(c) 2023 am|dev

(A) :: Pogacar passou cortes, vento e furos. Passou tudo menos Wout: Van Aert foi um diabo à solta no "Inferno do Norte" para vencer Paris-Roubaix

Pogacar passou cortes, vento e furos. Passou tudo menos Wout: Van Aert foi um diabo à solta no "Inferno do Norte" para vencer Paris-Roubaix

Principais candidatos furaram pelo menos uma vez, Van der Poel perdeu dois minutos a trocar de bicicletas, Van Aert e Pogacar lutaram a dois pela glória – e o belga ganhou, em memória de Goolaerts.

Bruno Roseiro
text

Até determinada altura, entrar numa corrida contra Tadej Pogacar era sobretudo um desafio. Porque até os melhores têm dias maus. Porque não há nada que desafie mais os limites do que estar na luta com o número 1. Porque a parte tática no ciclismo terá sempre uma importância maior do que aquilo que se possa pensar. Agora, a realidade era diferente. Entrar numa corrida contra Tadej Pogacar era saber que a primeira posição estaria à partida entregue. Porque quando se foca num objetivo, é difícil conseguir inverter o rumo natural da corrida. Porque tem uma capacidade sobrenatural de ler os momentos para nunca ser surpreendido. Porque onde está, só não ganha se não quiser. Quer isso dizer que era imbatível? Em quase todas as provas, sim. Em momentos específicos, talvez não. E assim como Jonas Vingegaard acredita que é possível ganhar mais uma vez o Tour mesmo com o esloveno na corrida, outros sonhavam com essa “surpresa” no Paris-Roubaix.

https://observador.pt/2025/04/13/no-quintal-de-mathieu-nem-um-extraterreste-consegue-entrar-van-der-poel-vence-paris-roubaix-pela-terceira-edicao-consecutiva/

Mathieu van der Poel, que de forma racional até devia partir como favorito, era um desses exemplos. Quando muito se falava na possibilidade de Pogacar ser apenas o quarto na história a ganhar os cinco Monumentos, o neerlandês poderia tornar-se o primeiro a conquistar em quatro ocasiões consecutivas aquilo que muitos apontam como o “Inferno do Norte”. O teste na Milão-Sanremo não foi o melhor, não indo além de um oitavo lugar numa corrida em que apenas Thomas Pidcock ousou com sucesso andar na roda de Pogacar após o derradeiro ataque do corredor da UAE Team Emirates, mas este era uma espécie de terreno sagrado para a referência da Alpecin, que apostava tudo em manter-se na sombra para “explodir” no momento chave.

“Em Roubaix não há propriamente um cenário previsível como na Ronde, onde sabemos que o Vieux Quaremont será um ponto muito importante. Pode decidir-se em muitos momentos e é isso que torna Roubaix tão belo. É muito difícil fazer uma tática antes de Roubaix. Podem acontecer muitas coisas, como furos, avarias, etc. É preciso ter um pouco de sorte e pernas para ganhar esta corrida. Se ganhar, ficarei feliz. Seja ao sprint ou a solo, o resultado é o mesmo. O meu nível tem sido muito bom, embora haja ciclistas melhores, especialmente o Tadej [Pogacar], que está muito forte este ano. Já tenho um nível muito elevado e trabalhei arduamente para o alcançar. Mas se ele for ainda mais forte, é simples: tenho de esperar ter um dia muito bom no domingo para o vencer”, admitira Mathieu van der Poel antes da icónica corrida francesa.

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2042556095764295780

Do lado de Tadej Pogacar, o único caminho era “libertar” a pressão que estava concentrada nos seus ombros, ainda mais depois da forma como ganhou a Milão-Sanremo e a Volta a Flandres depois da Strade Brianche. “Se vi a curva onde caí em 2025 no reconhecimento? Sim, não. No ciclismo caímos com frequência, por isso não nos devemos preocupar com uma curva. Tenho agora um pouco mais de experiência, não muita. Espero ter aprendido alguma coisa com o que se passou no ano passado para poder lutar pela vitória. Se é uma obsessão? Não, não é uma obsessão. Não é segredo que a Paris-Roubaix está nos principais objetivos que tenho para esta temporada mas sei que vou aproveitar qualquer que seja o resultado. Temos uma equipa forte, com corredores que já estiveram no pódio, o que vai ajudar”, referira Pogacar, que deu nas vistas por alguns dos registos que fizera em treino, nomeadamente no 16.º segmento de paralelepípedos depois de mais de 180 quilómetros de prova, entre Warlaing e Brillon, onde estabeleceu um novo recorde desse troço.

https://twitter.com/2010MisterChip/status/2040805284134748604

Se dúvidas ainda existissem, a possibilidade de Tadej Pogacar alcançar aquilo que apenas os belgas Roger De Vlaeminck, Rik Van Looy e Eddy Merckx tinham conseguido atraía outros pontos de interesse e um deles era mesmo a presença dos pais, Mirko e Marjeta, que falaram a um canal belga sobre essa primeira presença no local da prova do filho. “É importante estarmos aqui porque não vemos o Tadej com muita frequência. Só queremos que ele chegue ao Velódromo inteiro”, dissera a mãe do corredor, que falhara a prova anterior por um problema de última hora. “É importante estarmos aqui porque não vemos o Tadej com muita frequência. Estivemos no hotel da equipa e estava de bom humor, calmo e ansioso. Não estamos nervosos, só receosos de que possa acontecer alguma coisa. É perigoso, há acidentes, estradas más, velocidade. Fazer história? Para nós, o importante é que corra, que faça o que ama. Para nós não é tão importante para para todos os outros se ele ganha ou não, se não der desta vez, haverá outra”, acrescentou Marjeta Pogacar.

