O Movimento Somos Coimbra repudiou o “ataque” da presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, ao jornalista da Lusa João Gaspar e aconselhou a autarca a não ser “juíza em causa própria” e a não tomar “más decisões”.
“O Movimento Somos Coimbra condena veementemente a inédita e insólita ‘retirada de confiança’ da presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, ao jornalista da Lusa João Gaspar, cuja isenção, idoneidade e rigor jornalístico podemos confirmar, depois de nós próprios termos sido implacavelmente escrutinados, durante quatro anos, por este mesmo jornalista”, pode ler-se em comunicado.
Em causa está um incidente ocorrido na última reunião camarária, na sequência da publicação de uma notícia sobre a Casa do Cinema de Coimbra, na qual o jornalista da Lusa dava conta de que o espaço está em risco de perder a sua licença por o município não avançar com o plano de reabilitação acordado, referindo que questionou o executivo municipal, mas não obteve resposta.
De acordo com o Movimento Somos Coimbra, liderado pelo antigo presidente da Câmara de Coimbra (2021-2025) e ex-bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, derrotado por Ana Abrunhosa (PS) nas últimas eleições autárquicas, em 12 de outubro de 2025, “a liberdade de imprensa é a base da democracia”.
Para o Somos Coimbra, está “agora devidamente esclarecido” que o jornalista “esperou mais de uma semana pela resposta da Câmara de Coimbra à questão da situação da Casa do Cinema de Coimbra, e naturalmente, publicou isso mesmo”.
“A CMC não respondeu. Que queria Ana Abrunhosa? Que a falta de resposta indefinida da CMC condicionasse e/ou impedisse indefinidamente a publicação da notícia?”, questiona o Somos Coimbra na nota.
Para o Somos Coimbra, a Casa do Cinema tem um papel cultural “de grande relevância em Coimbra, pois permite uma programação alternativa às salas de cinemas comerciais existentes, que são todas da mesma empresa e deixam de fora a larga maioria da produção cinematográfica portuguesa e internacional”.
O movimento lembra que, durante o mandato anterior, a Casa do Cinema “teve um papel central”, tendo sido dado “um grande impulso”, primeiro por aquisição das suas instalações pela CMC, “pois a Casa do Cinema estava em risco grave de as perder”, e pelo “reforço dos apoios financeiros e da elaboração de um projeto de recuperação das instalações”.
“Infelizmente, a atual vereação liderada por Ana Abrunhosa decidiu, sem explicação válida, cancelar as obras, nesta sua senda de deitar fora a maioria daquilo que não foi ela a começar, por muito válido que seja. Só que, neste caso, a consequência é clara: o fim da Casa do Cinema de Coimbra, por perda da licença para operar, com graves consequências para a cultura em Coimbra“, denuncia o movimento.
De acordo com o Somos Coimbra “ao dia de hoje, a presidente da Câmara ainda não respondeu à pergunta do jornalista sobre as obras da Casa do Cinema, o que é paradigmático e deveras perturbador”.
“Assim se compreende a reação da presidente da Câmara Municipal: não gosta que as suas más decisões, muito frequentes, se tornem conhecidas. Usa técnicas de bullying para tentar controlar a comunicação social”, frisou, acrescentando ainda tratar-se de um comportamento “em linha com a sua repetida atitude de tentar impedir a voz da oposição, por exemplo cortando o microfone aos vereadores do Somos Coimbra/Nós Cidadãos”.
“Dois conselhos a Ana Abrunhosa: não seja juíza em causa própria e não tome más decisões, já não se sentirá incomodada por elas serem divulgadas. Se tinha dúvidas sobre a atuação do jornalista, o sistema jurídico português disponibiliza instituições às quais se pode recorrer, como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social. E, se não sabe viver em democracia, com uma imprensa livre, mude de atividade”, aconselhou o Movimento.
O Somos Coimbra lamentou, igualmente a tentativa de “algumas pessoas, politicamente comprometidas e profundamente tendenciosas, de procurarem ‘desculpar’ a presidente“.
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“As ditaduras existem exatamente porque há pessoas capazes de aceitar o inaceitável, justificar o injustificável, defender o indefensável e pactuar com o intolerável. A liberdade de imprensa é a base da democracia”, sublinhou.
Na sexta-feira, na sequência deste episódio, a Direção de Informação (DI) da agência Lusa escreveu uma carta à presidente da Câmara de Coimbra “repudiando acusações” que a autarca dirigiu ao jornalista João Gaspar, durante uma reunião pública do executivo camarário.
Numa nota depois emitida, a DI da Lusa considera que as acusações feitas pela presidente da Câmara de Coimbra foram “descabidas, infundadas e difamatórias“.
A DI reiterou a sua confiança no jornalista João Gaspar, “cujo percurso de jornalismo na Lusa é irrepreensível”.
Na nota, a direção acentua que João Gaspar se limitou a fazer uma notícia a propósito da Casa do Cinema de Coimbra, dando conta das preocupações do coordenador do espaço.
“Mais, procurou fazer o contraditório, pedindo esclarecimentos à Câmara. Só ao fim de nove dias publicou a notícia e mesmo assim só após ter instado pessoalmente a responsável pela comunicação daquele órgão”, acrescenta.