Tinha um sistema eleitoral feito à medida para o beneficiar. Apoios dos Estados Unidos da América (EUA) e da Rússia. Uma rede de aliados nos cargos públicos. Nada disto foi suficiente para prevenir uma derrota estrondosa. O Fidesz — liderado pelo primeiro-ministro da Hungria — angariou apenas cerca de 38% dos votos e perdeu cerca de 80 membros da sua bancada parlamentar. Nem travou a humilhação de ver o rival Péter Magyar obter uma expressiva maioria (dois terços do Parlamento), sendo que o sucessor tem poderes suficientes para dissolver várias das reformas que Viktor Orbán implementou.
O primeiro-ministro da Hungria foi castigado nas urnas. A situação económica húngara piorou nos anos mais recentes, enquanto se tornaram visíveis as redes de corrupção que Orbán montou ao longo dos últimos 16 anos. Surgiu, no mesmo sentido, um adversário que lhe fez frente e que soube cativar o eleitorado húngaro. Tendo sido membro do Fidesz no passado, Péter Magyar soube agradar quer a muitos simpatizantes do partido do chefe do Executivo, quer a membros da oposição — da esquerda ao centro-direita.

Numa campanha que girou em redor da guerra na Ucrânia, a política externa assumiu um forte protagonismo nestas eleições, principalmente da parte do Fidesz. O primeiro-ministro húngaro transmitiu a mensagem de que era ele que estava a impedir que a Hungria fosse arrastada para uma guerra da União Europeia (UE) contra a Rússia. Em simultâneo, Viktor Orbán foi aproximando Budapeste de Moscovo e já não se preocupava em esconder a relação amistosa com o Presidente russo, Vladimir Putin.
Fazendo dos seus principais inimigos a União Europeia e o Presidente ucraniano, Viktor Orbán apostou numa estratégia praticamente focada nesse assunto, relegando os problemas relacionados com a corrupção e a economia para segundo plano. Se essa mensagem é popular em certos setores da base eleitoral do Fidesz (principalmente aqueles que vivem na região fronteiriça com a Ucrânia), muitos húngaros queriam ver os problemas do dia a dia a serem resolvidos. O primeiro-ministro não deu resposta a estas questões, preferindo culpar e criticar Volodymyr Zelensky e os dirigentes comunitários.
O apoio à Ucrânia está longe de ser um tema consensual na Hungria e Viktor Orbán já tinha explorado essa ideia com eficácia nas últimas legislativas, em 2022. Contudo, a proximidade com o Kremlin e o confronto permanente com a União Europeia são assuntos que não agradaram a todos no eleitorado húngaro. Muitos eleitores desejam melhorar as relações com Bruxelas — e especialmente afastar-se da Rússia. Na memória coletiva húngara, ainda habitam as imagens da Revolução de 1956 e de como os soviéticos a esmagaram.

O “partido da guerra” de Bruxelas: a estratégia falhada de Orbán
No início da sua carreira política, Viktor Orbán apresentou‑se como um líder liberal e pró‑Ocidente, defendendo a integração da Hungria na NATO e na União Europeia. Na sua trajetória enquanto primeiro-ministro, mudou totalmente de rumo, em particular nos últimos anos: de elogiar o projeto europeu passou a ser um dos seus principais críticos, ainda que nunca tivesse defendido a saída de Budapeste da UE.
A forma como confrontou os líderes europeus nos últimos anos, aliada ao facto de o Estado de Direito na Hungria ter sido colocado em causa pelas instituições europeias, transformou Viktor Orbán num pária em Bruxelas. O resultado? Uma parte substancial dos fundos comunitários destinados a Budapeste — cerca de 19 mil milhões de euros — permanece congelada. Os húngaros perderam recursos financeiros que poderiam ser investidos na economia do país.
Na campanha dos últimos meses, Viktor Orbán acusou o chamado “partido da guerra” instalado em Bruxelas de querer arrastar a Hungria para o conflito da Ucrânia, enviando jovens húngaros para a frente de combate. Em pé de guerra com a União Europeia, o primeiro‑ministro apresentava‑se como o único capaz de evitar esse cenário, oferecendo aos eleitores uma ideia de paz e estabilidade com o Fidesz.

