(c) 2023 am|dev

(A) :: "Estou pronto para a mudança". A noite "surreal" dos que viram Magyar a derrubar o regime de Viktor Orbán

"Estou pronto para a mudança". A noite "surreal" dos que viram Magyar a derrubar o regime de Viktor Orbán

Sondagens davam vitória a Magyar, mas foi, ainda assim, uma surpresa que demorou a ser processada pelos apoiantes. A noite eleitoral do Tisza durou apenas cinco horas e foi mais festa que comício.

Madalena Moreira
text

“Ó meu Deus, pela primeira vez em 16 anos mudámos mesmo alguma coisa”. O grito é dado por Lotti Gerecs, na sua primeira reação aos números e ao discurso de Viktor Orbán que confirmam a vitória do Tisza, de Péter Magyar, nas eleições legislativas da Hungria. Enquanto repete “ó meu Deus” e abana a cabeça, a jovem de 20 anos atira um braço à volta do pescoço do irmão mais novo. “Ele votou hoje pela primeira vez”, diz ao Observador, sobrepondo-se ao som da música. Marcell Gerecs está igualmente incrédulo. “No passado, o Governo roubou o meu futuro. E estou super entusiasmado que isso vá mudar. Estou pronto para a mudança”, declara.

A julgar pelos resultados, o resto da Hungria também está: Magyar não só conseguiu a vitória, como conseguiu alcançar a “supermaioria”, correspondente a dois terços dos lugares do Parlamento e essencial para governar na Hungria. Os irmãos Gerecs são apenas dois rostos no mar dos milhares que assistiram ao momento histórico na praça Batthyány, conhecida como o miradouro perfeito para o imponente edifício do Parlamento húngaro, situado do outro lado do rio Danúbio.

É nesse enquadramento digno de um postal que, momentos depois da conversa com Lotti e Marcell, Péter Magyar sobe ao palco que foi montado no cais. De bandeira em punho, o líder da oposição sai do hotel e caminha pelo meio do mar de eleitores, iluminado com tochas e decorado com bandeiras, até ao púlpito. E é aí que Magyar declara vitória e o fim dos 16 anos de poder de Viktor Orbán. “Caros compatriotas! Húngaros! Conseguimos! O Tisza e a Hungria venceram esta eleição. Juntos, derrubámos o regime de Orbán e juntos libertámos a Hungria”, anunciou, salientando a afluência às urnas histórica, perto dos 78%.

A média das sondagens já fazia prever uma vitória de Magyar, mas isso não impediu que os resultados tenham apanhado muitas pessoas de surpresa. A noite decidiu-se relativamente rápido, quando comparando com eleições anteriores, mas as cinco horas que os apoiantes do Tisza viveram em Budapeste foram ricas em muitas emoções: da ansiedade das primeiras horas, passando pela esperança que se instalou depois do sol cair, até à festa que explodiu depois de confirmada a vitória de Magyar.

 Hora 1. Antecipação, ansiedade e ceticismo

O caminho entre a ponte Széchenyi e a praça Batthyány demora cerca de 10 minutos a pé. Este domingo à tarde, essa era a única maneira de fazer o trajeto, já que a rua e os carris do metro foram cortados no acesso à praça. Nas laterais da rua, vendedores montam bancas, onde vendem pretzels, cerveja, doces, mas também bandeiras e crachás da Hungria e até merchandise do Tisza. Há ainda longas mesas de madeira e rulotes de comida. O anúncio dos resultados não é apenas um comício, é uma festa completa.

É precisamente no meio da avenida, no pedaço de relva do separador central já a chegar à praça, que Anna e Emese, de 35 anos, montaram as suas cadeiras de campismo, logo às 18h, a hora oficial de início do evento. “Estamos muito entusiasmadas e nervosas, mas à espera do melhor”, diz Anna ao Observador. Chegaram cedo e afirmam que vão ficar na praça até haver resultados, mesmo que seja preciso regressar no próximo fim de semana — uma corrida mais renhida teria obrigado a esperar pela contagem dos votos por correio da emigração para a desempatar. Mas as amigas estão bem preparadas para enfrentar uma noite possivelmente longa já que, no pequeno acampamento que montaram, não faltam bebidas, admitem entre risos.

Péter, de 76 anos, também trouxe a própria bebida alcoólica, mas ainda é muito cedo para a abrir. A garrafa de champanhe que a mulher traz na mala só será aberta quando Magyar ganhar, explica, acrescentando ter a certeza que isso vai acontecer ainda este domingo. A certeza transborda nas suas palavras. A admiração também. Traz nas mãos um cartaz com uma fotografia do seu homónimo — “eu sou o Péter pequeno, ele é o Péter grande” — e palavras de agradecimento. Já teve oportunidade de as dizer presencialmente ao candidato e até de tirar uma fotografia com ele, relata ao Observador. O cartaz motiva conversas e até pedidos para tirar fotografias entre as pessoas que passam perto de Péter.

