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(A) :: "A ciência não é propriedade de um partido ou ideologia." Entrevista com Rui Costa, líder do maior centro de neurociência do mundo

"A ciência não é propriedade de um partido ou ideologia." Entrevista com Rui Costa, líder do maior centro de neurociência do mundo

Rui Costa é o presidente e CEO do Allen Institute desde 2021 e, entre ameaças de cortes de financiamento e um ceticismo crescente na sociedade, defende que a transparência total é a resposta.

Martim Andrade
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Rui Oliveira
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O Allen Institute é um dos maiores centros de investigação em neurociência do mundo. Está sediado em Seattle, no estado norte-americano de Washington e foi ali que, nos últimos anos, uma equipa de cientistas se dedicou a criar um mapa inédito de todos os tipos de células que existem no cérebro do mamífero — e são mais de 5 mil.

O projeto foi pensado a 10 anos, mas vai ficar concluído bem antes de o prazo chegar ao fim. Por isso, já foi criado um novo projeto: o Brain Health Accelerator. A ideia é comparar o “mapa” de um cérebro saudável com o de um cérebro em que são diagnosticadas doenças neurodegenerativas e perceber de que modo um e o outro evoluem ao longo da vida. E, dessa forma, determinar a “vulnerabilidade e a resiliência a todas as doenças neurodegenerativas”.

O Allen Institute foi fundado em 2003, por Paul Allen — o homem que criou a Microsoft ao lado de Bill Gates —, mas 20 anos mais tarde, o presidente e CEO deste instituto já não é o norte-americano. É um português, Rui Costa.

Foi convidado pela irmã do fundador um par de anos após a morte de Paul. Jody Allen e a restante direção terão optado por um virar da página e uma mudança de metodologia para aumentar as operações e os resultados nas décadas seguintes — e a missão foi entregue ao investigador português. Desde então, o Allen Institute tem sido gerido de uma forma diferente da estratégia seguida nas duas décadas anteriores.

O grande princípio que norteia a liderança de Rui Costa é o da “open science“: todas as conclusões que saiam de um dos quatro centros do Allen Institute são abertas à comunidade, sem qualquer entrave. “Tudo o que fazemos é transparente”, reforça, em entrevista ao Observador na Casa do Médico, no Porto, à margem da conferência “Aquém e Além do Cérebro” da Fundação Bial.

No Allen Institute, olha-se para o cérebro, para as células, para a imunologia e ainda para as dinâmicas dos neurónios. São quatro centros num só que juntam centenas de investigadores internacionais e que partilham o objetivo de fazer avançar a neurociência e de arranjar respostas para questões que ainda nem sequer existem sobre o órgão mais complexo do corpo humano.

Numa altura em que o financiamento em investigação científica nos Estados Unidos da América atravessa um “momento difícil” — e que o ceticismo continua a aumentar —, Rui Costa defende a transparência máxima, tanto com os decisores políticos, como com a comunidade científica. Porque, acredita, se a população vir resultados claros, os cientistas deixarão de ser vistos como “intelectuais distantes” e os governos não terão alternativa senão repor os investimentos.

Em Portugal, defende ainda, a chave para o crescimento pode mesmo estar na máxima de open science.

“Como é uma instituição sem fins lucrativos, não compreendo porque é que não pode ser totalmente aberta, porque é esse o objetivo”

É o presidente e CEO do Allen Institute desde 2021. O que é que acha que a família Allen viu em si para escolhê-lo para este cargo?
Foi um processo normal de procura e entrevista, e houve um grande alinhamento com o conselho de administração e com a Jody Allen, porque o Paul Allen tinha falecido e era preciso arrancar com uma nova fase do instituto, já sem o fundador. Era preciso estabelecer a missão de forma coerente, uma visão para os próximos 10, 20 anos, e havia alguns desafios que eu já sabia que iria encontrar: tecnologia e inteligência artificial.

E também, neste mundo da ciência aberta — open science — em que é tudo aberto a toda a gente. Publicamos tudo, não só os dados, mas também os algoritmos. As pessoas podem ter artigos científicos, ter descobertas diretamente usando os nossos dados e, nesse sentido, era preciso ter uma filosofia coerente. Fazemos projetos que olham a 10 anos, era preciso haver também uma filosofia coerente aí e haver mais abertura, fazer mais coisas em parceria. Acho que esses foram os aspetos que levaram à minha escolha.

