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Gonçalo Peixoto lança coleção de sportswear com a Quad e prepara entrada no universo da beleza

No dia em que apresenta a coleção com a marca de padel Quad, o designer fala da fase com menos brilho e mais qualidade, e revela o desejo de ampliar o negócio para a indústria da beleza.

Sâmia Fiates
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É entre uma visita e outra às fábricas no norte do país que Gonçalo Peixoto fala com o Observador. Numa videochamada mesmo dentro do carro, porque cada minuto conta numa rotina que envolve muitas equações — e que há cerca de um ano e meio passou a contar com o planeamento de uma coleção de sportwear com a marca portuguesa Quad, especializada em itens e roupa de padel e pickeball. Esta quinta-feira, 30 de abril, o criador apresenta as novidades num desfile na Mitra — onde há três anos se realizava a ModaLisboa — e mostra também uma nova faceta fashion, com peças num tom mais sóbrio e que prezam pela qualidade e atemporalidade. A coleção fica disponível no site pelas 20h30, após o desfile.

Características que, assume, tem tentado implementar coleção a coleção na sua marca em nome próprio, substituindo aos poucos as lantejoulas e brilhos por tecidos de maior qualidade e modelagens mais estruturadas. “Temos feito um exercício com a equipa para tentar reduzir a percentagem de lantejoulas que temos em cada coleção”, diz o designer — um pedido das clientes, as quais ouve sempre com atenção para garantir que o negócio funciona. “As pessoas crescem e mudam vontades, hábitos, e deixam de ser umas coisas e passam a ser outras. E cada vez nos pedem coisas melhores, com um melhor fitting, e que não se importam de pagar mais, porque estão mais velhas e precisam de outras coisas”, diz o criador, que é sempre muito direto sobre o rumo que traçou para o seu negócio. “O sonho só se torna realidade quando as coisas são viáveis, por isso quisemos um sonho que tivesse o máximo de sell out possível”, admite, sobre esta nova coleção de sportwear.

Uma aposta na diversificação, que também faz parte da estratégia a longo prazo — do vestuário, Gonçalo Peixoto não esconde o desejo de explorar o universo da beleza, impulsionado pelo sucesso dos seus conteúdos no TikTok. “A marca Gonçalo Peixoto é a prioridade da minha vida, o meu “filho número um”, mas sinto que posso e devo ser as duas coisas”, confessa, sobre a vida de influencer, que lhe ocupa boa parte da semana. De acordo com o designer, o segredo é saber delegar e ter uma equipa em quem confia. Promete ampliar o espectro da marca em 2027, mas uma linha masculina não está nos planos: “Se um dia fizer sentido e me estimular criativamente, tudo certo, mas o meu foco e prioridade continua a ser a mulher.”

Como é que surgiu esta parceria com a Quad?
A marca queria muito entrar num novo setor na parte do vestuário, e o desafio veio, na verdade, do lado deles. Achavam que poderia ser interessante fazer esta sinergia entre um designer português e a marca. E tentámos, para esta parceria, fazer uma coleção que fosse um casamento perfeito entre o que são as duas marcas. E eu gosto de desafios e gosto sempre de coisas que são novas e que nos tiram um bocadinho da nossa zona de conforto.

Já conhecia a marca ou tinha alguma relação prévia com o mundo do padel?
Eu já fazia casualmente padel com amigos. Já conhecia a Quad porque é, efetivamente, uma marca muito forte nisto do que é o padel. Jogo com amigos num registo muito relaxado, mas quando a equipa entrou em contacto, achei que fazia todo o sentido testarmos uma coisa diferente.

Esta é a sua primeira incursão no mundo do sportswear ou já tinha trabalhado este tipo de peças anteriormente?
Isto é muito engraçado porque o início da minha marca é muito sport e streetwear; era o que realmente me apaixonava quando comecei há 11 ou 12 anos. Depois a marca tomou um rumo diferente, mas sempre fui apaixonado por isso e temos sempre alguns fatos de treino, t-shirts e hoodies disponíveis no nosso site. No entanto, esta parceria fez-me perceber que há todo um outro mundo que, por norma, não nos lembramos quando falamos de sportwear. Foi um exercício de voltar a aprender.

Desenhar roupa de alta performance exige cuidados diferentes. Quais foram as maiores dificuldades e que tipo de pesquisa teve de fazer?
Há todo um exercício de perceber como é que as roupas de desporto têm de funcionar e quais as necessidades. Há um lado tecnológico que não pensamos quando fazemos roupa para um casamento ou para o dia-a-dia; as peças têm de permitir mobilidade e movimentos, por isso houve um trabalho de casa redobrado. E a coleção não foca só no padel, tem várias vertentes: uma parte que tem mais yoga, uma parte mais assumidamente streetwear, que é uma roupa mais relaxada, para andarmos também por casa ou nas nossas atividades de fim de semana. Eu tentei fazer este exercício de “caderno e caneta” junto das pessoas: perguntei a amigas que faziam yoga, a desportistas, o que é que valorizavam, se o conforto, a estética ou detalhes práticos. Foi uma das minhas partes preferidas.

