1 As epopeias
Se os classicistas tendem a considerar a Ilíada como o poema homérico por excelência, a verdade é que o texto que narra as aventuras de Odisseu é muito mais popular, tendo inspirado uma longa lista de outras obras. A mais popular de todas talvez seja aquela que procurou fazer para os romanos o mesmo que Homero tinha feito para os gregos: uma epopeia capaz de dar forma a um povo.
Refiro-me à Eneida, que o poeta Virgílio oferece ao imperador Augusto, para contar de que modo uma cidade que nasceu da disputa entre irmãos se transformou no mais poderoso império do mundo. A Eneida junta os dois temas homéricos anteriores: narra as guerras e aventuras do troiano Eneias, de cuja descendência farão parte Remo e Rómulo, que foge de Troia na terrível noite do assalto à cidade e acaba por navegar até à costa itálica, protegido por Vénus (Afrodite), sua mãe.

Não deixa de ser interessante notar como os romanos seriam, assim, descendentes de um troiano vencido pelos gregos, os mesmos gregos que seriam derrotados pelos romanos vários séculos depois – numa clara consciência de que a história humana se traduz numa narrativa comum construída a partir de conflitos, derrotas e vitórias.
Quando os clássicos regressam, marcando o final da Idade Média e inaugurando a modernidade, muitos poetas tentaram replicar as epopeias clássicas, narrando a história dos seus heróis locais. Portugal teve também o seu poeta e a sua epopeia, mas com uma característica específica: ela não versa sobre a história de um herói, mas sobre a história de um povo. E é por isso que não tem um nome singular, mas plural: Os Lusíadas.
2Os Portugueses
Durante muito tempo pensei que se tratava de uma inovação de Camões: um rasgo poético que o fez escrever em nome de um povo e não pela criação de uma personagem mítica, qualquer que ela fosse. Até que conheci o argumento de Henrique Leitão, e que podem ouvir em conversa com José Maria Pimentel ou com Miguel Milhão.
De acordo com Henrique Leitão, esta não é uma particularidade camoniana. O que acontece é que ela reflete uma forma de pensar daquele período (séculos XV e XVI), marcado pelos Descobrimentos que inauguravam uma fase única e verdadeiramente revolucionária no mundo. Pela primeira vez, os homens tinham à sua disposição ferramentas que permitiam a navegação longe da costa e foi essa proeza a garantir uma escala de navegação mundial nunca antes conseguida.
Citando Pedro Nunes, Henrique Leitão recorda que os “descobrimentos não se fizeram indo a acertar”, querendo com isto dizer que não foi por uma questão de sorte. O sucesso português resultou, pelo contrário, da introdução de conhecimentos técnicos e científicos na navegação, o que permitiu, como diz Pedro Nunes, “mareantes muito ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria”.
A consciência deste aspeto revolucionário, quer em Portugal quer no resto da Europa, deu origem ao que Henrique Leitão designa como “anomalia discursiva”, ou seja, um intervalo no discurso de lamentação sobre o país. Durante aquele século e meio, havia a consciência de que estávamos à frente nos avanços científicos, conseguindo fazer em algumas décadas aquilo que os antigos não tinham conseguido fazer em séculos.
Este feito incrível foi historicamente desvalorizado por uma razão que se prende com o método tradicionalmente utilizado para fazer história da ciência e que consiste em explicar a sua evolução com recurso a figuras geniais (os tais heróis). E, de facto, se procurarmos em Portugal, mesmo nesse período, génios da ciência, não os encontraremos – mas encontramos um trabalho coletivo de muitos elementos que construíram as primeiras bases da navegação científica. E, por isso, os textos da altura não falam em génios ou heróis: falam d’os portugueses.
Mas não fujamos ao problema: se fomos assim tão brilhantes, o que aconteceu para que tivéssemos perdido esse impulso? Por que razão fomos capazes de iniciar uma revolução científica na navegação e empreender um projeto nunca antes realizado, mas ficamos depois para trás?
