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A Divina vitória do Irão nos estúdios de televisão

O Irão continuará limitado, perigoso e fanático. E certos comentadores continuarão a fazer por ele aquilo que o seu aparelho militar já não consegue: fabricar poder a partir de fumo

José António Rodrigues do Carmo
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Durante semanas, Israel e os EUA esmurraram militarmente o regime iraniano até este aceitar um cessar-fogo provisório, precário, condicional, com aroma intervalo táctico. Mas em numerosos painéis a República Islâmica está a dar uma espantosa lição aos aliados israelitas e americanos

Convém começar pelo elementar, que hoje parece ausente nestes areópagos televisivos: se Teerão estava a ganhar, porque aceitou falar com o Grande Satã?

Um vencedor não vai conversar a Islamabad entre discordias de personalidades do regime, enquanto a sua margem de manobra estratégica encolhe a cada dia. O cessar-fogo prova, não a força do Irão, mas que a continuação da guerra lhe parecia pior.

Há pois que separar propaganda de realidade. O Irão está nesta  guerra com o estatuto de  sobrevivente. Mas sobreviver não é vencer. Os ataques iranianos com mísseis e drones caíram cerca de 90% desde o início da guerra, foram danificadas ou destruídas dois terços das instalações de produção ligadas a mísseis, drones e meios navais; foram atingidos dezenas de milhares de alvos militares e afundada quase toda a marinha iraniana. Não houve aniquilação total, mas muitos menos a gloriosa resistência estratégica que certos sacerdotes da nuance andam a vender na praça pública. A degradação da capacidade militar  foi incompleta, mas severa.

Israel logrou, até agora, uma redução concreta da ameaça futura. Não a eliminou, porque guerras reais não se resolvem com passes de mágica,  e o inimigo continua a ter meios, homens e vontade. Sobretudo vontade. Mas reduziu-lhe a liberdade de acção. Os lançadores balísticos são mais difíceis de repor do que muita gente imagina e o simples facto de o Irão não conseguir disparar grandes salvas mostra que a sua capacidade utilizável encolheu. O erro de concentrar meios em instalações subterrâneas profundas permitiu aos EUA e a Israel manter vigilância persistente sobre esses locais, tornando muitos desses sistemas  inúteis

Os EUA, apesar de não saírem imaculados, conseguiram impor custos pesadíssimos ao regime, forçaram-no a aceitar tréguas, mantêm a iniciativa coerciva e várias opções em aberto,  e levaram Teerão a admitir a  entrega do stock de 400 kg  de urânio enriquecido a 60%, que poderia dar para cerca de dez bombas. Por outras palavras,  Washington não derrotou ainda o regime, mas ganhou uma posição de força negocial que simplesmente não existiria sem o castigo militar. Agora ameaça um golpe de jiu jitsu sobre os navios que transitam de e para o estreito de Ormuz, acabando com a extorsão mafiosa implantada pela Guarda Revolucionária.

Onde está então a tal “vitória”  de que tantos falam com o entusiasmo húmido de quem descobre um Che Guevara em cada aiatola? Na imaginação de parte do comentariado ocidental. E em Portugal, a imaginação de parte do comentariado tem uma graça particular, porque se apresenta sempre com ar de superioridade civilizacional. Na nossa fauna prolifera o especialista que acha sempre que Israel exagera, os EUA  estragam, e o inimigo dos dois deve conter, algures, uma racionalidade secreta, uma dignidade ferida, um trauma histórico, uma metafísica da resistência. Se o Irão perde meios, perdeu apenas material. Se perde influência, ganhou moral. Se aceita negociar, fê-lo por sabedoria. Se recua, está a redefinir os termos do conflito. Nunca lhes ocorre a hipótese óbvia de o regime islamista estar, simplesmente, a apanhar pancada.

A doença intelectual  é antiga. Olha-se para um regime teocrático, repressivo, imperial, patrocinador de proxies armados, com um historial vasto de terrorismo e extorsão, e evidentes ambições nuclearee, e trata-se o zote como se fosse uma espécie de Vaticano com turbante.

Mas o Irão não é uma potência normal com irritações normais e apenas com objectivos tangíveis. O regime assenta numa fusão entre cálculo de Estado e impulso ideológico-religioso. A Guarda Revolucionária é uma máquina de poder, repressão, exportação revolucionária, guerra irregular e intimidação.

Não se trata apenas de geopolítica, mas de jihad. A geopolítica trabalha com interesses, equilíbrios, custos e ganhos. A jihad trabalha com missão, sacralização do conflito, tempo longo e legitimação metafísica da violência. Claro que o Irão faz cálculos. Claro que mede riscos. Claro que pode negociar. Mas sem abandonar a matriz que o faz ver o poder como instrumento de uma causa. É por isso que a velha cantilena ocidental da diplomacia, apaziguamento e  janelas de diálogo, produz sempre o efeito contrário ao prometido. Em Teerão, a contenção alheia é lida como fraqueza a explorar. Cada hesitação ocidental, cada eufemismo, cada recusa em chamar as coisas pelo nome educa o regime na convicção de que o Ocidente prefere sempre adiar o confronto até o preço ser impossível de pagar.

