Yoga”. Dizem querer contar a sua história — e não são as únicas. Ângela admite que se sente “mal, culpada, por trair a confiança de algumas pessoas que partilharam dores muito pessoais e íntimas”. Mas, por outro lado, pensa que foi “por tanta gente ter ficado calada” que o movimento de Gregorian Bivolaru “cresceu e continua a crescer”.

ArtExtasia e Natha de mãos dadas: das iniciações secretas aos grupos exclusivos e membros em comum

Como é que a escola de yoga e tantra Natha e a academia de arte erótica ArtExtasia se cruzam? Uma pesquisa rápida no site da Natha não remete, em momento algum, para o braço artístico da organização. E vice-versa. Não parece haver eventos conjuntos e nem membros comuns, mas os testemunhos recolhidos pelo Observador mostram o oposto.

“Dizem que a ArtExtasia não é da Natha, mas é. Tanto que tínhamos de ter obrigatoriamente pessoas da ArtExtasia nos festivais de tantra que a Natha organizava”, conta Luísa, que frequentou a academia de artes eróticas até por volta de 2019. E garante que “a maioria das pessoas da ArtExtasia pertenciam também à Natha”.

Rita também comprova a ligação entre as duas organizações. “Trabalham em conjunto, a ArtExtasia tem os mesmos princípios da Natha”, sendo que “o yoga e o tantra são sempre as bases”. Um dos aspetos comuns entre a Natha e a ArtExtasia é a necessidade de cumprirem “rituais de iniciação” secretos, diz. E conta que havia um grande “secretismo sobre coisas que não podíamos dizer” a ninguém. “Às vezes achava aquilo ridículo, eram coisas que não me pareciam nada de mais, porque é que tinha de ser um segredo? Às vezes era uma dança que fazíamos, simplesmente.”

O autor do livro “O Universo das Seitas Destrutivas”, António Madaleno, explicou no podcast “Os Segredos da Seita do Yoga” que se trata de uma técnica propositada, com o objetivo de, a pouco e pouco, ir normalizando os segredos e os juramentos. “As pessoas em baixo, que estão a cumprir as regras, o rebanho, digamos assim, acredita que está a fazer algo de bom. E cada secção do grupo tem a informação estritamente necessária que deve saber para fazer o seu trabalho”, aponta António Madaleno.

A isso juntam-se os rituais de iniciação, que são apresentados como uma forma de “integrar alguém no grupo”. “Muitas vezes esses rituais são tão humilhantes que a pessoa tem de abdicar de si mesma para os pôr em prática”.

https://observador.pt/especiais/do-yoga-a-religiao-as-estrategias-usadas-pelas-seitas-para-controlar-e-explorar-os-seguidores/

Rita conta que na ArtExtasia “também havia iniciações só com mulheres, em que a mais velha partilhava ensinamentos mais eróticos, por exemplo sobre como ter o êxtase máximo ou sentir um orgasmo no corpo todo”. Esteve na academia de artes eróticas entre 2021 e 2024 e recorda que, na época, tinha dificuldades em assumir compromissos. O responsável pela ArtExtasia em Portugal, com quem tinha aulas, dizia-lhe “que tinha de fazer yoga todos os dias porque fazer yoga é bom”, mas Rita não cumpria. “Ele [o responsável] convenceu-me a ir para a Natha porque teria de assumir um compromisso porque havia aulas semanais. Sugeriam que fôssemos ter aulas lá porque a prática era mais frequente.”

Foi uma questão de tempo até ceder e se inscrever na Natha, a escola de yoga do movimento que Bivolaru fundou — informação que Rita, na altura, ainda desconhecia. “Quando entrei, para mim, aquilo era só uma escola de yoga. Mas depois começaram as mesmas iniciações e percebi que ali também havia grupos de mulheres e festas e salas onde não podíamos entrar”, lembra.

Miranda Grace, que contou a sua história no podcast “Os Segredos da Seita do Yoga”, diz que, tal como acontece na escola de yoga, também na ArtExtasia as mulheres são incentivadas a ser o mais femininas possível. A inglesa, que chegou a ser capa de um dos festivais organizados pela ArtExtasia em Lisboa, contou que, ao longo dos anos que passou no movimento, se viu frequentemente forçada a estar em situações  fora da sua zona de conforto. Um exemplo: o dia em que teve de subir a um palco para dançar, apenas “com um top tipo sutiã e uma saia transparente com cuecas por baixo”.