Nas eleições de abril de 2022, a estratégia do Fidesz foi bem sucedida: a guerra na Ucrânia tinha apenas dois meses e parecia que a Rússia a ia vencer com relativa facilidade. Em 2026, passados quatro anos e numa altura em que se assiste a um impasse na linha da frente, o conflito já perdeu parte do mediatismo — e a entrada da União Europeia na guerra é um cenário extremamente improvável.
Por muito que o Fidesz denegrisse a reputação da União Europeia (havia vários cartazes com dirigentes europeus na Hungria), essa mensagem já não colava em grande parte do eleitorado. Segundo uma sondagem publicada esta quarta-feira pelo think tank European Council on Foreign Relations (ECFR), 77% dos húngaros defendem a permanência da Hungria na União Europeia. Mais: a maioria pretende que haja uma “diferente abordagem” daquela que tem sido utilizada por Viktor Orbán — só 19% acredita que a postura do primeiro-ministro se deveria manter a mesma
A mesma sondagem mostrava que 46% dos húngaros acham que o Governo deve procurar estabelecer relações mais próximas com os parceiros europeus. Estes números mostram que um dos principais eixos da estratégia eleitoral de Viktor Orbán fracassou. Ainda para mais com um rival que prometia aproximar a Hungria da União Europeia — se bem que Péter Magyar nunca tenha bem deixado claro como seria a relação com Bruxelas.
https://observador.pt/especiais/tenho-medo-de-dizer-ola-sou-da-ucrania-na-hungria-de-viktor-orban-os-ucranianos-querem-poder-sentir-se-em-casa/
A proximidade da Rússia. Como Orbán ignorou a memória histórica húngara
A Hungria e a Rússia fortaleceram as relações desde que o conflito na Ucrânia começou. O Governo de Viktor Orbán manteve a dependência ao gás russo e não procurou forma de a ultrapassar, contrariamente a vários Estados-membros. Diplomaticamente, os dois países aproximavam-se. Viktor Orbán defendia Vladimir Putin, visitava-o em Moscovo e usava uma retórica em que Kiev tinha de ceder a praticamente todas as exigências russas.
Mais: a Hungria servia como um país que contribuía para bloqueios no seio da NATO e da União Europeia no apoio à Ucrânia. Na UE, Budapeste bloqueou um pacote de 90 mil milhões de euros e o novo pacote de sanções contra Moscovo. O Kremlin usava os húngaros como uma espécie de cavalo de Tróia nas instituições europeias e transatlânticas.
Vladimir Putin obviamente não queria perder um ativo tão valioso na Hungria. Por isso, nas últimas semanas, as secretas russas terão tentado influenciar a votação. Até terão proposto um plano encenado para uma tentativa de assassinato de Viktor Orbán, que poderia mudar por completo o rumo da campanha. Os serviços de informações da Rússia não terão avançado com esse plano, mas terão usado as redes sociais para beneficiar o Fidesz.

Por tudo isto, o país começou a ser visto como um aliado total da Rússia. Externamente, isso causava repulsa e incompreensão entre os aliados europeus. No plano interno, também teve consequências nefastas para Viktor Orbán. Embora os húngaros não queiram apoiar a Ucrânia militarmente, isso não significa que sejam pró-russos. A maioria da população húngara olha para a Rússia com muita desconfiança: afinal de contas, a Hungria integrou o Pacto de Varsóvia e esteve presa na zona de influência soviética durante décadas.
Assim, não é de estranhar que apenas 6% dos húngaros, segundo a sondagem da ECFR, desejem fortalecer os laços diplomáticos com a Rússia e a China. A população da Hungria prefere manter-se mais próxima da Europa, em vez de Moscovo. As imagens dos tanques soviéticos a esmagar a revolta húngara em 1956 não desapareceram da memória coletiva.
