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Teatro da inovação: a ilusão que sai cara

Entre pufes, hackathons e comunicados de imprensa, muitas empresas confundem inovação com espetáculo. O problema é que, quando o palco se desmonta, raramente sobra impacto real.

Tomás Moreno
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Pufes, óculos de realidade virtual e outras encenações que não mudam nada Há algo que se repete em empresas de todo o mundo e que já devia ter nome próprio — na verdade, já tem: chama-se teatro da inovação. O cenário é quase sempre o mesmo. Uma sala luminosa, mobiliário descontraído, post-its coloridos na parede. Um ecrã gigante com a palavra “disrupção”. Alguém de ténis e sem gravata a falar sobre a importância de “pensar fora da caixa”. E, algures na plateia, um grupo de colaboradores que já percebeu que aquilo não vai mudar rigorosamente nada.

Não me interpretem mal: não tenho nada contra pufes. Nem contra hackathons, laboratórios de inovação ou sessões de design thinking. Antes pelo contrário! O problema começa quando estas atividades existem mais para parecer do que para produzir. Quando se tornam rituais de aparência, desenhados para impressionar investidores, entreter administrações e preencher relatórios anuais com fotografias inspiradoras. Teatro, no sentido mais literal da palavra: há palco, há figurinos, há uma audiência. Mas quando o pano cai, ninguém sabe muito bem o que ficou.

O teatro da inovação é mais comum do que se pensa e é mais nocivo do que parece. Pensem nas sessões intermináveis de post-its que nunca saem do quadro. Nas incubadoras corporativas que produzem protótipos que depois não escalam. Nos projetos “moonshot” anunciados com pompa em comunicados de imprensa que, um ano depois, desapareceram silenciosamente da conversa. Tudo isto cria uma ilusão de progresso, uma espécie de cortina de fumo que esconde um problema mais profundo: a ausência de compromisso com a transformação a sério.

Mas porquê? Porque é que empresas competentes, com pessoas inteligentes, caem nesta armadilha? A resposta é desconfortavelmente simples: porque o teatro é mais fácil do que a realidade. Organizar um workshop bonito é incomparavelmente mais simples do que reformular um modelo de negócio com vinte anos. Publicitar um projeto-piloto vistoso exige menos coragem do que questionar uma fonte de receita enraizada. Enviar um press release com fotografias de administradores e startups é menos doloroso que questionar uma organização. E, convenhamos, numa era em que “inovação” se tornou a palavra mais usada, e mais abusada, do vocabulário empresarial, os líderes sentem uma pressão enorme para mostrar que estão a fazer alguma coisa. Mesmo que essa alguma coisa seja, na essência, um mero adereço.

As consequências são, no entanto, tudo menos decorativas. Comecemos pelo mais óbvio: o desperdício de recursos. Laboratórios que custam fortunas a montar e a manter, eventos que mobilizam dezenas de pessoas durante dias, consultores externos que chegam com frameworks sofisticados e partem sem deixar nada de concreto. Tudo isto tem um custo. Mas o dano mais profundo não é financeiro: é cultural. Quando os colaboradores veem as suas ideias celebradas num palco e ignoradas na prática, algo se parte. O entusiasmo dá lugar ao cinismo. A vontade de contribuir é substituída por um encolher de ombros coletivo — “lá vem mais uma iniciativa de inovação que não vai dar em nada.” E quando uma organização perde a confiança das suas próprias pessoas, perdeu muito mais do que dinheiro. Perdeu a capacidade de mudar.

Há ainda um custo de oportunidade raramente contabilizado: enquanto a empresa se entretém com inovação performativa, deixa de investir em capacidades genuínas que poderiam, essas sim, impulsionar  crescimento futuro. O tempo e a energia gastos no teatro são tempo e energia roubados à substância.

A boa notícia é que a saída existe e não é complicada – é exigente, que é diferente. O primeiro passo é mudar aquilo que se mede. Em vez de contar hackathons realizados ou protótipos apresentados, as organizações devem acompanhar métricas que realmente importam: receitas geradas por novos produtos, taxas de adoção pelos clientes, melhorias concretas no tempo de chegada ao mercado. A inovação deve ser avaliada pelo impacto que produz, não pelos gostos que recebe. Enquanto o sucesso for medido em fotografias e comunicados de imprensa, o teatro vai continuar em cartaz.

O segundo passo é integrar a inovação na estratégia central da empresa não como um acessório glamoroso, mas como parte do motor. O progresso real acontece quando a experimentação está alinhada com as prioridades do negócio. Um hackathon que produz uma aplicação sem qualquer ligação às necessidades dos clientes é entretenimento. Uma equipa multidisciplinar que reinventa a eficiência de uma cadeia de abastecimento – isso é inovação a sério.

O terceiro passo, e talvez o mais difícil, é criar espaço para falhar. Muitas organizações adoram celebrar histórias de sucesso, mas penalizam ferozmente o erro. O resultado é previsível: as pessoas refugiam-se em projetos seguros e meramente performativos, porque ninguém quer arriscar a carreira numa ideia que pode não funcionar. Ora, a verdadeira inovação exige risco. E risco significa, por definição, que algumas apostas vão correr mal. Os líderes que querem inovação a sério têm de normalizar o fracasso como ferramenta de aprendizagem e não como mancha no currículo.

Por fim, é preciso investir em sistemas e não em slogans. A inovação não é um evento pontual nem um discurso inspirador. É um processo contínuo, que precisa de governação clara, financiamento ágil, equipas capacitadas e sobretudo o compromisso da administração. Sem estas fundações, até as ideias mais brilhantes acabam por morrer na gaveta, sufocadas pela burocracia ou pela indiferença.

O teatro da inovação não é uma distração inofensiva é uma distração existencial. Num mundo onde a disrupção não pede licença nem marca hora, nenhuma empresa se pode dar ao luxo de fingir que está a inovar enquanto que, na verdade, está apenas a encenar. Os clientes não querem saber se o laboratório tem pufes bonitos e óculos de realidade virtual. Querem soluções que lhes resolvam problemas e melhorem a vida. E essa sim, é uma atuação que vale a pena levar a sério.