Essa ideia de open science é o que marca a diferença entre os cinco anos do seu mandato e os outros 20 anos de instituto?
Sim. Eu sou mais especialista em mudar coisas, em fazer coisas do início. Estive na Champalimaud como um dos diretores originais, depois estive na Gulbenkian, também no instituto Mortimer B. Zuckerman, sempre com esta ideia. A minha especialidade é criar novos desafios e horizontes. Tenho a minha própria investigação, mas, a partir do momento que comecei a ocupar posições de liderança, também me dediquei a estudar o que funciona e o que não funciona, quais seriam os melhores sítios para fazer ciência.

E o Allen Institute não é só um centro de investigação, tem os diferentes polos dedicados ao cérebro, à imunologia… Esta variedade de temas dificulta ou exige uma gestão diferente para garantir que todos os centros são priorizados da mesma maneira?
Foi exatamente esse o grande desafio. O Allen Institute é feito daqueles projetos a 10 anos que podem ser neurociência, imunologia, ciência bioquímica, coisas celulares. Geralmente, os grandes desafios da humanidade, as grandes questões que não podem ser feitas só num laboratório. Por exemplo, mapear todos os tipos celulares no cérebro e a conectividade com o nosso sistema imune circulante.

O que aconteceu foi que esses projetos estavam a acontecer, mas, quando o Paul Allen estava vivo, começaram em sítios diferentes, não havia o Allen Institute — havia o instituto de imunologia, o do cérebro, etc. Tinha tudo crescido organicamente, mas não havia um ecossistema onde isso tudo funcionasse e onde se pudessem ver as sinergias. Houve um grande trabalho em, por um lado, continuar a manter essas grandes expedições a funcionar— nós agora chamamos‑lhes accelerators — e, por outro, criar sinergias comuns e definir como se faz a transição.

Por exemplo, quando há um grande projeto do cérebro a 10 anos que acaba, começa logo outro. É preciso trazer novas pessoas, algumas saem; é preciso ver como é que isso tudo funciona no ecossistema, em que se juntam ideias de biologia sintética no DNA, proteínas. Como é que, ao mesmo tempo, se fazem esses grandes projetos para a humanidade e se criam plataformas comuns, seminários — agora há um seminário comum semanal para todos — e se cria essa união. E, depois, criar parcerias com outras fundações, como a Chan Zuckerberg Initiative, a Simons Foundation, etc., para fazer coisas maiores, porque isto são perguntas da humanidade.

É mesmo levar o conceito da open science até ao fim…
Exato. A ideia é ter um impacto brutal e mudar um campo. Que todos os laboratórios possam usar isso. As perguntas nem são muito criativas, são como moonshots: o que é que se devia saber sobre isto e que não se sabe? Eu até comecei a organizar isto de uma forma mais sistemática. Organizamos workshops, chamamos‑lhes en charrettes — vem do francês. São reuniões de discussão com a comunidade para definir quais são os novos projetos e objetivos. Agora temos sete ou oito e, cada ano ou dois, começamos um novo.

"Assim que se colecionam dados, eles ficam logo públicos. Mas faz sentido guardar os dados quando não temos uma solução para o Alzheimer?"
Rui Costa, presidente do Allen Institute

Que tipo de benefícios diretos é que têm chegado ao instituto por causa desta metodologia? Tem alguma ideia porque é que não é uma prática mais corrente noutros centros de investigação pelo mundo?
É interessante. Mesmo assim, conseguimos manter algum IP [propriedade intelectual], se for interessante para empresas desenvolverem depois, mas este Open Science, num certo sentido, mesmo sendo dinheiro filantrópico, é dinheiro dos cidadãos, que pagam impostos. Mas, ainda assim, assume-se que estamos a fazer algo bom para a sociedade, e isso traz uma grande responsabilidade. Espera‑se retorno do investimento, mas um retorno mais direto. É como se a NASA dissesse: “Vamos à Lua.”. É claro que as pessoas vão perguntar: “O que é que encontraram?”