O Observador questionou a Natha sobre a sua alegada ligação à ArtExtasia aquando da realização do Podcast Plus. Em resposta, esta escola de yoga e tantra garantiu que “não tem qualquer ligação com a ArtExtasia”. “A Natha é uma associação sem fins lucrativos completamente independente, sem prejuízo de eventualmente haver membros comuns”, lê-se na resposta enviada por email e, mais tarde, publicada no site da própria Natha.

Pela mão de Pedro, Ângela aceitou ficar na ArtExtasia e viajar até Budapeste

O homem que incentivou Rita a juntar-se à Natha de Lisboa e que dava a cara pela academia ArtExtasia na capital portuguesa é Pedro Vieira. Apresenta-se como ator e surge não apenas em vários vídeos publicitários nas redes sociais da ArtExtasia, mas também em alguns dos filmes que este ramo artístico do movimento de Bivolaru produz. Um exemplo é o filme “Hope St No. 6”, de 2017, em que também participa a portuguesa Marina Costa — e que tem realização da argentina Aghora Vidya, fundadora e líder deste movimento internacional.

Oito anos depois, foi justamente Pedro Vieira quem orientou a palestra gratuita “Arte Tântrica de Viver”, a que o Observador assistiu em setembro de 2025, e que surge descrita no último episódio do Podcast Plus “Os Segredos da Seita do Yoga”.

Alto, de cabelos compridos, já meio grisalhos, Pedro Vieira continua a ser uma das figuras centrais da ArtExtasia em Portugal. Em e-mails trocados com o Observador, em abril deste ano, assina como “presidente da Direção” — mas declina responder às perguntas enviadas pelo jornal.

A inglesa Miranda Grace cruzou-se com Pedro Vieira quando o português esteve em Londres, a orientar um workshop num festival de Tantra organizado pela  escola de yoga que ela frequentava. A convite de Aghora Vidya, chegou a contracenar com ele num filme. “Ela disse-me: ‘Sabes, o que é especial nos nossos filmes é que, ao contrário da pornografia normal, da pornografia básica, aqui o foco está no amor. Nós não estamos a mostrar sexo, estamos a mostrar amor e amor divino. E nós amamo-nos genuinamente uns aos outros. As pessoas na pornografia não, fazem-no por dinheiro ou pela aparência’”, recorda a inglesa. As gravações aconteceram num teatro, na Hungria. “Ela disse: ‘Queremos que entres num filme com o Pedro Vieira. Achas que consegues amá-lo? Achas que consegues fazê-lo?’ E eu disse: ‘OK, vou tentar’. O filme tinha um guião completo. Havia representação. Estávamos conscientes da mensagem espiritual do filme. E também havia cenas de sexo, e essas cenas foram filmadas.”

Se Miranda conheceu Pedro Vieira no contexto da ArtExtasia, com Ângela foi diferente. Foi Pedro Vieira quem a levou para o movimento, mas já eram amigos antes. Conhecem-se há mais de uma década, desde os tempos em que Pedro Vieira “ainda era um ator de publicidades e participava em pequenas coisas de telenovelas”. Como se interessava pela temática do tantra, e porque sabia que Pedro Vieira se tinha juntado à ArtExtasia, Ângela falou com o amigo para experimentar.

“Acabei por conhecer o trabalho da ArtExtasia, que é incrível, muito belo em termos artísticos”, reconhece Ângela. Diz que ficou tão “encantada” com esta academia artística, que decidiu fazer um curso de um ano. “Os dois primeiros meses foram interessantes, mas depois tornou-se repetitivo”, confessa, para acrescentar:  quando partilhou esta sensação, os membros do grupo apressaram-se a garantir-lhe que o problema era apenas dela. Se não estava a gostar, era porque estava “muito fechada e a resistir”.

https://observador.pt/especiais/sites-eroticos-juramentos-e-iniciacoes-sexuais-com-o-guru-a-historia-de-os-segredos-da-seita-do-yoga/

Influenciada pelos pares, e sobretudo pelo próprio amigo, Ângela acabou por ceder e foi ficando no grupo artístico. “O Pedro é mesmo muito bom, era muito convincente. Ele adora ser a estrela e ser idolatrado pelas mulheres.” Em 2023, recebeu um convite para conhecer o ashram (ou comunidade) da ArtExtasia na Hungria, onde viviam muitos dos artistas do grupo — incluindo o próprio Pedro Vieira.

Neste ashram havia pessoas de muitos países além de Portugal e Hungria, como França, Roménia, Brasil e até Venezuela. De uma forma ou de outra, diz Ângela, todas as mulheres que lá moravam na altura teriam sido convencidas pelo português para se mudarem para lá. “Ele tem uma grande influência. Às vezes penso que se fosse mais jovem, com um corpo com menos marcas [por causa da gravidez] e se ele tivesse tido interesse sexual em mim, eu também teria sido seduzida”, admite.

