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(A) :: Um PS sem vergonha, um PSD sem memória e um Chega sem coluna vertebral

Um PS sem vergonha, um PSD sem memória e um Chega sem coluna vertebral

Se José Sócrates vier a exigir responsabilidades ao Estado por violação dos seus direitos, veremos um provedor da justiça socrático a pronunciar-se sobre o assunto. Haverá maior humilhação?

Rui Rocha
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Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. A frase de Sophia de Mello Breyner Andresen veio-me à memória quando o nome de Tiago Antunes chegou à praça pública como estando alinhavado entre PS, PSD e Chega para assumir o cargo de provedor de Justiça. Essa é mesmo a questão fundamental: não podemos ignorar o que sabemos sobre Tiago Antunes, o socrático que PS, PSD e Chega se preparam para colocar na Provedoria de Justiça.

E o que sabemos é que foi, antes de mais, um socrático empedernido. Não apenas porque fez parte dos governos de José Sócrates. Não apenas porque fez parte do núcleo duro do socratismo. Mas sobretudo porque há notícia pública do seu envolvimento e responsabilidade direta nas operações de intoxicação da opinião pública perpetradas pelo socratismo, utilizando para o efeito meios do Estado.

Vamos ver com mais detalhe. José Almeida Ribeiro, antigo espião do SIS e secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro José Sócrates entre 2009 e 2011, foi, de acordo com uma investigação do Correio da Manhã publicada em fevereiro de 2010, um dos estrategas e gestor de grande parte da informação importante que circulava na blogosfera com origem no governo. Ora, Tiago Antunes integrou a equipa de Almeida Ribeiro e desempenhou, de acordo com a mesma investigação, funções relevantíssimas na preparação e partilha de informação, muitas vezes truncada ou manipulada, em diferentes canais.

Aliás, segundo foi referido ainda na investigação em causa – e nunca desmentido, Tiago Antunes terá sido uma peça fundamental da engrenagem montada, a partir do interior do governo para, por exemplo, alimentar blogues criados com o objetivo de intoxicação da opinião pública como o Simplex e o Câmara Corporativa.

Todavia, sejamos claros. O facto de ter integrado o núcleo duro governamental de António Costa, com responsabilidades diretas na gestão da resposta à covid-19, em que foram cometidas várias violações de direitos, liberdades e garantias, e de ter, na mesma qualidade, participado ativamente na execução de uma política migratória que levou ao colapso do controlo de fronteiras do país, seria já motivo mais do que suficiente para que o seu nome não fosse considerado para a função a que se candidata.

Mais, o simples facto de ter integrado o núcleo duro do socratismo, com responsabilidades diretas na bancarrota financeira, seria também, só por si, e não se lhe conhecendo arrependimento ou contrição, factor de exclusão.

Agora, somando cada um dos factos que se acabam de descrever, é fácil constatar que só um PS sem vergonha, um PSD sem memória e um Chega sem coluna vertebral poderiam pensar, sequer, em viabilizar a candidatura de Tiago Antunes à Provedoria de Justiça. Entende-se que caiba ao PS indicar um nome para o cargo, mas não poderia ser este o escolhido. É incompreensível que uma negociata leve o PSD a aceitar um socrático e costista, com suspeitas graves de ter um passado de intoxicação da opinião pública contra o próprio PSD e contra o então Presidente Cavaco Siva. E é igualmente incompreensível que o Chega, também pela negociata, traia o seu discurso aceitando um nome que contradiz tudo o que afirma defender.

Aliás, veja-se o absurdo de tudo isto: se, como tudo indica, José Sócrates vier um dia a exigir responsabilidades ao Estado português por violação dos seus direitos, liberdades e garantias, a humilhação final para os portugueses será a de ver um provedor da Justiça socrático a pronunciar-se sobre o assunto. É a uma humilhação desta dimensão que PS, PSD e Chega se preparam para nos sujeitar.