Quando fazemos um grande projeto em Alzheimer, a comunidade não tem de esperar para saber. No nosso projeto de Alzheimer, assim que se colecionam dados, eles ficam logo públicos. Houve dois artigos publicados antes do nosso próprio paper com aqueles dados. Mas faz sentido guardar os dados quando não temos uma solução para o Alzheimer? Neste momento, um terço do mundo, cerca de 1,4 mil milhões de pessoas têm doenças do sistema nervoso. É preciso acelerar, e essa transmissão do conhecimento acelera. Isto tem impactos brutais na criação de valor na economia. Medimos o impacto pelo número de papers que saem: de um paper nosso saem 50 a 100 outros.

Num certo sentido, estamos também a acelerar a chegada a terapias, porque as farmacêuticas também são livres de os usar para investigação. O valor para a sociedade é muito mais alto do que quando fazemos o licenciamento de um IP nosso. Só mantemos IP por duas razões principais: para impedir que alguém alguma vez agarre nos nossos dados e os ponha numa plataforma fechada, e para dar valor às empresas que queiram desenvolver isso. Podemos até escolher a que empresas fazemos o licenciamento, não porque dão mais dinheiro, mas pedindo: “Faz o teu discurso de como vais aplicar isto”. Podemos escolher: “Estes parecem sérios, estes não.” O valor é incalculável e, como é uma instituição sem fins lucrativos, não compreendo porque é que não pode ser totalmente aberta, porque esse é o objetivo da instituição.

“Qualquer departamento de neurociências onde tenha ido no mundo usa os nossos dados”

O Allen Institute é também responsável pelo maior mapeamento alguma vez feito pelo cérebro. Será o trabalho pelo qual o instituto é mais conhecido?
É. De todos esses moonshots, esses accelerators, este é o mais conhecido, porque, para além de ter começado logo no início do instituto, o impacto foi brutal. Uma fase inicial era mapear os RNAs in situ. Uma fase secundária era, do ponto de vista transcriptómico, definir todos os tipos de células no cérebro do mamífero, que são mais ou menos 5.200 tipos. O organismo todo do mamífero tem para aí 6.500, portanto, a maioria está no cérebro. E ainda nem estamos a falar do resto do corpo, que também tem muitos neurónios, o que significa que tem de haver uma grande especialidade celular.

E o que é que isto permite saber? Para já, permite-nos perceber melhor o cérebro, mas depois, mesmo a nível terapêutico, se uma pessoa entra num hospital com cancro, vão ver: “Tens aqui o problema com estes tipos de células, este tipo de recetores”. No cérebro, muitas vezes mal conseguimos identificar se está em causa uma substância como a dopamina ou a serotonina, ou sequer se envolve a região frontal. É como nos tempos em que se dizia: “Tens um tumor, acho que é no sistema digestivo.”

"Queremos estudar a vulnerabilidade e a resiliência em todas as doenças neurodegenerativas. Vamos mapear o cérebro saudável, ao longo da vida, mas também em todas as doenças neurodegenerativas. E ver, como se fez no cancro, que células morrem primeiro, que são mais vulneráveis, quais são mais resistentes"

Tem havido um impacto brutal disso e da tecnologia que se desenvolve. Qualquer departamento de neurociências onde eu tenha ido no mundo usa os dados [do mapeamento do Allen Institute]. Medimos e temos milhões de pessoas a usar todos os anos, e quase 1 milhão de utilizadores repetidos. Há pessoas a fazer doutoramento sem nunca ter acesso a um sequenciador, a um microscópio, sem ter um laboratório, porque os dados são tantos que não precisam. Nós temos, desde o início, colecionado à volta de 350 petabytes de dados em biologia. [Para referência, 1 petabyte é o equivalente a um milhão de gigabytes]

Quando é que começaram esta segunda parte do mapeamento dos diferentes tipos celulares?
O novo mapeamento começou há seis anos. Houve uma fase inicial de 15 anos — o instituto tem 23 anos — que foram os mapeamentos da parte celular e do transcriptoma in situ [conjunto completo de RNA]. Agora, esta parte da conectividade e dos tipos celulares começou há seis ou sete anos, e era para ser um projeto de 10 anos, mas, como fizeram tão rápido, vão já, em 2027, propor um novo projeto.