À sua frente, do outro lado do carril do elétrico, está Bence. O jovem de 22 anos está encostado à grade imediatamente à frente do local onde já está montado o púlpito onde Magyar irá falar. Ao seu lado está uma câmara fotográfica num tripé, o hobby deste técnico de informática que quer tentar fotografar o discurso do líder da oposição. Porém, Bence não acredita que esse discurso possa ser positivo. “Acho que há uma grande hipótese de falhar. Estou cético, porque isto já aconteceu várias vezes: [dizem que] vamos ganhar e depois nunca acontece”, declara.

Hora 2. O espírito de comunidade e uma mensagem para os Estados Unidos

O fluxo de pessoas começa a sentir-se: todas as mesas de madeira na praça estão cheias. Mas, quando anunciou a localização do evento no início da semana, Petér Magyar já tinha antecipado esta possibilidade — afinal, o último grande evento do Tisza em Budapeste, no feriado do 15 de março, reuniu milhares de pessoas. “Felizmente, os cais são longos”, escreveu na sua publicação no Facebook, no início da semana.

Por volta das 19h, as zonas mais centrais dos cais já estão quase todas ocupadas. Principalmente por jovens, que estenderam mantas no chão e aproveitam para conversar, comer e beber. Não são as cervejas vendidas no evento, mas bebidas mais elaboradas; o favorito parece ser o gin tónico.

O grupo de Ezter está num cais, não em mantas, mas em cadeiras de campismo. “Eles os dois já tinham vindo a eventos e avisaram que era melhor”, explica a jovem, apontando os dois amigos. O grupo chegou cedo, mas não tem grandes expectativas para a noite eleitoral ou um desejo ardente de ver Petér Magyar. Mais do que isso, quiseram partilhar o momento com a comunidade, que Ezter diz ter sido construída ao longo da campanha. “Nos anos anteriores, eles [o Governo] podiam fazer o que queriam, porque nós não nos mobilizámos para os controlar“, lamenta.

A dimensão do grupo atrai a atenção dos muitos turistas que aproveitam o fim de dia para tirar fotografias ao Parlamento — alguns tentam perceber que festa está a decorrer. Percebendo tratar-se de um evento político, um turista dos Estados Unidos aponta o telemóvel ao grupo, enquanto grava um vídeo e pergunta: “Têm algum conselho ou mensagem para os norte-americanos?”. Faz-se um momento de silêncio, que um dos amigos quebra com uma resposta em tom interrogativo: “Que se lixe o Trump?”. A tirada arranca risos aos vários grupos que não se conhecem mas que se juntaram no mesmo sítio, com o mesmo propósito.

Momentos depois, por volta das 19h30, Péter Magyar reage pela primeira vez às sondagens reveladas após o fecho das urnas (que não são estudos feitos à boca das urnas, mas sim realizados ao longo da semana), que dão a vitória ao Tisza. A declaração, feita ainda a partir do hotel onde acompanha a noite eleitoral, prende a atenção do grupo que se levanta e fica em silêncio, a tentar ouvir cada palavra.

Hora 3. Acompanhar os resultados com música à mistura

Os primeiros resultados começam a sair por volta das 20h e a festa em Buda ganha um novo ritmo. Todos os olhos estão agora colados aos ecrãs gigantes montados à volta do palco, em várias direções, onde está a ser transmitida a emissão do canal independente Partizán — o mesmo onde, há dois anos, Péter Magyar deu uma das entrevistas que o atirou para o centro da política nacional.

Ao longo das últimas duas horas, as pessoas continuaram a chegar ininterruptamente ao lugar da festa e a multidão no centro da praça é agora bem mais compacta. Um grupo de pessoas decide subir para o telhado da boca de metro, no centro da praça, mas é convidado a descer por membros da organização, que utilizam coletes brancos com o símbolo do Tisza e a palavra “Staff” nas costas. Rapidamente se arranjam alternativas para ver a evolução da contagem dos votos.

Algumas pessoas decidem subir às árvores na praça, mas a maior parte simplesmente passa a acompanhar a transmissão em simultâneo no telemóvel. E cria-se uma rotina: cada nova atualização dos resultados, seja a nível nacional, seja os números finais de um círculo eleitoral, é recebida com um onda de aplausos, gritos e cânticos.

Dora e Sabina são parceiras numa empresa de organização de eventos e a festa do Tisza é o “evento mais importante do ano”, dizem em tom brincalhão ao Observador. Dora trouxe as bebidas — champanhe servido em flutes de plástico — e os convidados — a mãe, a tia, e a avó de 92 anos. Sabina trouxe a decoração — um cartaz de Péter Magyar e outro do Tisza, que retirou das ruas ao pé de sua casa. “Eu moro a duas ruas dele”, declara, referindo-se já a Magyar como o “novo primeiro-ministro”.

As duas ficaram responsáveis pela música. São elas que puxam repetidamente vários cânticos, seguidos pelo resto da multidão. Ensinam as palavras em húngaro de três dos cânticos ao Observador. O primeiro, e mais utilizado, é “O Tisza flui”, um trocadilho em húngaro com o facto de o Tisza ser um afluente do Danúbio. O outro é simples: “Rússia fora!”. O terceiro é sobre mandar o Fidesz para um sítio, mas as duas mulheres recusam-se a fazer a tradução direta. “Bem, acho que dá para perceber esse, não é?”, apontam, entre risos.