Viktor Orbán pode não ter medido bem as consequências desta posição. A transformação da Hungria num Estado quase satélite da Rússia não caiu bem entre os húngaros. Em contrapartida, o adversário Péter Magyar insistiu sempre na ideia de que a Hungria não seria uma “vassala” de Vladimir Putin — algo em que reiterou no discurso da vitória deste domingo. E parece ter funcionado, já que um dos cânticos mais populares durante a campanha (e depois) foi “Russos Para Casa” (Ruszkik haza).
https://twitter.com/JakubKrupa/status/2043429099855569330
O presente envenenado de Trump
Do outro lado do Atlântico, surgiu um forte apoio. O Presidente dos EUA, Donald Trump, endossou a candidatura de Viktor Orbán e até tentou seduzir os húngaros, a algumas horas de as urnas abrirem, com os potenciais investimentos norte-americanos no país. Mais: o vice-presidente JD Vance esteve em Budapeste na semana das eleições, sinal do grande apoio norte-americano ao primeiro-ministro húngaro.
Ideologicamente, a administração Trump vê a Hungria como uma forte aliada. Contudo, tal como acontecia com a Rússia, Viktor Orbán parecia subjugar os húngaros a uma potência estrangeira, apesar de ser um político assumidamente nacionalista. Havia uma contradição nos comportamentos do chefe do Executivo: por um lado, batia o pé às ordens dos “burocratas de Bruxelas”; por outro, obedecia às ordens de Moscovo e Washington quase sem pestanejar.
Com uma agravante: a administração Trump não está a passar um bom momento no que toca à sua reputação e popularidade na Europa. Por exemplo, a guerra no Irão aumentou o custo de vida nos países europeus — incluindo na Hungria. Nesse contexto, o apoio expressivo de Washington a Viktor Orbán poderá ter aproximado ainda mais o primeiro‑ministro húngaro de uma política externa percebida como sendo a responsável pela subida dos preços da energia e da taxa de inflação.

Em todo o caso, a presença de JD Vance em Budapeste de pouco terá servido para a campanha Viktor Orbán. Em junho de 2025, segundo uma sondagem da Pew Research Center, a Hungria até era o país europeu que tinha uma visão mais positiva da administração Trump. Porém, a divisão entre os eleitores era clara: 46% reprovavam a atuação da presidência norte-americana, ao passo que 53% apoiavam.
A presença do vice‑presidente dos Estados Unidos pode ter servido para energizar os apoiantes mais leais do Fidesz e dar visibilidade internacional à campanha de Viktor Orbán. Porém, tudo indica que grande parte do eleitorado — incluindo muitos dos eleitores rurais que tradicionalmente garantem as vitórias do primeiro-ministro — não terá decidido o seu voto com base na visita de JD Vance, especialmente num contexto em que a política externa da administração Trump está longe de ser consensual.
As questões internas. O calcanhar de Aquiles de Viktor Orbán
O Fidesz construiu grande parte da sua narrativa em torno de temas da política externa, deixando muitas vezes em segundo plano os problemas internos da população. Viktor Orbán pareceu acreditar que a política externa continuaria a ser o seu seguro de vida e que a questão ucraniana bastaria para obter uma nova vitória. Paralelamente, a campanha do primeiro-ministro tinha cada vez menos obra feita para mostrar. As condições económicas pioraram nos últimos anos e irromperam sucessivos escândalos causados por membros do Governo húngaro.
https://observador.pt/especiais/isto-e-menos-gente-do-que-ha-quatro-anos-a-terra-natal-de-orban-ainda-sai-a-rua-em-peso-para-o-ver-mas-o-tisza-instaurou-divisoes/
Certo é que a política externa não preocupava muitos húngaros. Uma sondagem publicada pela Gallup no início de abril indica que a principal preocupação dos eleitores consistia nos problemas políticos relacionados com a corrupção, logo seguidos da situação económica. O primeiro-ministro da Hungria parecia dar poucas respostas em relação a estes temas, deixando-os num segundo plano.
Em declarações à revista Time, Max Bergmann, membro do think tank Center for Strategic and International Studies, recordou que a Hungria continuava a ser um “dos países mais corruptos na União Europeia”. O primeiro-ministro húngaro mudou a “natureza da democracia húngara” e tudo parecia “girar em redor dele”. “Ele liderou a Hungria como o seu feudo.”