Houve algum pedido específico ou alguma curiosidade que tenha descoberto durante esse processo de pesquisa?
Surgiram coisas muito diferentes do que me pedem normalmente. Por exemplo, estávamos a desenhar saias e explicaram-me que têm de ter calções por baixo, porque a qualquer momento as jogadoras têm de se baixar para apanhar uma bola. Como eu não sou mulher, é um trabalho de pesquisa a dobrar. No caso dos homens, queixavam-se muito da transpiração, por isso criámos t-shirts com as costas furadas e bolsos com uma tecnologia que não magoa as pernas quando estamos sentados. Não é só chegar e desenhar; há todo um processo de alinhamento entre a equipa e os desportistas patrocinados pela Quad para escolher as malhas certas.

Quanto tempo demorou todo este processo, desde o desenho até à coleção final?
Esta coleção está a ser desenhada há muito tempo; não é uma coisa feita a correr. Estamos a trabalhar nisto há mais ou menos um ano e meio para que ficasse tudo perfeito e conforme queríamos. Houve muitos processos, muitas provas e muitos fittings.

Esta coleção é visualmente muito sóbria e em tons escuros, o que contrasta com o brilho habitual das suas coleções. Onde é que encontramos o ADN de Gonçalo Peixoto nestas peças?
Eu tento sempre que a marca Gonçalo Peixoto se preze pela qualidade, pelo corte e pelo bom fitting das peças. Quis que esta coleção fosse diferente, algo muito sóbrio e intemporal; que as pessoas comprassem hoje ou daqui a um ano e continuasse a ser bonito. Além disso, a Quad é uma marca comercial e precisa de vendas. O leque tem de ser abrangente para chegar a mais pessoas. Eu costumo dizer que o sonho só se torna realidade quando as coisas são viáveis, por isso quisemos um sonho que tivesse o máximo de sell out possível.

O facto de esta colaboração ser 100% produzida em Portugal foi um ponto importante?
Muito. Nada me deixa mais satisfeito do que uma parceria entre duas marcas portuguesas com produção em Portugal. É uma forma de mostrar que somos capazes e que as coisas são bem produzidas por alguém nosso. Isto é a verdadeira sustentabilidade: o que é feito por nós, com qualidade, bons materiais e uma produção qualificada, fugindo à produção em massa desmedida.

Nesta coleção para a Quad vemos também uma linha masculina. Como foi o processo de desenhar para o “homem Gonçalo Peixoto”?
Foi muito interessante, porque tive uma liberdade criativa extrema, pude ser feliz criativamente ao desenhar esta coleção. O homem Gonçalo Peixoto no sportswear é uma imagem verdadeira daquilo que eu faço e uso: no meu dia-a-dia ando sempre de calções, t-shirt e hoodie. Aproveitei para criar as soluções que eu próprio não encontrava, como calções com o fitting perfeito para o meu corpo. São peças intemporais, com cores que dão para combinar sempre.

Sendo a sua marca principal focada na mulher, tem planos para lançar uma linha masculina própria no futuro?
Não sei bem. Eu gostei muito da experiência e ficou aqui um “bichinho dentro da minha caixa”, mas a marca Gonçalo Peixoto é, neste momento, dirigida para honrar o sexo feminino. Tenho muitos homens que compram as nossas t-shirts, hoodies e até camisas, mas eu não penso nas peças como sendo unissexo; penso nelas para o desfile e para ajudar a contar a história. Se um dia fizer sentido e me estimular criativamente, tudo certo, mas o meu foco e prioridade continua a ser a mulher.

Mas existe uma tendência na indústria, até internacional, de criar peças unissexo e até apresentar coleções femininas em manequins com aspeto mais andrógino. É algo que também procura explorar?
Sim. É algo que peço no casting para a ModaLisboa e eu gosto muito de ter mulheres que não são tão femininas, que têm uma presença mais masculina ou um ar andrógino. E depois, apesar das roupas terem brilhos, gosto que as manequins vão com a pele muito crua, com um ar careless, despreocupado e cool. Há oito anos que faço ModaLisboa, nunca troquei a maquilhagem, é sempre a mesma há 16 coleções. Gosto dessa estética mais “tosca” e forte.

Justifica a aposta em cores mais sóbrias nesta coleção de sportwear com a intemporalidade. É algo que também tem tentado fazer na sua marca principal? Peças mais clássicas, sóbrias e intemporais?
Muito. Há uns anos as coleções eram ainda mais coloridas e brilhantes. Temos feito um exercício com a equipa para tentar reduzir a percentagem de lantejoulas que temos em cada coleção. É um trabalho que ninguém sabe, que fazemos nos bastidores. Há dois ou três anos a coleção foi marcante, mudámos efetivamente o que é a mulher Gonçalo Peixoto. E as transparências ainda existem, mas em vez de ser uma renda, é uma musseline, em que o tecido já é um bocadinho mais opaco, por exemplo. E nós tínhamos imensas clientes que nos pediam: ‘olha, crescemos com a marca. E por isso também queremos e procuramos outras coisas.’ E está tudo certo, não é? Ou seja, as pessoas crescem e mudam vontades, hábitos, e deixam de ser umas coisas e passam a ser outras. E cada vez nos pedem coisas melhores, com um melhor fitting, e que não se importam de pagar mais, porque estão mais velhas e precisam de outras coisas. E mesmo nesta coleção de inverno que vimos na última ModaLisboa, havia dois tecidos com brilho, o que era impossível para um inverno Gonçalo Peixoto há quatro anos. Não deixámos de ter uma coleção sexy, feminina e com transparências, mas arranjámos aqui outras formas, com materiais que são muito bons, que têm muita qualidade, como as sedas, musselines. Não quero erradicar o brilho, porque continua a ser aquilo que os clientes Gonçalo Peixoto procuram, mas estamos a levá-las para outro caminho. Não posso descurar as clientes que nos dão o ganha pão todos os dias, tenho que ir um bocadinho ao encontro do que elas querem no dia-a-dia se queremos que o negócio funcione.

