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(A) :: Campeã europeia, retirada aos 26, casada com um técnico, exemplo num clube especial: Marie-Louise Eta, a primeira a treinar na Bundesliga

Campeã europeia, retirada aos 26, casada com um técnico, exemplo num clube especial: Marie-Louise Eta, a primeira a treinar na Bundesliga

Union Berlim tinha Marie-Louise Eta, de 34 anos, apontada à equipa feminina sénior em 2026/27. Agora, tudo mudou. E, perante a série de maus resultados na Bundesliga, vai assumir a equipa masculina.

Bruno Roseiro
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Foi anunciado como um regulamento “inovador”, uma chave para “remodelar o futuro do futebol feminino”, a ideia mestra para sustentar todo um caminho nas próximas décadas. No último mês, numa notícia que não mereceu muito mais do que notas de rodapé apesar de ser uma parangona com o carimbo FIFA, o órgão que tutela o futebol mundial apresentou uma série de obrigatoriedades a partir deste ano civil em relação à parte feminina: uma treinadora principal ou adjunta mulher em todas as equipas técnicas. Objetivo? Assegurar que o crescimento desta vertente era alicerçada numa maior representação feminina também na liderança.

https://observador.pt/2026/04/12/marie-louise-eta-assume-union-berlim-e-e-a-primeira-mulher-a-treinar-no-big-five/

“Não há mulheres suficientes no negócio do futebol atualmente. Precisamos de fazer mais para acelerar a mudança, criando caminhos mais claros, alargando as oportunidades e aumentando a visibilidade das mulheres no campo. As novas regulamentações da FIFA, em paralelo com os programas de desenvolvimento específicos desenvolvidos, representam um investimento importante tanto na geração atual como na futura de treinadoras”, destacou Jill Ellis, diretora de futebol da FIFA, num press release que puxava dos galões para apresentar, em números, os programas e as bolsas atribuídas para atingir esse objetivo numa era em que a representação feminina nos cargos técnicos e de direção estão a anos luz da evolução desta vertente.

Como em tudo, a notícia de rodapé alargou o seu perímetro de influência quando chegou à discussão pública, com dúvidas em torno do verdadeiro impacto que medidas de obrigatoriedade como estas poderiam depois ter em termos de perceção e de concretização com efeitos práticos a médio prazo. Para os defensores dessas medidas, a lógica era transversal – teria de começar-se por algum lado. Para os mais críticos, havia um risco real de criar figuras que mais não fossem um mero cumprir de vagas sem influência naquilo que era todo o trabalho diário. Agora, pelo meio, a “evolução” surgiu sem regras, sem obrigatoriedades e sem receios através de um clube e de um nome que vieram alterar um paradigma enraizado nas principais ligas.

https://twitter.com/fcunion/status/2043086791411142897

Apesar de nem sempre ter estado no principal escalão do futebol da Alemanha, longe disso, o Union Berlim é um dos clubes com mais história e tradição em território germânico. Num plano político, a equipa da capital, com origens operárias, foi sempre o maior bastião de oposição no período da RDA ao Dynamo Berlim, clube apoiado pela polícia secreta, com inúmeras manifestações nos jogos a favor da queda do Muro. Mais tarde, nos momentos de crise financeira mais profunda, os adeptos deram também exemplos que cruzaram depois o mundo – da campanha de doação de sangue para fazer reverter os fundos para o Union Berlim, na altura no quarto escalão e em risco de falência, à renovação do estádio através de voluntariado com 140 mil horas de trabalho na construção de novas bancadas, houve de tudo um pouco. Agora, o foco é outro.

https://twitter.com/fcunion/status/2043681046995030393

Depois de um arranque “tranquilo” de temporada, longe dos números que valeram o quarto lugar na liga de 2022/23 mas também sem receios de maior em relação à permanência no principal escalão, o Union Berlim entrou numa fase menos conseguida com apenas duas vitórias nos últimos 14 encontros e a derrota frente ao Heidenheim, lanterna-vermelha da competição com margem muito reduzida para evitar a descida de divisão, funcionou como gota de água dos responsáveis para o despedimento de Steffen Baumgart, técnico que tinha entrado a meio da época de 2024/25 para o lugar de Bo Svensson. Foi o técnico principal, foram também os adjuntos, Danilo de Souza e Kevin McKenna. Quem ficou? Marie-Louise Eta, treinadora dos Sub-19 que estava a ser preparada para assumir a equipa sénior feminina na próxima temporada. Sem que nada o fizesse prever, acabou por ser chamada para um “atalho” – e com isso tornar-se a primeira mulher a ser treinadora principal numa equipa das Big 5, numa altura em que a equipa está em 11.º ainda a tentar fugir à descida.