Têm sido avançadas várias respostas a esta questão, mas para Henrique Leitão foi um problema de política educativa. À medida que a matemática e a ciência iam ficando mais complexas, era necessária uma estrutura de ensino mais sólida. Os outros países fizeram-no (em especial, Inglaterra e Holanda); nós, não, pelo que ficamos para trás.
3 Um colosso com pés de barro
É difícil não sentir um calor na barriga quando ouvimos Henrique Leitão. Um calor que resulta da afeição pelo próprio país, e que devíamos cultivar, não como forma de arrogância, mas porque só é possível melhorar aquilo que amamos.
O problema é que é cada vez mais difícil amar um país e tornarmo-nos dispostos a fazer sacrifícios para o melhorar – em vez da solução de emigrar, como o discurso que medra entre os jovens estudantes –, quando o discurso público e escolar é marcado pela tentativa permanente de desvalorizar o patriotismo, o compromisso comunitário e, em particular, a história e o passado do país.
Como historiador da ciência, é natural que Henrique Leitão se deixe encantar pela revolução científica empreendida pelos navegadores portugueses. Pela minha parte, o que acho realmente espantoso é a coragem desmedida que era necessária para que aqueles homens se metessem em barcos tão pequenos e se dispusessem a ir por mares nunca antes navegados, sujeitando-se às intempéries de que já tinham ouvido falar, mas sobretudo aos medos que desconheciam e que nos aparecem à noite como sonhos pegajosos.
Pela minha parte, fico espantada com a coragem. Em particular, pela comparação com os medos que preocupam e paralisam as gerações mais novas, e que passam por recear testes, tipos de comida e… palavras. Para onde foi toda aquela coragem? Sim, já sabemos que foram cometidas atrocidades – e bem terríveis – em todo esse processo (a história está cheia delas): e, ainda assim, que coragem.
E é difícil não nos lembrarmos dessa coragem quando ouvimos falar na resolução recentemente aprovada pela ONU, que usa o estratagema de declarar que a escravatura foi o maior crime cometido contra a humanidade para fundamentar, politica e talvez juridicamente, o pagamento de reparações a certos países. O tema já foi discutido por Miguel Morgado e por João Pedro Marques, sempre incansável nesta luta, em relação às questões mais técnicas. Mas não queria deixar de fazer notar como, culturalmente, a Europa tem feito solidamente o caminho para o declínio da coragem.
O fenómeno não é novo. Vejamos as palavras de Alexandre Soljenitsin no final da década de 1970:
“É, talvez, o declínio da coragem o que mais chama a atenção dum estrangeiro no Ocidente de hoje. A coragem cívica não só desertou globalmente do mundo ocidental, mas também de cada um dos países que o compõem, de cada um dos seus governos, de cada um dos seus partidos e, bem entendido, da Organização das Nações Unidas [e] é particularmente sensível na camada dirigente e na camada intelectual dominante (…).”
A Europa, outrora um gigante intelectual, cultural e político, parece-se hoje com o colosso de pés de barro descrito no livro de Daniel:
“uma enorme estátua (…) de um brilho extraordinário, mas de um aspeto terrível. Esta estátua tinha a cabeça de ouro fino, o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro, os pés metade de ferro e metade de barro.” (Dn 2, 31-35)
E quando uma pedra se desprendeu da montanha e bateu naqueles pés de ferro e argila, os pés ficaram esmigalhados e tudo se transformou em pó levado pelo vento sem deixar vestígio.
A base de qualquer civilização – os seus pilares – tem de estar assente em amor próprio e coragem, sob pena de facilmente desaparecer. E é por essa razão que a complacência dos dirigentes da ONU e dos países europeus que se abstiveram na resolução se torna vergonhosa. Será preciso lembrar, como nos diz Soljenitsin,
“que o declínio da coragem foi sempre considerado como um sinal precursor do fim?”