Um destes dias atribuí onze valores ao trabalho de uma aluna. Pouco depois, ela pediu para conversar comigo. Estava, sobretudo, decepcionada com a nota que lhe tinha dado. Seja como for, tivemos uma conversa amena dizendo-lhe eu que o trabalho era demasiado telegráfico, com alguns erros ortográficos, descritivo, sem se sentir uma síntese ou um rasgo pessoal em que a visse a pensar sobre o tema que escolheu. Ela, com enorme delicadeza, contra-argumentou sempre e, depois de algum tempo de conversa, numa última tentativa para que eu reconsiderasse, disse-me, com uma ingenuidade tocante:
– Mas, professor, foi o Chat GPT que fez o trabalho…
Eu fiquei em silêncio. Não fosse por nada, talvez ela merecesse mais dois ou três valores. Só pela gratidão de me ter dado a oportunidade (única!) de dar uma nota ao Chat GPT. Afinal, tinha sido bem mais benevolente do que tinha pensado…
Seja como for, a mim preocupa-me que no terceiro ciclo eles pensem que podem ser um bocadinho mais relaxados com o estudo porque no ensino secundário é que será a sério. E depois de entrarem na universidade, com a onda de avaliações por trabalhos, haja cada vez mais alunos que assumam que fazer cadeiras e ter resultados se sobreponha às aprendizagens indispensáveis. E que partam do princípio que quando, finalmente, entrarem no mundo do trabalho é que será a sério. Isto é, muitos deles (mesmo muitos!) quando chegam ao ensino superior retomam vícios de forma do terceiro ciclo. Numa espécie de logo se vê.
Entretanto, no secundário, não lêem os livros; consultam pdf’s e resumos. Já no ensino superior, estudam pelos slides dos professores enquanto põem o Chat GPT a fazer os trabalhos por eles. A escola não está a ensinar a procurar, a formular problemas, a discorrer, a sintetizar e a pensar. Corre o enorme risco de não os ensinar a pescar. E está a avaliar com as respostas que eles encontram directamente nas páginas das soluções…
Se o Chat GPT fosse inteligente e soubesse tudo não tinha só respostas mas, antes delas, sabia ter dúvidas. No entanto, o Chat GPT nunca tem dúvidas! Logo, será com esta utilização escorregadia que ele também propicia que os alunos se tornam mais inteligentes? Ou a inteligência artificial de muitos resultados e de bastantes boas notas será, sobretudo, inteligência… artificial? Valha-lhes o privilégio de virem a aproveitar os enganos com que se tornarão mais inteligentes. Resta saber com que custos. E se não estamos todos a deixar que eles façam de conta que são mais inteligentes do que estão a ser. Por mais que sejam muitíssimo mais capazes do que imaginam.
Os bons alunos, ao contrário do que lhes fomos dizendo, não são (só) de respostas prontas. Têm dúvidas na ponta da língua.