A intensidade de Pedro Vieira, explica Ângela, terá levado o português a alcançar uma espécie de estatuto privilegiado dentro da ArtExtasia: tem “liberdade total” e vive, não em comunidade, mas numa casa particular. “Acho que está a ser preparado para um dia liderar o movimento.”

O convite para esta portuguesa ir conhecer o ashram de Budapeste surgiu num momento particularmente sensível. “Não sabia bem o que fazer da minha vida porque já era mãe e os meus filhos já eram grandes”, conta. Pensou que, se se mudasse para junto da comunidade, poderia “crescer com eles” e que “trabalhar lá ia ser fantástico”. “Tinha curiosidade porque sempre que perguntava como viviam ou como funcionava a vida lá ou como eram as casas, diziam: ‘Vais lá e depois vês’. Decidi ir, achei que não perdia nada. Só que quando cheguei… não gostei. Tudo me incomodava”, lembra.

Como foi visitar o ashram à experiência, viajou com bilhete de regresso. Antes de decidir se queria ou não mudar-se para lá, deveria passar apenas duas semanas nos arredores de Budapeste. Mesmo assim, diz, acabou por ser tempo demais.

"As mulheres não podem ir às compras, têm de fazer uma lista e entregar na casa dos homens e, quando eles têm tempo e conforme decidem, vão buscar a comida"
Ângela (nome fictício)

Duas semanas a comer apenas batatas e cebola

Ao chegar ao ashram da Hungria (que ficava ainda relativamente longe da capital), Ângela viu duas casas — uma para as mulheres e outra para os homens — completamente diferentes. “A casa dos homens tem todos os luxos, com ótima comida. Mas a das mulheres não, provavelmente para as manter controladas”, diz.

A primeira coisa em que reparou foi nos quartos, que diz serem “mais pequenos” que a sua autocaravana. Em cada quarto “cabe uma cama de casal, que na verdade é só um colchão, e todas dormem  duas a duas”: “Há um roupeiro pequeno e duas mesas de cabeceira, onde está sempre a imagem daquele homem assustador”. Ângela refere-se a Gregorian Bivolaru, o guru e criador do MISA, em prisão preventiva desde 2023 em França .

“De X em X tempo, sem saberem quando, de dia ou de noite, as mulheres recebem a informação de que têm de mudar de quarto, pegar nas coisas e trocar de companheira de cama. Elas acham que é para o bem estar delas, para desativar o ego e ter uma elevação [espiritual]”, explica Ângela, que acrescenta que aos seus olhos não é isso que está a acontecer ali. Na verdade, explica, o objetivo da troca regular é impedir que se criem relações de amizade entre membros. “De cada vez que há uma ligação mais forte entre as mulheres, ela é quebrada”.

Simplesmente “pegam na roupa que têm (que é pouca) e vão para outro quarto diferente dormir com outra mulher”, conta. “Era horrível não termos um canto nosso, onde podíamos descansar a mente e ter as nossas coisas”.

Para entrar nesta casa, recorda, a entrada faz-se pela cozinha, “que é uma espécie de varanda que foi fechada no rés-do-chão” com recurso a plásticos. Quando Ângela visitou este local, era inverno e estava a nevar em Budapeste. “Estava gelado lá dentro. As mulheres cozinhavam de casaco para a neve. Perguntei se estavam a renovar a cozinha e disseram que sim, que eram obras. Perguntei porquê no inverno e mudaram de assunto. Insisti no tema e disseram que já estava assim há anos.”

Nesse mesmo dia, Ângela ficou também a saber que a realidade que se vivia na casa dos homens era  completamente oposta. No que toca às refeições, por exemplo, as deles eram muito mais completas e nutritivas. Isto apesar de uma das frases mais repetidas no ashram ser “o nosso corpo é o nosso templo e temos de o cuidar”. “Durante 15 dias comi apenas batatas com cebola, porque era o que havia. Nos primeiros dias havia cenouras, mas eram duas cenouras para 20 pessoas… Também não tinham azeite, porque é muito caro. Inventavam pratos diferentes com estes alimentos, mas não tinham fruta nem frescos, e por isso tinham barrigas super inchadas”, conta.

Ângela diz que tentou perceber porque é que a alimentação era tão escassa. E também porque é que tinham de lavar a loiça com champô, em vez de detergente, e com uma “meia velha”, em vez de um esfregão. “Disseram-me que não eram elas que escolhiam. As mulheres não podem ir às compras, têm de fazer uma lista e entregar na casa dos homens e, quando eles têm tempo e conforme decidem, vão buscar a comida.”