Hora 4. Os 15 minutos de hesitação em declarar vitória

Sãos 20h11 quando a notícia é tornada pública. “O primeiro-ministro Viktor Orbán felicitou-nos pela nossa vitória ao telefone”, escreve Péter Magyar no Facebook. Mas a confirmação de viva voz só chega já bem para lá das 21h. Do outro lado da cidade, no centro cultural Bálna, Orbán assume uma derrota “dolorosa, mas clara”. Quando Orbán aparece no ecrã ouvem-se assobios, apupos e aquele cântico sobre o partido, mas é só isso.

Não há celebrações, nem declarações de vitória. O Observador encontra novamente Anna e Emese, quase três horas depois da primeira conversa. Já respiram de alívio e estão prontas para celebrar? “Não, estamos a começar a sentir, mas ainda não”, diz Anna, que quer esperar pelos resultados. Descendo as escadas à esquerda para o cais, um grande grupo de jovens — nenhum deles quis ser identificado — tem a mesma posição. “Não podemos confiar plenamente que já ganhámos porque nunca se sabe com este sistema. No passado já houve casos de fraude, mesmo em eleições, por isso não podemos ter a certeza até os votos estarem contados”, sintetiza uma das raparigas, sob o aceno dos amigos.

Nos 15 minutos que o Observador demora a avançar cerca de 50 metros pelo meio da multidão compacta que agora ocupa também o cais, os apoiantes parecem começar a assimilar a realidade. “Ainda estou a processar que isto está a acontecer”, diz Maté, boquiaberto, num grupo de rapazes. “Ainda parece surreal por agora”, diz, por sua vez, Lili, de 26 anos, que está com duas amigas. Uma delas, Dorina, nota que não conhece outra realidade política além de Orbán como primeiro-ministro e que isso dificulta a aceitação.

“Também é estranho que o ex-primeiro-ministro — agora posso dizer isto, uau — tenha feito aquele discurso [e concedido a vitória]. Eu não acredito que se chegou à frente e fez aquele discurso”, diz, abanando a cabeça, sempre de boca aberta.

Hora 5 (e seguintes). A celebração

Nas escadas do cais, uma mulher com um pequeno megafone — que não tem qualquer identificação como membro da organização — puxa pela multidão com cânticos, como se de uma líder de claque se tratasse. A energia parece despertar o entusiasmo da vitória na multidão. Um grupo de amigos abre e distribui latas de cerveja e traça os planos para o resto da noite. “Festejar. Durante pelo menos três dias”, afirma Greg ao Observador, arrancando gritos de apoio dos amigos.

Questionado sobre o facto de amanhã ser segunda-feira, dá uma resposta que o Observador já ouviu por duas vezes: vai faltar às aulas. “Tenho um exame amanhã, mas não quero muito saber disso agora.” A frase é interrompida pela música que sai do sistema de som e põe fim à transmissão do Partizán: Péter Magyar saiu do hotel e está prestes a discursar. “Ainda bem que, por agora, vamos celebrar”, remata o estudante universitário, antes de abraçar um amigo e gritarem, de punho no ar, por Magyar.

Os minutos que demora o percurso são preenchidos com uma música húngara que funciona como hino de campanha e a música “My Way, de Frank Sinatra, cantadas a plenos pulmões pela plateia. No cais, os sentimentos que estavam em ebulição há cinco horas transbordam em abraços, beijos, videochamadas para amigos no estrangeiro e até lágrimas. Durante os 45 minutos que está em cima do palco, Péter Magyar é recebido com apoio incessante. Acendem-se tochas, lançam-se foguetes e grita-se a uma só voz as palavras de ordem para cada ponto do discurso e logo aí fica cavado o fosso face à governação Orbán: em mais do que um momento, os apoiantes abanam a bandeira da União Europeia ao som de gritos de “Europa, Europa, Europa!”.

Depois do hino nacional, soam os primeiros acordes de piano. O público reconhece a melodia e grupos inteiros abraçam-se para cantar o “We are the Champions”, enquanto fogo de artifício é lançado de vários pontos do cais. É neste cenário que o Observador reencontra Ezter. “O discurso foi tão longo, eu tinha mesmo de ir à casa de banho”, diz, entre risos, antes de resumir a noite numa só palavra: “surreal“. E se puder dar uma segunda: “esperança“. A reação de Anna, numa terceira conversa com o Observador, é ainda mais breve: não só suspira de alívio, como grita de alegria.

Depois do clássico dos Queen, a escolha musical seguinte parece mais inusitada: “Hanging Tree”, música da banda sonora dos filmes da saga Hunger Games (“Os Jogos da Fome”). “Disse-te para correres, para que ambos fôssemos livres”, ouve-se nas margens do Danúbio, antes de a música se transformar numa batida mais ritmada, que convida a dançar. O convite é aceite por centenas de pessoas que recusam dar uma noite histórica por terminada.