Fui a um evento da comunidade algarvia Geek Sessions pela primeira vez quando estava na universidade, sem saber o que esperar. Falavam de tecnologias que nunca tinha experimentado, bebiam cerveja barata e trocavam risadas sobre problemas de trabalho. Saí do evento com uma possível proposta de trabalho. Com pouco currículo, apenas por falar com a pessoa certa.
Dez anos depois, sou líder de comunidades, e estou a preparar uma conferência com poucos recursos e mãos na massa. Ninguém nos paga. Na verdade, muitas vezes, sai-nos mais caro do que qualquer hobby.
A razão de trocar o meu tempo livre? Estar rodeada de pessoas que constroem futuros, criar (e ter) mais oportunidades, viver numa cidade melhor.
O ano passado ajudei a organizar mais de 12 eventos, dos quais 5 Startup Weekends (hackathons de fim de semana onde desconhecidos constroem ideias de negócio em equipa).
Numa conversa com uma amiga, comentamos como é difícil adquirir patrocínios e fundos para causas de impacto social e comunitário. As comunidades que gerimos são movimentos orgânicos, sem estrutura formal, sem associações. É difícil justificar a pessoas com orçamentos o valor de criar espaços onde nada se vende, onde não há KPIs, onde o “retorno” é intangível. Como explicas que o valor está precisamente em não ter agenda comercial?
Os community builders de comunidades informais são sempre os mesmos, sabem sempre onde podemos emprestar material, são mentores nos tempos livres, enaltecem instituições e empresas a custo de nada. Raramente têm reconhecimento pelo trabalho invisível que mantém uma região viva e que é sistematicamente desvalorizado por não gerar lucro direto.
É este trabalho que cria o tecido que permite inovação. A comunidade é essencial para combater a solidão, a falta de esperança e a dependência extrema de estruturas que nem sempre nos servem. Quando dependemos apenas de governos e grandes empresas para criar oportunidades, ficamos reféns das suas prioridades. Comunidades permitem-nos criar novos modelos.
Na tecnologia, isto é ainda mais evidente. A inovação é feita através de comunidade, o talento e expertise é melhorado nesse ecossistema de partilha. Basta pensar em tecnologias que nasceram open source, adotadas porque foram abraçadas e melhoradas pelas comunidades. Uma empresa cria o produto, mas é a comunidade que o valida e escala.
Qualquer voluntário já se perguntou se não seria mais sensato investir este tempo na carreira ou em projetos com retorno claro. Mas há que lembrar das pessoas que conseguiram emprego nos nossos eventos, das amizades formadas, dos projectos nascidos de conversas casuais. Da cidade que vai tendo mais vida.
Já vivi onde não há comunidade, apenas isolamento e falta de oportunidades. E acredito que pequenas ações persistentes mudam sistemas.
Mas também já vi comunidades que se tornam culto. Os valores deixam de ser melhorar a sociedade e passam a ser impor uma visão única do “líder”.
Há comunidades tech que se tornam exclusivas, onde quem não se enquadra no padrão é subtilmente excluído, criando elitismo dentro da própria inclusividade.
E temos as empresas, onde a comunidade é uma trend. Comunidades criadas apenas para vender produtos, disfarçadas de autenticidade, usadas como estratégia para converter participantes em clientes, sem intenção genuína para além do lucro.
O desafio está em reconhecer a diferença. Comunidades tóxicas criam echo chambers, exigem conformidade e exploram o desejo humano de pertença para fins que servem alguns, não todos. Comunidades saudáveis criam espaços seguros para falhar, e celebram a exploração de ideias.
A tecnologia molda o mundo, mas são comunidades que moldam a tecnologia. Se queremos tecnologia mais humana, ética e acessível, precisamos de comunidades que não só defendam esses valores, mas que ponham a mão na massa.
Segunda depois do jantar, tenho uma reunião fora de horas porque alguém tem que o fazer. E porque, no fundo, quero viver num mundo onde mais pessoas têm a sorte que eu tive: estar acidentalmente no sítio certo, com as pessoas certas, a construir algo melhor juntos.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.