A mesma lógica era aplicada a outras questões práticas como, por exemplo, a troca de botijas de gás ou de lâmpadas fundidas, tarefas consideradas de homens e que só podiam ser feitas por eles: “A casa tem uma escada íngreme e estava tudo às escuras, não tinha luz e eu tinha medo de cair. Um dia perguntei porque é que a luz não funcionava e disseram-me que estava assim há mais de um ano, que estavam à espera que os homens viessem.”

“Mãe” Aghora vê e controla tudo: desde o cabelo ao sexo

Em pouco tempo, Ângela percebeu o quão dependentes dos homens eram as mulheres do ashram. E percebeu também que, na verdade, todos estavam apenas a cumprir indicações de Aghora Vidya, a argentina responsável pela comunidade e por toda a academia de arte tântrica ArtExtasia. Aghora Vidya, que no passado foi atriz pornográfica, é agora artista e realizadora. É considerada uma espécie de número 2 do movimento de Gregorian Bivolaru, contou Miranda Grace no Podcast Plus “Os Segredos da Seita do Yoga”.

No ashram de Budapeste, Aghora Vidya é tratada por “Mommy Aghori”. “Têm uma adoração enorme por ela, é como uma mãe”, começa por contar a portuguesa Ângela. A seguir, acrescenta: esta é uma mãe “rude” que provoca “medo” nas suas filhas.

Quem vivia no ashram estava com Aghora Vidya uma vez por semana, explica Ângela. “Ela senta-se num trono, uma cadeira dourada cheia de veludos, e os outros sentam-se à sua volta de joelhos. E depois são criticados um por um à frente uns dos outros. Homens e mulheres. Ela critica o cabelo, a roupa, coisas que não ficaram tão perfeitas na limpeza da casa ou coisas que não correram bem em ensaios para filmes… Ela inventa coisas, quase toda a gente é criticada e passam a semana com medo de errar.”

No entanto, se Aghora Vidya trata mal os membros da ArtExtasia, “depois oferece coisitas” para compensar, como malas ou roupas antigas. Quem recebe estas prendas “chama-lhes ‘grande tesouro’ e coloca-as num altar”, conta Ângela.

Ao longo dos 15 dias que Ângela passou na casa das mulheres,  Aghora Vidya nunca lá entrou. A única casa que a “mãe” frequentava era a dos homens, diz a portuguesa. Isso significa, acrescenta, que, para a argentina saber o que ali acontece, “alguém lhe passa informações” sobre conflitos, falhas ou outras coisas que, por algum motivo, não corram assim tão bem. Consequência: as mulheres que ali vivem estão em permanente controlo mútuo e há uma forte pressão de grupo para atingir a perfeição.

Além do controlo feito pelos pares, Ângela diz que a própria Aghora Vidya tinha sempre uma palavra a dizer, até sobre as situações mais simples do dia a dia. Incluindo as entradas e saídas do ashram. “Para sair da casa temos de ter autorização da Aghora. Falei com uma mulher portuguesa, que na altura tinha uns 34 anos e que estava lá no ashram há seis meses. Quando voltei de um passeio ela falou comigo, estava chocada. Perguntou-me: ‘Saíste?! Sem pedir?’. E depois disse-me que desde que tinha chegado ali ainda não tinha saído de casa”.

Ângela afirma que, durante as duas semanas em que esteve em Budapeste, não só não se deixou limitar pelas regras impostas, como, mais do que isso, aproveitou para questionar tudo aquilo que lhe parecia mais estranho. A atitude não terá sido bem vista pelos restantes moradores e terá até gerado algum desconforto, diz.

As mudanças de visual também eram controladas pela responsável da ArtExtasia. Os cabelos, por exemplo, não podiam ser cortados sem autorização. “Porque dizem que uma mulher sensual tem o cabelo comprido”, diz Ângela. “Não se pode mudar nada sem autorização da Aghora”.

O mesmo acontecia com as relações de intimidade ou sexuais. A lógica, explica a portuguesa, será a mesma: quem manda é Aghora Vidya. Quando alguém quer fazer amor (nunca sexo) com uma mulher, há regras a cumprir: “Primeiro o homem pergunta se ela está disponível. A mulher diz sempre que sim. E depois é preciso pedir autorização à Aghora”.

“Quando a Aghora diz que sim é preciso falar com a responsável pela casa das mulheres”, que controlava o funcionamento deste espaço e questões logísticas e de recursos, como por exemplo o consumo de papel higiénico. Esta responsável ficaria encarregue de “ver se um dos dois quartos destinados ao sexo estava disponível e depois marcam o dia e a hora”.