Um novo projeto?
Agora vamos lançar um que nasceu deste, que vai começar em junho, que chamamos Brain Health Accelerator. Sabendo todos os tipos celulares, agora pode ver-se qual é a vulnerabilidade e a resiliência em todas as doenças neurodegenerativas. Vamos mapear o cérebro saudável, o nosso cérebro normal ao longo da vida, à medida que envelhece, mas também em todas as doenças neurodegenerativas, e ver, como se fez no cancro, que células morrem primeiro, que são mais vulneráveis, quais são as mais resistentes. Há marcadores, estas são as mais relevantes.

O outro novo projeto, mais fundamental, provavelmente vai ser acerca de todo o ciclo de vida do cérebro, desde a fase embrionária até ao fim da vida. Agora caracterizámos o equivalente a um adulto jovem, mas queremos perceber todas as mudanças ao longo do tempo. E, provavelmente, fazer um conectoma completo de um cérebro de mamífero será o último passo, com muito trabalho de computação.

“Não podemos fazer da ciência uma coisa de um partido”

Está agora no Allen Institute, mas antes de aqui chegar, liderou outros centros de investigação, também em Portugal. Quão diferente é a realidade americana da portuguesa? Que tipo de passos devemos tomar para nos aproximarmos dos líderes mundiais?
A dimensão do financiamento americano é muito, muito maior. Quando as pessoas falam do corte de financiamento nos Estados Unidos, o corte é maior do que o orçamento todo que temos cá na Europa, durante muitos anos. Mas quando vim para cá [Seattle], já vinha de uma situação privilegiada.

"Os projetos são feitos por pessoas. Se as pessoas têm um bom doutoramento, mas depois não há financiamento porque o novo governo muda, vão fazer outra coisa."

Quando cheguei à direção da Champalimaud, em 2014, vim para fazer uma coisa diferente e pensar de forma diferente, de uma forma que não era fácil pensar nos Estados Unidos. Ainda hoje, muitas das lições do que fizemos no Instituto Zuckerman e do que estou a fazer no Allen Institute foram incubadas naquele ambiente dos primeiros tempos da Fundação Champalimaud. A nível de escala, temos uma grande desvantagem, mas podemos ter a vantagem, não havendo essa escala, de experimentar novos sistemas de fazer ciência. Vimos o que aconteceu na Champalimaud, que é um sistema muito experimental entre a clínica e a investigação.

Está tudo no mesmo ambiente, e não é forçado: pode acontecer, pode não acontecer. E vejo este tipo de dinâmicas noutros ambientes também, na Gulbenkian, no i3S, no Porto e no ICVS, em Braga, por exemplo. É interessante porque tive a experiência de poder experimentar a forma como as instituições estão organizadas.

E há o facto de, sendo um país com as fronteiras mais antigas da Europa, sermos também um país relativamente novo por causa da Revolução e da Constituição. Entrando “tarde”, permite‑nos pensar de forma nova. A nossa Constituição é mais moderna do que a de muitos, e acredito que a nossa “constituição da ciência” pode ser mais moderna e que, apesar de virmos mais tarde e de não termos escala, podemos ter essa vantagem. É importante haver investimento continuado e escala, mas há coisas em que, por exemplo, vejo uma vantagem em Portugal em relação aos Estados Unidos — e o facto de estarmos aqui a falar exemplifica isso.

Sente que houve um crescimento no interesse e na discussão de Ciência em Portugal?
Quase todos os jornais têm alguém dedicado à Ciência, também na televisão. Fala‑se de Ciência de forma mais aberta em Portugal, e há proximidade: as pessoas querem saber o que aconteceu, o que não aconteceu, se está a ser bem utilizado ou não. Nos Estados Unidos, embora haja muito impacto da ciência, houve um distanciamento muito grande entre os cientistas e as pessoas.

"É óbvio que o discurso dos políticos mudou muito da administração Biden para esta administração Trump."

Agora há esta desconfiança da ciência, em parte por culpa de os cientistas e a academia serem vistos como muito intelectuais, muito longe das pessoas, sem esse esforço para conversar e ser desafiados: “Porque é que estão a fazer isto? Porque é que não estão?” É preciso ter tudo muito mais transparente. Portanto, há vantagens. Se tivéssemos escala e, principalmente, investimento continuado — porque o investimento continuado é que conta — não seriam só projetos. Os projetos são feitos por pessoas. Se as pessoas têm um bom doutoramento, mas depois não há financiamento porque o novo governo muda, vão fazer outra coisa.