Depois de 16 anos no poder, muitos húngaros deixaram de acreditar que a situação pudesse melhorar sob a liderança de Viktor Orbán. O primeiro‑ministro não parecia disposto a desfazer as teias de poder, clientelismo e controlo institucional que ele próprio construiu à sua volta. Isso poderá explicar o cartão vermelho que muitos eleitores deram ao Fidesz.
Para além disso, as condições financeiras pioraram perante uma elite que parecia controlar os circuitos económicos húngaros. O país viu a taxa de inflação subir nos últimos anos e registou-se um aumento do custo de vida. Um membro do Tisza explicou ao Financial Times o que representam as dificuldades financeiras para muitos húngaros: “As pessoas não podem mais ignorar os recuos democráticos e a corrupção se a sua qualidade de vida deixa de melhorar”.

Os fundos europeus congelados ajudaram a reforçar a perceção de que o Fidesz já não era capaz de resolver os problemas económicos que a Hungria enfrentava. A prolongada relação tensa com a União Europeia deixou o país com cerca de 19 mil milhões de euros ainda bloqueados, dinheiro que muitos húngaros sentem que foi perdido por causa do confronto de Viktor Orbán com Bruxelas.
Péter Magyar. O líder que soube desmontar Orbán
Nas últimas décadas, foram vários os líderes políticos que tentaram enfrentar Viktor Orbán nas urnas — sempre em vão. No entanto, em 2026, o primeiro-ministro húngaro não conseguiu romper com o movimento que se formou em redor de Péter Magyar. Para isso, contou muito a origem política daquele que será o novo líder do Governo — que venceu as eleições com 53,21% e deverá chegar a uma supermaioria (mais de dois terços) de 138 deputados no Parlamento.
Contrariamente a muitos outros líderes da oposição, Péter Magyar é um produto do próprio Fidesz. Filiado no partido de Viktor Orbán desde o início dos anos 2000, fez carreira em estruturas do partido e foi casado com a protegida política do primeiro‑ministro, a ex‑ministra da Justiça Judit Varga, de quem se divorciou em 2023. Por isso, o presidente do Tisza conhecia por dentro o funcionamento do regime húngaro e os seus pontos fracos, entendendo como poucos as redes de influência e de corrupção montadas nos últimos anos.
https://observador.pt/especiais/das-elites-de-budapeste-a-digressao-pelas-aldeias-passando-pelo-fidesz-peter-magyar-o-homem-que-pode-por-fim-a-longa-era-orban/
Oficialmente de centro‑direita, o presidente do Tisza soube apresentar‑se como alternativa a Viktor Orbán sem representar uma rutura total. Péter Magyar cativou muitos eleitores desiludidos com o rumo do Fidesz e conseguiu agregar a maioria das forças políticas que se opunham ao primeiro‑ministro. Os principais temas da sua campanha foram a corrupção e o aumento do custo de vida — questões transversais aos húngaros, sejam eles de zonas rurais ou urbanas —, acompanhados da promessa de pôr fim ao regime de Orbán.
Focando na economia e na corrupção, Péter Magyar expôs os principais problemas do regime do Fidesz. Ao mesmo tempo, conseguiu não manchar a sua imagem com assuntos que o poderiam prejudicar, como a guerra na Ucrânia ou a relação com a União Europeia. O presidente do Tisza evitou comprometer-se totalmente com a UE e optou por uma abordagem neutra no que diz respeito à questão ucraniana.
Tal como muitos húngaros desejam, o futuro chefe de Governo prometeu reaproximar Budapeste de Bruxelas, deixando claro que tentaria desbloquear os fundos de 19 mil milhões de euros congelados. Reconhecendo a opinião da população sobre o tema, o presidente do Tisza assegurou que não ia enviar armas a Kiev e manifestou algumas dúvidas sobre ao processo de adesão da Ucrânia à União Europeia.
Com uma comunicação clara e até populista, Péter Magyar soube ler a vontade de alternância política dos húngaros. Mas fez mais do que isso: soube apresentar-se como uma alternativa credível a Viktor Orbán. Apesar de partir em desvantagem perante o sistema eleitoral, a campanha do ex-membro do Fidesz deu esperança a quem há muito já esperava por uma mudança e a quem estava simplesmente cansado e desiludido da governação do Fidesz.