Na casa das mulheres, relata Ângela, existem dois quartos para este fim: um em tons de verde e outro em tons de branco. Na casa dos homens há apenas um e é mesmo ao lado do quarto onde Aghora Vidya costuma ficar, pelo que raramente é escolhido.

Antes das relações sexuais, as mulheres “têm de tomar banho, perfumar-se e fazer a depilação, não pode haver pelinhos e têm de seguir todo o ritual”. Depois, já juntos, homem e mulher “rezam uma oração” em que dedicam aquele ato a uma determinada intenção.

No final, continua Ângela, “as horas que estão ali a fazer sexo são as mesmas horas que a mulher tem de fazer a sublimação da energia”. Quer isto dizer que, se a sessão do casal se prolongar por quatro horas, a mulher terá de ficar no quarto sozinha a fazer a sublimação durante o mesmo tempo. Segundo Ângela, este processo é feito através da realização da posição Nauli Kriya, na qual a mulher está de pé, de pernas afastadas fletidas, com as mãos nos joelhos, e a ondular a barriga como se se tratasse da dança do ventre. “E só depois se pode deitar. Esta é a única justificação para uma mulher se atrasar para as tarefas em casa”, acrescenta.

"Para sair da casa temos de ter autorização da Aghora Vidya. Falei com uma mulher portuguesa, que na altura tinha uns 34 anos e que estava lá no ashram há seis meses. Desde que tinha chegado ali ainda não tinha saído de casa"
Ângela (nome fictício)

“Veneração total” a um guru que estava em todo o lado

Neste ashram a devoção a Aghora Vidya era nitidamente visível. A Gregorian Bivolaru também, diz Ângela. Quando a portuguesa chegou a Budapeste nunca tinha ouvido falar do guru fundador do MISA. “Nunca estive na Natha [a escola de yoga e tantra], nunca gostei do espaço e gostava da ArtExtasia por uma questão artística”, diz, para justificar a ignorância.

“Quando cheguei a Budapeste vejo fotos do mesmo velho em todo o sítio. Cada quarto tinha pelo menos duas imagens e nos corredores também. Eu achava-o feio. Perguntei quem era aquele homem e diziam-me que, quando fosse o momento certo, ia saber”, relata. Foi depois de ver o livro O Caminho Secreto Tântrico do Amor, escrito por Bivolaru, que percebeu finalmente quem era “aquele velho”.

“Tinha o computador comigo, fui procurar no Google o nome do livro e percebi que era aquele homem. E depois explicaram-me as ligações dele àquela casa: tinha sido perseguido e continuava a sê-lo porque encontrou a verdade e o mundo não estava preparado para lidar com isso.”

Ângela recorda que algumas mulheres, quando passavam pelas fotos de Bivolaru no corredor, as beijavam. “É uma veneração total”, diz, acrescentando que até havia “momentos de meditação em sua honra”, sendo que à época o guru ainda não tinha sido detido. “Gregorian Bivolaru era como o santo, o Deus ausente. A Aghora estava presente em seu lugar e tomava as decisões todas.”

https://observador.pt/especiais/sexo-poder-e-dinheiro-as-tentacoes-de-gregorian-bivolaru-o-guru-de-os-segredos-da-seita-do-yoga/

Se saísse do movimento, “para onde iria?”

A estadia de Ângela no ashram de Budapeste foi, no mínimo, atribulada, conta a portuguesa. Estava cada vez mais insatisfeita, principalmente por não conseguir obter respostas para as perguntas que fazia. Ao mesmo tempo, as outras mulheres achavam que ela tinha uma atitude que não se enquadrava ali.

O dia a dia das mulheres resumia-se a trabalho doméstico, prática de yoga e ensaios para os filmes eróticos de Aghora Vidya. Além disso, faziam massagens tântricas. “Ofereceram-me uma massagem tântrica”, conta. E foi assim que se cruzou com a primeira pessoa naqueles 15 dias que reconheceu estar num sítio onde não há liberdade. “Contou-me, em lágrimas, que estava ali no ashram há quase 20 anos e que não tinha mais nada: não tem família, não tem amigos nem dinheiro ou trabalho. Disse-me que não sabia fazer mais nada a não ser ser a estrela principal dos espetáculos da Aghora Vidya.”

“Se eu sair para onde vou? Nem sei sair daqui, nem tenho dinheiro para um bilhete. Para onde iria? Já aceitei a minha vida”, disse-lhe, acrescentando que tinha entrado na ArtExtasia numa fase má da vida. Ali, disse-lhe, tinha encontrado aceitação e sentia-se admirada.