Depois dizem: “Agora há financiamento, vamos fazer projetos.” Entretanto, já estão noutra área e perderam-se essas cabeças.

O ceticismo científico tem vindo a aumentar, em particular nos EUA. Começou o mandato na presidência de Joe Biden. Nota alguma diferença, agora com a presidência de Donald Trump?
É óbvio que o discurso dos políticos mudou muito da administração Biden para esta administração Trump.

No entanto, eu trato isso como um sintoma. Quando olhamos para os censos de opinião pública, essa desconfiança já vinha a crescer. Veio, se calhar, na altura da Covid-19, ou mesmo antes, mas a pandemia e a forma como foi gerida nos Estados Unidos polarizou muito o país.

Há várias estratégias. Temos adotado uma estratégia, muito assumida por mim, com duas frentes: uma é fazer e mostrar o que se faz, em vez de discutir e tentar minimizar as pessoas ou convencer sem fazer, fazemos e depois deixamos que vejam. É diferente mostrar fazendo. Mesmo a nível político, deixa de ser uma discussão de palavras, é algo concreto.

A outra parte, que é difícil, é sair da zona de conforto e falar com as pessoas mais céticas ou mais conservadoras. Há pessoas na administração, ou no gabinete do Secretário da Saúde, que tornam isto mais difícil. Difícil porque não é um discurso coerente. Mas há muitas pessoas dentro desses níveis, aqueles que têm podcasts muito conservadores, como o Joe Rogan, que aceitam ir para uma discussão com cientistas, e acho que não podemos fazer da ciência uma coisa de um partido. O Partido Republicano sempre apoiou a ciência e, em média, tanto ou às vezes mais do que o Partido Democrata, do ponto de vista de orçamentos. Há um perigo em dizer: “Estes apoiam, estes não.”

Na realidade, há ceticismo numa parte da sociedade, há apoio noutra, e o orçamento para a ciência é um bem maior. Temos de explicar e sair da nossa zona de conforto, e, voltando ao open science, se de repente digo: “Tudo o que fazemos é transparente, até quanto custa. Todos os dados estão disponíveis”, e começamos a fazer certificados de reprodutibilidade, em que qualquer pessoa pode ir e reproduzir a figura que está nos artigos a partir dos dados originais e ver todos os passos que foram feitos, temos transparência máxima. A qualquer altura se pode ir ao início, ver toda a análise, refazer, criticar; está tudo transparente.

Não há nada para esconder: nem quanto custou, nem quem fez, nem os passos todos. Não quer dizer que nunca haja dados maltratados, mas temos esses casos identificados, muitos cientistas estão envolvidos, por isso é muito raro termos dados manipulados. O que pode acontecer é, no futuro, surgirem formas mais sofisticadas de tratar os dados. Mesmo que haja problemas, a ideia não é falar de uma posição de autoridade — “isto é assim porque eu sou cientista e esta é a minha área” — mas dizer: “Os dados que recolhemos estão aqui; parecem indicar isto”. Na realidade, são os dados que falam, não sou eu.

Então defende que é preciso fazer uma Ciência em proximidade com a comunidade?
Neste momento, o que os dados mostram é isto. E acho isso extremamente importante, porque as pessoas querem saber — mesmo quem adora ciência, não é por serem céticos —; toda a gente, quando vê uma notícia sobre um estudo, pensa: “Como é que isto foi feito? Gostava de saber de onde tiraram os dados, porque chegaram a estas conclusões, quem apoiou o estudo. Será que já vinha com uma agenda para apoiar qualquer coisa?”

Até digo às minhas filhas: “Qual é a fonte? Qual é a origem do sítio onde foste buscar a informação? Quem financiou o estudo?” Isto não significa que haja sempre algo errado, mas se todos os estudos que dizem que certa substância faz bem, no caso do cancro, forem financiados pelas empresas que produzem essa substância, é possível que exista um viés. Aí entram as instituições independentes, que podem dizer: “Se calhar tem de haver outro estudo.” Acho que hoje tem de ser muito por aí.

"As pessoas vão ao médico e dizem: 'Eu vi isto na televisão, vi estes anúncios todos, quero este medicamento.' Não é assim que se constrói confiança."

