Quando D. José Ornelas foi eleito para presidir à Conferência Episcopal Portuguesa, nunca acompanhei o entusiasmo, se é que o houve, que rodeou essa decisão. Pareceu-me, desde o início, uma escolha determinada por razões ideológicas claras: a vontade de afirmar em Portugal uma determinada sensibilidade eclesial, vista como próxima do estilo do pontificado do Papa Francisco, e de colocar à frente da CEP um rosto identificado com essa agenda. A expectativa criada assentava mais no simbolismo da escolha do que na demonstração prévia de uma capacidade excecional de liderança.
Importa ainda recordar que suceder a Manuel Clemente não era tarefa simples. D. Manuel Clemente era uma figura socialmente valorizada, amplamente reconhecida no espaço público, intelectualmente respeitada e doutrinalmente segura. Tinha presença institucional, autoridade natural e uma capacidade rara de falar ao país sem perder densidade eclesial. Quem lhe sucedesse teria sempre de enfrentar um padrão exigente.
Também a sua posterior reeleição para o segundo mandato merece leitura crítica. Não resultou de todo do consenso de uma continuidade. Recorde-se que o próprio D. José Ornelas chegou a transmitir à comunicação social a ideia de que não voltaria a aceitar presidir à CEP. Porém, acabou novamente por ser reeleito. Esse volte-face político fragilizou a credibilidade da palavra dada e reforçou a perceção de uma liderança mais condicionada pelas circunstâncias do que guiada por convicções firmes. A reeleição resultou igualmente, de forma evidente para muitos observadores, da falta de disponibilidade de outros bispos para assumir o ónus de liderar a Igreja portuguesa num dos momentos mais difíceis da sua história recente, depois do desgaste provocado pela gestão da crise dos abusos. Em vez de sinal de confiança renovada, a reeleição pode ser entendida também como sintoma de vazio de alternativas e de relutância generalizada em herdar um cenário profundamente fragilizado.
Seis anos depois, a avaliação do mandato é severa. O traço mais constante desta presidência foi a fragilidade da comunicação. Mesmo em final de mandato, nos dias recentes, D. Ornelas não resiste à tentação de falar, ou como dizia Raúl Solnado, “dizer coisas”. Durante este ciclo a Igreja portuguesa assistiu repetidamente a mensagens confusas, declarações contraditórias, correções posteriores e incapacidade de fixar uma narrativa clara em momentos decisivos. Em vez de transmitir segurança, a presidência da CEP tornou-se frequentemente fonte adicional de ruído.
Essa deficiência tornou-se particularmente visível na crise dos abusos sexuais. O país exigia uma liderança capaz de unir verdade, justiça e prudência. O que encontrou foi hesitação, linguagem infeliz e ausência de uma estratégia comunicacional consistente. A gestão pública do processo oscilou entre defensiva institucional e improviso. A autoridade moral da Igreja não se recompõe apenas com comissões ou comunicados; recompõe-se com lucidez, humildade e clareza - precisamente o que tantas vezes faltou.
Acresce que, sob a sua liderança, se permitiu um modelo de receção de denúncias anónimas e insuficientemente escrutinadas que, na perceção de muitos, abriu espaço a injustiças graves. Vários sacerdotes viram o seu nome publicamente associado a suspeitas sem qualquer proteção institucional eficaz, sem garantias mínimas de contraditório e sem que a Conferência Episcopal assumisse uma defesa clara da presunção de inocência. Defender vítimas e proteger direitos fundamentais nunca foram objetivos incompatíveis. O problema foi ter parecido que apenas um deles merecia atenção.
Também a chamada Comissão Independente levantou reservas legítimas. Independentemente da boa-fé pessoal dos seus membros, nunca conseguiu dissipar plenamente a perceção pública de proximidade ideológica, enviesamento metodológico e insuficiente distanciamento crítico face ao objeto que avaliava. Uma comissão desta natureza exigia não apenas independência real, mas independência visível e consensualmente reconhecida. Essa confiança nunca foi total.
A própria linguagem usada em momentos decisivos agravou o desgaste. Quando se recusou uma “caça às bruxas”, a expressão tornou-se símbolo de uma comunicação falhada: em vez de recentrar o debate, incendiou-o. Quando se distinguiu entre “ajuda” e “indemnização” às vítimas, a nuance jurídica soou, para muitos, a fuga moral. E quando repetidamente se optou por fórmulas vagas em vez de posições claras, a sensação pública foi a de uma liderança sempre atrasada em relação aos acontecimentos. Até as diabólicas tributações fiscais vieram infernizar o final de mandato de D. Ornelas.
No processo dos Abusos Sexuais recorde-se que a Igreja em Portugal pareceu não retirar as devidas lições do que sucedera em França. O debate francês já mostrara os riscos metodológicos e comunicacionais do recurso a projeções estatísticas massificadas, da confusão entre estimativas e factos comprovados, e do impacto devastador que números mal-enquadrados podem ter na perceção pública. Em Portugal, em vez de prudência redobrada, assistiu-se a uma repetição de erros: aceitação acrítica de metodologias discutíveis, ausência de contraditório robusto e incapacidade para explicar ao público distinções essenciais entre denúncia, estimativa e prova. O resultado foi um dano acrescido para vítimas, fiéis e instituições.