Ângela diz que esta pessoa não lhe pediu ajuda para sair daquele lugar. Aconteceu o mesmo com uma das mulheres com quem falou (e com quem criou uma ligação mais forte). “Uma vez cheguei a casa tarde e jantei sozinha e uma das mulheres veio sentar-se a meu lado a fazer-me companhia. De repente, disse-me que tinha uma filha, na altura com uns 9 anos, que ficou entregue ao pai. Mostrou-me fotos da miúda enquanto chorava”, recorda.

A mulher contou a Ângela que só conseguia ver a filha de dois em dois anos, “quando a Aghora permitia”. “Disse-me que era um sacrifício que tinha de fazer, que a Aghora é que sabia. E eu perguntei-lhe porquê. E ela disse-me que é um sacrifício pelo bem estar da humanidade e que não podíamos ser egoístas.”

Na ótica destas mulheres, explica Ângela, tudo o que fazem ali “é para Deus”; acima de Bivolaru. “Antes de se fazer algo, seja o que for — como comer, cozinhar, fazer limpeza, decorar um espaço, fazer exercício ou tomar banho — param e dizem uma frase, algo do género: entregamos o fruto deste serviço a Deus pai. É uma lengalenga de duas ou três frases.”

Ângela conheceu uma mulher no ashram que tinha deixado a filha para trás. Só a via de dois em dois anos. "Disse-me que era um sacrifício que tinha de fazer, que a Aghora é que sabia. Que é um sacrifício pelo bem estar da humanidade"

Quando pensava em sair “diziam que era fraca espiritualmente”

Ao fim dos 15 dias inicialmente definidos, Ângela pegou nas malas e regressou a Lisboa. Estávamos em 2023 e a portuguesa ainda participou em encontros da ArtExtasia na capital portuguesa, mas foi uma questão de tempo até se afastar destes eventos, até porque foi percebendo que as pessoas deixaram de lhe falar depois de ela ter criticado o que viu em Budapeste. “Fico sem saber o que fazer… Nunca fui mal tratada enquanto lá estive, foi uma experiência rica, não estou traumatizada. Mas estive lá, falei com as pessoas e fico triste…”

Atualmente, os eventos da ArtExtasia (à semelhança dos da Natha) continuam a realizar-se. Neste fim de semana de 25 e 26 de abril, por exemplo, terá acontecido o Espetáculo Imersivo de Arte Esotérica Tântrica. A atividade era paga, com um “donativo consciente entre 10€ e 20€”, pode ler-se no site. O próximo retiro será no final do mês e terá a duração de três dias. Vai acontecer em Sintra, sob o tema “Retiro de Tantra & Arte Esotérica: Os Arquétipos da Alma”.

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Luísa e Rita participaram em retiros e espetáculos como estes quando frequentavam a ArtExtasia e a Natha. Rita conta que, a certa altura, decidiu fazer um curso de três meses na ArtExtasia porque gostava da ideia da arte ligada ao movimento. “Reuníamo-nos todas as quintas-feiras e as aulas tinham sempre vários temas interessantes. Mas, a certa altura, acendeu-se uma luz vermelha na minha cabeça: numa aula em que falámos da egrégora, disseram que íamos ter um momento com muito secretismo e que íamos receber uma iniciação muito secreta. Comecei a ficar nervosa porque eu gostava da ideia de liberdade e aquilo [o secretismo associado] era estranho. Mas eles desmontaram o meu receio e acabei por colocar a mão na Bíblia e fazer o juramento”, recorda.

Rita conta que, a partir desse momento, as coisas só pioraram: “Quando dizia que queria sair porque tinha outros compromissos, o Pedro [Vieira] dizia que eu era fraca espiritualmente e, por isso, nunca conseguia sair.” A portuguesa, que na altura estava a tirar o doutoramento na área da psicologia, lembra que, logo no primeiro ano, lhe foi pedido que enviasse fotografias, de seis em seis meses, em biquíni e em várias posições. “Quando perguntei porquê diziam-me que era para verem a minha evolução espiritual, que era assim que faziam a leitura do nosso corpo. Nunca disseram que eram enviadas para o guru, diziam que era para a equipa de professores da ArtExtasia”, afirma.

“No último ano senti que estavam a passar os limites”, admite Rita. Recorda o dia que mais a marcou: era o final de mais um ano de curso na ArtExtasia e, como habitualmente, fizeram um filme. No momento em que estavam a distribuir papéis, e apesar de saber que, dessa vez, o exercício seria mais difícil, Rita voluntariou-se. “Levantei a mão, consciente de que seria para tirar a roupa, que íamos acabar nus. Eu já tinha superado isso, era algo que já fazia bem. Mas ia ser filmada com uma câmara e até aí isso nunca tinha acontecido.”