Já fez colaborações com marcas no passado — esta diversificação é uma estratégia para ter um negócio mais abrangente?
Completamente. Eu acho que só assim é que faz sentido e é, efetivamente, uma estratégia minha para chegar a mais mercados e a mais públicos. Muitas vezes, estas pessoas que consomem estas parcerias não conhecem tão bem o meu trabalho principal, e isto ajuda-me a abrir o leque, a que mais pessoas me conheçam e ao que nós fazemos. Além do lado comercial, estas colaborações trazem-me muito a nível pessoal; eu aprendo coisas que não saberia se não as fizesse. Este exercício de pensar para quem estou a desenhar e porquê faz-me enriquecer enquanto pessoa e enquanto profissional.

Para além de designer, tem também uma página nas redes sociais bastante ativa. Como divide a rotina entre a marca de roupas e a vida como influencer?
Às vezes em Portugal somos muito quadrados e é como se só pudéssemos ser uma coisa. Mas podemos sim fazer coisas diferentes e que também nos emocionam. Há pessoas que são só designers, há pessoas que só trabalham no digital. E há as que fazem as duas coisas, como eu. Efetivamente divido as minhas semanas, e há dias em que trabalho mais para o digital. Como vivo no Porto e a fábrica é em Braga, passo muito tempo a conduzir e aproveito esses momentos para organizar o dia com a equipa. No que toca ao digital, tento aglomerar as gravações de campanhas: ou aproveito as tardes, ou quando vou a Lisboa tento despachar tudo de uma vez. Ou seja, o dia é muito organizado. Nós começamos o dia muito cedo, acabamos o dia muito tarde,e não é só naqueles dois ou três meses antes da ModaLisboa. É fazer novas coleções, uma linha mais comercial, fazer coisas novas, esta parte da influência, são duas profissões numa só pessoa… Mas costumo dizer que com amor e carinho tudo é possível.

Menciona que as pessoas tendem a colocar-se dentro de “quadrados”. Sente que essa faceta de influenciador digital ajuda ou dificulta a sua afirmação como designer de moda?
A marca Gonçalo Peixoto é a prioridade da minha vida, o meu “filho número um”, mas sinto que posso e devo ser as duas coisas. Gosto de fazer o que me faz feliz, e se amanhã for outra coisa qualquer, irei à busca disso. Mas também é verdade que as redes cresceram organicamente porque as pessoas se identificavam com o que eu dizia, e hoje um lado ajuda o outro. E este saber delegar faz parte também do crescimento de uma empresa. E então eu sei que posso estar fora do escritório durante a tarde ou durante duas horas a gravar um conteúdo, que as coisas estão a correr bem, que estão a ser feitas da maneira que eu pedi, quero e gosto.

Isto das redes sociais foi algo que planeou ou aconteceu?
Aconteceu. Eu acho que as minhas redes foram crescendo inevitavelmente, porque eu tinha uma carreira que era propícia a isso. Acho que as pessoas se identificavam com aquilo que eu falava e com os assuntos que eu trazia. Por exemplo, na minha página no TikTok, falo muito de skincare. É uma paixão minha. Eu estudo as composições, o que é a Vitamina C, porque é que um sérum faz bem ou mal à pele. Quando passo uma informação sobre uma marca, quero que seja real e verdadeira; não posso dizer que um sérum se usa depois do creme, porque isso não faz sentido. Já testei quase tudo o que há no mercado e sinto que consigo ter uma conversa técnica com qualquer pessoa sobre este assunto. Isso tira-me tempo, obriga-me a estudar e a perceber as fórmulas, mas é algo que me fascina. E é engraçado, porque essa vontade foi crescendo. Do tipo: ‘quem me dera fazer uma coisa na beauty‘. 

E é algo que podemos esperar para breve?
Sim, o campo da beauty é algo onde eu gostava muito de entrar e já estamos a trabalhar nisso. Tenho muitas ideias e estou numa fase de testar coisas novas. Não queremos ficar apenas pela roupa; queremos abrir o espectro da marca. Posso dizer que 2027 será um ano incrível para a evolução e construção da marca, onde vamos expandir para outras áreas. O meu objetivo é não ficar parado e continuar a trazer novidades que façam sentido para o meu percurso e para quem me acompanha.