Outro dos momentos reveladores deste mandato foi o processo sinodal. Apresentado como grande oportunidade de escuta e renovação, acabou por expor fragilidades antigas: desorganização, participação desigual, ausência de critérios claros e um documento final amplamente considerado pobre, genérico e pouco representativo da riqueza, e também dos conflitos reais, do catolicismo português. O relatório enviado para Roma soou burocrático, previsível e intelectualmente débil. Num processo que exigia profundidade espiritual e pensamento pastoral sério, Portugal apresentou um texto sem densidade, incapaz de entusiasmar ou de influenciar.
Entretanto, a própria figura do presidente da Conferência Episcopal foi sendo transformada. Em vez de voz institucional reservada para os grandes temas eclesiais e nacionais, o cargo deslizou frequentemente para o comentário quase permanente sobre matérias políticas e conjunturais. O presidente da CEP tornou-se, em vários momentos, uma espécie de opinador público.
Também na esfera pública e na ocupação de lugares institucionais a sua presença pareceu frequentemente indiferente, sem especial deferência social ou centralidade simbólica. Faltava-lhe, muitas vezes, a gravitas que certos cargos exigem. Até a sua própria apresentação externa gerou interrogações: a imagem recorrente de informalidade excessiva, por vezes mais próxima de um anoraque gasto do que da sobriedade própria da função episcopal, deixava no ar a dúvida sobre o que pretendia representar. A simplicidade pode ser virtude, a desinstitucionalização permanente nem sempre o é.
Houve ainda episódios simbolicamente reveladores, como a questão da mensagem de Natal na RTP. Depois de D. Manuel Clemente entender que essa intervenção nacional deveria caber ao presidente da CEP e não automaticamente ao bispo de Lisboa, um erro crasso de Manuel Clemente, creio, esperava-se natural afirmação do novo modelo. Porém, D. José Ornelas acabaria por passar pela humilhação, sobretudo interna, de não ver transmitida a “sua” mensagem natalícia. A tradição sempre identificara o Patriarca de Lisboa com esse momento simbólico, e Rui Valério, ao retomar essa prática, restituiu normalidade institucional a um campo onde a experiência anterior revelara falta de peso público.
No momento de escolher um sucessor, a Igreja portuguesa não dispõe de um leque vastíssimo de nomes com estatura suficiente para inaugurar um novo ciclo, agora no tempo do Papa Leão. Por razões diferentes, apenas duas figuras parecem surgir como putativos “candidatos”: Rui Valério e Américo Aguiar.
O Cardeal Américo Aguiar possui qualidades que não devem ser ignoradas. Tem presença pública, capacidade de comunicação, energia pessoal e manifesta convicção de fé. Nos últimos tempos, é visível o esforço que tem feito para se afirmar como candidato legítimo a responsabilidades maiores na Igreja portuguesa. Ainda assim, carrega limitações evidentes: não é figura consensual na opinião pública, surge frequentemente como excessivamente partidário e, por vezes, com um estilo demasiado provinciano para a escala das funções em causa. Tem mérito e ambição; resta saber se tem a universalidade institucional que o cargo exige.
Já o Patriarca Rui Valério reúne atributos de outra natureza e de outro alcance. Trouxe serenidade, densidade espiritual e sentido de autoridade ao Patriarcado de Lisboa. Tem postura institucional, linguagem clara, equilíbrio doutrinal e uma sobriedade que contrasta favoravelmente com a volatilidade comunicacional dos últimos anos. Sabe falar sem agitar, afirmar sem ferir e representar sem teatralidade. A sua presença pública devolveu à Igreja um tom de gravidade serena e de credibilidade discreta.
As suas intervenções públicas têm revelado clareza no essencial: insistência na esperança cristã em tempos de incerteza, defesa de uma Igreja próxima sem renunciar à verdade, apelo à responsabilidade social e consciência de que a fé não pode ser reduzida a comentário político. Quando fala, percebe-se sentido de missão e não mera ocupação mediática do espaço público. Num tempo saturado de ruído, essa diferença vale muito.
Acresce que conhece bem a realidade portuguesa, mas não está prisioneiro dos seus pequenos círculos. Tem experiência pastoral, maturidade humana e a vantagem simbólica de ocupar a sede patriarcal de Lisboa, que historicamente conserva centralidade e projeção nacional. Sem necessidade de protagonismos artificiais, parece possuir aquilo que mais faltou nos últimos anos: naturalidade no exercício da autoridade.
Mais do que desilusão, porém, o legado de D. José Ornelas termina noutra chave: a da indiferença e do descrédito. Não deixa saudade institucional, não deixa marca reformadora reconhecida e não deixa uma referência pública capaz de mobilizar. O país habituou-se a vê-lo sem especial atenção e a escutá-lo sem particular expectativa. Para quem chegou envolto em narrativa de mudança, o desfecho é politicamente duro: não a contestação apaixonada, mas a erosão silenciosa da relevância.