Correu tudo bem. Conseguiu abstrair-se e fez a cena que lhe pediram. Mas, no dia seguinte, exigiram-lhe mais. “Disseram-me que afinal precisavam de mais cenas íntimas. E a Marina Costa [co-protagonista de Pedro Vieira no filme “Hope St No. 6” e a pessoa que estava a coordenar as gravações] olhou para mim.”

Juntas, Rita e Marina seguiram para a zona de Sintra, para serem “gravadas na zona genital”. “Captaram imagens das minhas partes íntimas. Diziam que tinham de gravar a minha yoni [termo sânscrito para vagina] e o peito. Pensei: ‘Meu Deus…’. Era a primeira vez que o fazia. Naquele momento foi difícil fazer aquilo, era uma grande barreira da minha intimidade”, conta.

No final, o filme foi exibido a todos os participantes do evento. E Rita respirou de alívio: apesar de “ser explícito, não se via a minha cara”.

“Pensava sempre que eu é que não estava pronta para aquele teste”

Luísa viveu algo semelhante. Quando frequentava as aulas de yoga e tantra da Natha, lembra-se de ouvir Pedro Vieira e Marina Costa a falar sobre o retiro da ArtExtasia. “Falaram-nos do retiro de arte e erotismo como sendo uma forma de ascendermos [espiritualmente]. Achei o máximo e fui. Não assinei papéis nenhuns [a consentir], mas filmaram-me despida, fizeram filmagens comigo semi-nua.”

Participou em retiros num hostel, “no meio da Serra de Sintra”. “É tudo feito num ambiente muito íntimo e a energia que transmitem é de segurança, de ascensão divina. É tudo muito natural. Passa-se uma imagem de que tudo o que tem que ver com sexualidade e erotismo, também pode ser espiritual e elevado”, explica Luísa.

O evento começou à noite e a primeira coisa que os participantes tinham de fazer era inscrever-se em duas das três artes disponíveis — fotografia, dança e pintura. “De manhã, metem-nos numa sala e começam a dar-nos roupa para vestirmos, que era essencialmente lingerie e coisas eróticas, como plumas.” Luísa recorda que um dos primeiros vídeos que gravaram consistia num homem “a fazer de shiva [uma das divindades máximas do hinduísmo]” enquanto um grupo de “dez mulheres semi-nuas” dançavam à volta dele. Lembra-se ainda que havia uma sala específica, que o seu namorado da altura “estava a guardar”, onde as câmaras estavam a filmar “casais a fazer sexo todos juntos”.

Nesse primeiro retiro em que participou, recorda, alguém lhe disse a certa altura para pôr um véu na cabeça. “Mandaram-me para o meio de plantações e mandaram-me fazer amor com uma árvore. Eu pus-me a dançar com a árvore e a pensar: ‘Estão a filmar-me’.”

Como aconteceu com Rita, Luísa também pôde ver as suas prestações para as câmaras: todos os vídeos produzidos naqueles dois dias foram exibidos no final do retiro. E, tal como Rita, Luísa também não ficou com esses registos: “Até hoje, não sei o que fizeram com essas coisas”.

Ainda nessa espécie de espetáculo de encerramento do retiro, foram apresentadas as fotografias que cada uma das participantes tinha tirado, totalmente nuas. “Quando vi as minhas fotos achei-as incríveis. Mas depois percebi tudo e tive um choque. Vi as originais e vi que tinham sido altamente manipuladas: tinham-me emagrecido, tinham posto mamas maiores, tinham-me dado uma imagem de mulher-deusa”.

No final, também não pôde guardar nenhuma fotografia. Disseram-lhe que um dos responsáveis iria ficar com todas as imagens, de todas as mulheres, numa pen, por segurança. Luísa não só não questionou a situação como, no ano seguinte, voltou a inscrever-se no retiro. Que, dessa vez, contava com a participação da argentina Aghora Vidya.

Uma vez mais, conta, a situação saiu do seu controlo: “A Aghora Vidya mandou-me dançar com outro homem qualquer nua, apesar de eu estar numa relação, e mandou-nos beijar, para a filmagem ficar mais íntima.”