https://twitter.com/FabrizioRomano/status/2043207487185105398

“Os três técnicos têm o nosso agradecimento pelo trabalho que desenvolveram, ao qual devemos a manutenção tranquila na época transata e uma boa colheita de pontos na primeira metade desta temporada. Desejamos a todos o melhor, tanto a nível profissional como pessoal”, salientou Horst Heldt, diretor-geral para o futebol profissional do Union Berlim. “Estou muito satisfeita por o clube me ter confiado esta responsabilidade tão exigente. Uma das forças do Union sempre foi, e continua a ser, a capacidade de unir todas as nossas forças em situações como esta. Estou convencida de que, juntamente com a equipa, vamos garantir os pontos cruciais”, apontou a sucessora, na apresentação oficial como número 1 já depois de ter feito parte da equipa técnica de Nenad Bjelica em 2023/24 também no conjunto da capital.

https://twitter.com/VSportsTM/status/1724879944692703734

Nascida em Dresden, Marie-Louise Eta (Marie-Louise Bagehorn antes de assumir o apelido do marido) está há muito ligada ao futebol, tendo mesmo sido campeã europeia como jogadora em 2010 ao serviço das alemãs do Turbine Potsdam, um dos principais conjuntos femininos da altura que venceu na final da Liga dos Campeões as francesas do Lyon (Marie-Louise não saiu do banco nesse encontro). Médio de posição, passou ainda por clubes como o Hamburgo, o BV Cloppenburg e o Werder Bremen antes de anunciar a sua retirada com apenas 26 anos devido às constantes e arreliadoras lesões que foi contraindo. Foi tricampeã nacional, ganhou duas Taças da Alemanha, foi internacional em todas as camadas jovens da Mannschaft com participação no Europeu de Sub-19, deixou os relvados sem deixar o futebol. Agora, está a fazer história.

https://twitter.com/UEFA/status/1729960434243949010

Marie-Louise Eta teve a primeira experiência técnica ainda no Werder Bremen, fazendo parte de uma equipa técnica que orientava a formação Sub-15 do clube antes de ser também treinadora das Sub-15, Sub-17 e Sub-19 da Alemanha. Em 2023 rumou ao Union Berlim, tendo começado por estar na equipa técnica da equipa masculina de Sub-19 e subindo depois ao conjunto principal na altura da chegada de Nenad Bjelica, sendo a número 1 no banco quando o treinador esteve suspenso. Agora estava nas Sub-19 femininas, a trabalhar para assumir a equipa A na próxima temporada – algo que pode ou não acontecer mediante aquilo que aconteça até ao final da época na Bundesliga… masculina. “Tenho de dizer que, mesmo nas melhores partes dos meus 20 anos no clube, não creio que alguma vez tenha existido um apoio tão unânime à chegada de um novo técnico. Mesmo sendo interina, 99% das opiniões são positivas”, salientou o porta-voz Jacob Sweetman.

https://twitter.com/hands__of__god/status/2043593839382765690

Um dos grandes apoios da agora treinadora de 34 anos do Union Berlim, formada na escola de Potsdam de Bernd Schroeder, é também o marido, Benjamin Eta, que tem igualmente um trajeto como técnico passando por clubes como o TuS Schwachhausen, o Bremer SV (tendo ganho o prémio de Treinador do Ano de Bremen depois de conseguir subir de divisão), o SC Weiche Flensburg 08 ou o TB Berlim antes de assumir a formação secundária feminina do RB Leipzig. “Segredo? Poder transformar o teu passatempo e paixão na tua profissão é o melhor que pode haver”, referiu numa entrevista onde se ficou a saber que, quando não estão a trabalhar ou a discutir táticas, não falta mais desporto nos hobbies como o snowboard ou o padel.

https://twitter.com/fcunion_es/status/2043272223973118000

Fazendo uma retrospetiva da história das mulheres no comando de equipas masculinas, o primeiro caso já tem mais de 25 anos, quando Carolina Morace assumiu o comando do Viterbese, do terceiro escalão de Itália, em 1999. Mais recentemente, Corinne Diacre esteve três temporadas até 2017 no Clermont Foot (clube com o qual a portuguesa Helena Costa chegou a ter contrato mas onde não se chegou a estrear), ao passo que Hannah Dingley foi técnica interina dos ingleses do Forest Green Rovers, em 2023. Sabrina Wittmann assumiu de forma interina o Ingolstadt em maio de 2024, ficou depois com contrato definitivo e ainda está no banco da formação do terceiro escalão do país. Agora, Marie-Louise Eta sobe mais um degrau na ascensão das mulheres como treinadores de equipas masculinas, sendo a primeira a fazê-lo no primeiro escalão.