A atitude europeia recente face a esta guerra, reforçou precisamente essa ideia. A França, o Reino Unido, a vergonha espanhola, a Alemanha e até a Itália, que recusou enviar meios navais para patrulhamento sem mandato da ONU e negara já o uso de Sigonella para operações americanas, são exemplos de autismo. Cada uma das suas decisões pode ter racionalidade táctica e política interna mas passa  um  sinal estratégico agregado de que, mesmo perante uma guerra  desta dimensão, a Europa está mais preocupada em parecer prudente do que em ser dissuasora. E o Irão toma nota.

Entretanto, a realidade insiste em estragar a ficção. O estreito de Ormuz continua sequestrado. O bloqueio iraniano provocou a pior perturbação de sempre no abastecimento global de energia.  Isto é importante porque desmonta outra fantasia muito repetida: a de que o Irão “mostrou controlo” e saiu fortalecido.

Não. O Irão mostrou que pode causar dano, o que é muito diferente. Um assaltante que ainda consegue incendiar a casa antes de fugir não passa a dono do bairro. Continua apenas a ser perigoso.

Também é intelectualmente fraudulento fingir que a ameaça iraniana é uma abstracção distante, confinada ao Levante e aos nervos de Israel. Relembro que só o Reino  Unido respondeu, desde 2022, a vinte conspirações apoiadas pelo Irão que representavam ameaças potencialmente letais a cidadãos  britânicos. E um relatório de 2025 descreveu a ameaça iraniana como significativa e crescente.

Não estamos portanto a falar de um problema exótico para especialistas em tapetes persas. Estamos perante um regime cuja agressividade extravasa a região e toca directamente a segurança europeia.

Que futuro próximo se desenha, então, para um Irão efectivamente limitado?

Há dois cenários plausíveis, ambos desagradáveis para os adoradores da retórica vazia. No primeiro, há acordo. Mas um acordo digno desse nome teria de incluir monitorização intrusiva e duradoura, tanto do programa nuclear como do vector balístico. A questão não é o que o Irão promete no papel, mas como se vigia e como se pune o incumprimento. Sem inspecções intrusivas e sem prontidão americana e israelita para voltar a atacar, não há caminho sério em frente. A própria Casa Branca já fixou como linha vermelha a remoção do urânio enriquecido. Um acordo frouxo, ornamental, cheio de parágrafos e vazio de dentes, seria apenas a preparação metódica da próxima guerra.

No segundo cenário, não há acordo satisfatório. Mas a ausência de acordo não significa necessariamente o apocalipse; pode significar apenas um Irão mais fraco, mais vigiado, mais incapaz de reconstruir rapidamente a sua ameaça. Mesmo sem mudança de regime, Teerão pode ser forçado a modificar posições sob pressão existencial, a beber de novo o seu “cálice de veneno”. E, se não conseguir governar-se eficazmente, isso não é pior do que antes. Haverá uma entidade política menos apta a perseguir armas nucleares e mísseis balísticos mais sofisticados. O instrumento para isso não é o optimismo, é a coerção sustentada: vigilância aérea persistente, linhas vermelhas claras, prontidão para raides temporários e ataques imediatos se o regime tentar reconstituir capacidades proibidas.

E aqui regressamos ao vício português da análise engajada.  Em demasiados estúdios, o que se ouve, não é uma avaliação fria dos resultados da guerra, mas a velha liturgia de ressentimento. Se Israel resiste, irritam-se e descobrem um genocídio em cada esquina; se os EUA agem, escandalizam-se; se o Irão aguenta, romantizam. Como se a principal obrigação de um comentador não fosse perceber quem ameaça, quem agride e quem procura limitar essa ameaça, mas sim encontrar sempre uma forma de atribuir culpas simétricas ao incendiário e ao bombeiro. Não é sofisticação, é apenas preguiça mental e activismo.

No fim, o que esta guerra mostrou até agora é simples. A ameaça iraniana foi seriamente degradada; os EUA ganharam capacidade de coerção e margem negocial; o regime iraniano sobreviveu, mas mais ferido, mais vigiado, mais limitado e menos livre do que antes; a Europa hesitou, como sempre; e uma parte do comentário português, fiel à tradição de tomar a pose por inteligência, correu a proclamar vitórias persas com a mesma fúria com que Marcelo Rebelo de Sousa distribuía medalhas

Mas a realidade, reaccionária como sempre, tem o péssimo hábito de reaparecer. E quando reaparece, a poeira assenta e costuma humilhar os vaidosos. Talvez alguns dos nossos especialistas descubram que “resiliência” não é sinónimo de vitória, que sobreviver a um castigo não equivale a prevalecer, e que chamar génio estratégico à mera capacidade de continuar a arder é uma forma requintada de estupidez.

Até lá, o Irão continuará limitado, perigoso e fanático. E certos comentadores continuarão a fazer por ele aquilo que o seu aparelho militar já não consegue: fabricar poder a partir de fumo.