Apesar do desconforto que sentia, diz que nem por um segundo lhe passou pela cabeça recusar ou questionar a ordem. Em vez disso, culpou-se a si mesma por ter aquelas dúvidas e hesitações: “Pensava sempre que eu é que não estava pronta para aquele teste.” Como explicou o especialista António Madaleno no podcast “Os Segredos da Seita do Yoga”, este é mais um traço clássico das seitas: “Quando falha ou quando tem dúvidas, quando tem questões ou quando começa a questionar, é ensinado dentro do grupo que o problema nunca é do líder, nunca é do grupo, é sempre da pessoa. A pessoa é fraca, a pessoa é que não tem o nível de espiritualidade ou de iluminação ou de evolução que deveria ter. Portanto, as pessoas são levadas a crer que o problema está sempre nelas. Nunca no líder, nunca no grupo”.

"Sinto quase uma vergonha e medo de dizer que acredito no podcast; quase como uma traidora. Mesmo o que fiz na ArtExtasia, acho que fui levada a fazer aquilo. Mas será que fui mesmo manipulada? É muito difícil"
Luísa (nome fictício)

Um professor terapeuta que pedia exercícios de strip

Antes de experimentar os retiros da ArtExtasia, Luísa teve aulas na Natha . Inscreveu-se em 2017: tinha saído recentemente de uma longa relação que lhe tinha deixado marcas profundas. Como sabia que um dos homens com maiores responsabilidades da escola (com quem antes até já tinha feito match na aplicação de encontros Tinder) dava sessões de terapia, decidiu pedir-lhe que se tornasse seu terapeuta.

Este professor era um dos mais antigos da escola. E, conclui agora Luísa, usava as redes sociais para atrair novos membros. À época, Luísa olhou para ele como alguém em quem podia confiar e através de quem podia evoluir. “Ele aceitou, mas havia regras. Não podia dizer a ninguém que ele era meu terapeuta e muito menos o que se passava nessas sessões. A justificação era que se tratava de um desafio para o meu ego, para me focar em mim e não na opinião dos outros.”

Na altura, Luísa achou que estas exigências faziam sentido. Na prática, percebe agora, isso fez com que se isolasse. Só falava com ele, sobre o que quer que fosse. Mais ninguém. “As sessões eram falar sobre o que tinha acontecido recentemente e focavam-se muito nos meus relacionamentos com homens. Hoje em dia vejo que ele usava o que ouvia para me tornar cada vez mais dependente dele”, começa por explicar Luísa. “As sessões eram muito íntimas. Depois da conversa havia desafios e mandava-me trabalhos para casa. Os desafios eram, por exemplo, fazer um strip à sua frente naquele momento. E eu fazia. Depois mandava-me treinar em casa para repetir na sessão seguinte”.

Houve um outro encontro em que o terapeuta lhe pediu que lhe fizesse “carícias e festas no corpo”. Comprometeu-se a “não responder” e explicou-lhe o objetivo do exercício: “Era um desafio para ganhar confiança e não esperar respostas dos outros.” Outros trabalhos práticos consistiam em manter relações com várias pessoas — e não sentir ciúme em relação a nenhuma delas.

“Há uma parte minha ainda presa a esta história”

Luísa garante que se apercebeu desde cedo de alguns sinais que a deixaram em alerta para a possibilidade de estar numa seita. O primeiro, diz, foi a fotografia de Gregorian Bivolaru em todas as salas. Mas houve mais: “O facto de incentivarem as mulheres a vestir-se como prostitutas nos filmes, com meias de rede e decotes grandes… Porquê? Depois os próprios manuais, com imagens pornográficas”. Refere também os segredos por tudo e por nada e muita informação que “não era clara”. Por fim, recorda o momento em que o agora seu marido lhe mostrou as notícias sobre a detenção de Bivolaru — o momento em que deixou de ter qualquer tipo de dúvidas.

Para Luísa, a relação que manteve com este professor e terapeuta era especial, “muito profunda”, diferente de qualquer outra. Por isso, mesmo depois de sair da escola, continuou a vê-lo com alguma admiração. Entretanto, e depois da publicação de “Os Segredos da Seita do Yoga”, esse sentimento também se esvaziou. “Sinto quase vergonha e medo de dizer que acredito no podcast; quase como se fosse uma traidora. Mesmo o que fiz na ArtExtasia, acho que fui levada a fazer aquilo. Mas será que fui mesmo manipulada? É muito difícil. O que aconteceu comigo é algo muito subtil.”

Até hoje, Luísa continua a guardar o manual da Natha e as fichas que recebeu nas aulas de yoga. “Tenho um poster com as posturas de yoga e tenho isto tudo na secretária, no meu escritório. Há uma parte minha presa a esta história e moralmente, e de forma racional, arrependo-me. A coisa de que mais me arrependo foi de ter dado a cara e incentivado outras pessoas a entrar na escola.”