E nos EUA existe muito esse viés ou um marketing farmacêutico, por exemplo?
Nos Estados Unidos, os anúncios nos intervalos de televisão, até no Super Bowl, antes eram sobretudo de comida. Agora, se a comida é saudável, ainda se promove um pouco isso, mas o grosso da publicidade é de fármacos: “Se sente isto e aquilo, fale com o seu médico”. É uma coisa quase incompreensível, mas existe.

De repente, está-se sempre a dizer: “Se sente este sintoma, peça ao seu médico tal medicamento”, ao mesmo tempo que há avanços fantásticos, mas sem grandes avisos sobre riscos.

As pessoas vão ao médico e dizem: “Eu vi isto na televisão, vi estes anúncios todos, quero este medicamento.” Não é assim que se constrói confiança. É preciso garantir que aquele é mesmo o medicamento que vai ajudar. Devem existir maneiras, sem ser por anúncios, para a informação chegar às pessoas. Quando transformamos isto numa campanha de marketing, pelo menos ficamos com dúvidas.

A Ciência não pode ser assim: ou uma coisa cura aquele cancro ou não cura. Não pode ser: “Vamos vender.” Isso não é ético. E depois perguntam-se por que é que não há transparência e confiança…

Esse tipo de abordagem só alimenta o ceticismo…
Eu próprio, às vezes, recebo pedidos de comentário sobre comunicados de imprensa ou artigos escritos a partir de um paper em que eu participei, e quando chego a certas frases penso: “Isto já parece que há cura para o cancro.” O que o estudo diz é que passámos a pensar de forma diferente; isso pode, mais tarde, ajudar, mas não é “a cura”.

Por isso, acho importante estabelecer essa confiança e mostrar que a ciência não é propriedade de um partido ou de uma ideologia política. A ciência é uma atividade da humanidade, movida pela curiosidade sobre como as coisas funcionam e pelo desejo de melhorar o mundo.

Temos a sorte de viver numa altura em que a humanidade considera a ciência tão importante, que em muitos sítios se exige transparência e que os resultados pertençam à comunidade científica. Para mim isso é tão óbvio que é quase imoral fazer de outra maneira. É uma grande sorte estar numa posição em que me dizem: “Tu não tens de fazer sapatos, nem carros; podes fazer isto e confiamos em ti”.

A transparência pode ser a solução para os cortes de financiamento?
Quando houve esse discurso dos cortes no financiamento e cortes nos projetos, nos custos indiretos dos projetos, houve um momento muito importante para mim, que foi quando eu disse: “Embora discorde [dos cortes], vamos só mostrar o que andamos a fazer”. Primeiro, reduzimos os custos administrativos para 17%. Mas, por outro lado, mostrámos tudo, de forma transparente, ao Governo, todas as coisas que fazíamos. E, passada uma semana, disseram: “Sim, senhor, continuamos com o financiamento.” A ideia é que a transparência funciona.

"Portugal, como é relativamente pequeno, podia ter um mandato para que fosse tudo open science."

Mas isto só é possível porque há outro aspeto que não é só open science, é team science. Não é este laboratório e este indivíduo, são equipas, há muito mais do que a partilha da autoria dos artigos e, muitas vezes, nem sequer é um artigo: são dados que tu desenvolves, que partilhas com outros, as pessoas usam, e és promovido ali, como serias na academia, mas aí é com artigos científicos. Aqui é: “Eu fiz algo que teve impacto.” É muito interessante ver isso.

E, apesar de estar [no Allen Institute], continuo como membro da administração da Fundação Champalimaud, como membro executivo, mas acho que ainda temos de voltar a bater na mesma tecla da ciência colaborativa em equipa. E também da ciência aberta, que sempre houve ali, mas se calhar nunca foi assumida como imagem de marca, nem dita abertamente a toda a gente.

E, até do ponto de vista nacional, Portugal, como é relativamente pequeno, podia ter um mandato para que fosse tudo open science. Temos uma agência de financiamento central e podia haver uma decisão de que seria tudo open science, pelo menos para experimentar, para tentar alguma coisa diferente. As pessoas poderiam obter na mesma propriedade intelectual, se quisessem desenvolver uma empresa, mas eu estaria disposto a isso.