https://twitter.com/NBCSCycling/status/2043348355246420056

Estavam lançados todos os dados para uma das mais duras e míticas clássicas da temporada, num total de 258,3 quilómetros que trazia algumas novidades para esta edição de 2026 como a sequência mais marcada de setores quase sem asfalto numa fase inicial de pavé onde podiam ser feitos mais cortes (num total de 30 setores de empedrado com quase 55 quilómetros) antes da entrada no velódromo de Roubaix, onde estaria a decisão da corrida a solo ou ao sprint após longas seis horas de prova. E era isso que juntava mais nomes aos dois supracitados entre os principais aspirantes a levantar o célebre paralelepípedo do troféu, como Wout van Aert, Mads Pedersen, Jasper Philipsen e Filippo Ganna, numa corrida que contaria também com dois portugueses, António Morgado e Rui Oliveira, na equipa da UAE Team Emirates de Tadej Pogacar.

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2043256209130529167

Apesar de algumas tentativas iniciais de fuga, as principais equipas iam com lição bem estudada. Sobretudo havia uma convicção: esta edição não estava para facilitismos desde início, como se viu num pequeno susto de Pogacar a abrir quando ficou cortado do grupo da frente sem que se percebesse ao certo a razão antes de voltar a colar. Foi assim que, com uma média fortíssima de 54 km/hora, se chegou ao setor 30 que trazia o primeiro pavé – e os primeiros desafios. Porquê? Tudo o que dependia apenas dos corredores e das equipas podia mesmo assim ser curto perante a panóplia de imprevistos que podiam surgir. Exemplos: a Visma Lease-a-Bike teve um trabalho excelente nas aproximações aos setores mas Wout van Aert teve um problema mecânico e ficou demasiado para trás no grupo, a Lidl-Trek dizia estar preparada para tudo o que fosse problemas com pneus mas Mads Pedersen encostou logo a abrir. Com isso, os corredores depois tinham de arriscar muito mais, gastar muito mais energias e esperar que uma queda não os cortasse. Tudo contava.

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2043277792750522420

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2043287850058223835

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043311348264603956

O primeiro setor, neste caso o setor 30 entre Troisvilles e Inchy, tinha passado, o setor 28 que era o primeiro com quatro estrelas também, a UAE Team Emirates estava a dominar por completo com o fantástico Bigode Voador a ter um grande trabalho tal como Rui Oliveira, que acabaria por ser o primeiro da equipa a ter de encostar com um furo. No entanto, muita história estava por contar. Mesmo muita. E bastaram menos de 30 quilómetros para tudo mudar: Pogacar furou quando a equipa ia na frente, recuperou o trajeto tendo já 45 segundos de atraso, o grupo da frente tentou puxar sobretudo por Wout van Aert para chegar ao mítico setor de Arenberg com o esloveno ainda longe, o campeão mundial conseguiu abafar essa desvantagem. Havia um candidato de novo no primeiro grupo, estava prestes a cair mais um candidato no primeiro grupo.

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043299844660335063

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043304149211648257

Mathieu van der Poel ainda tentou também outro ritmo antes de Arenberg mas o azar também lhe bateu à porta e em dose dupla, no episódio que marcou esta Paris-Roubaix: o neerlandês furou, Jasper Philipsen deu de imediato a sua bicicleta ao chefe de fila esquecendo-se que não tinha um encaixe igual a van der Poel, o neerlandês teve de voltar a sair dessa bicicleta (com Philipsen a ter a corrida também estragada), recebeu mais uma bicicleta de um companheiro de equipa enquanto não chegava o carro da equipa, teve um novo furo na roda da frente e só depois conseguiu restabelecer ritmo numa bicicleta “sua”, tendo quase dois minutos de atraso em relação à frente. Era o fim da corrida ou o início da remontada do século.

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043314420391063889

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043318190634062134

Mas calma, apesar de tudo era apenas o início. A Paris-Roubaix é uma constante caixinha de surpresas onde num instante tudo muda. Aqui não foi assim de forma literal mas também não andou longe. Filippo Ganna, que andava na frente com Pogacar, Mads Pedersen, Wout van Aert, Christophe Laporte (a Visma era a única equipa com dois corredores), Stefan Bissegger (Decathlon-CMA CGM) e Jasper Stuyven (Soudal-Quick Step), teve um furo e ficou para trás depois de uma corrida onde fintou várias vezes colocações que deixavam muito a desejar sem apoio de mais corredores da Ineos. Pouco depois, Pogacar voltou a ter problemas com a sua bicicleta e teve também de encostar para trocar. De seguida, quando o esloveno fazia um esforço para colar de novo na frente, Wout van Aert teve de trocar de bicicleta. E a própria Red Bull-Bora, que como bloco ia fazendo uma corrida muito positiva, também registou os mesmos problemas. Era o caos autêntico.

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043318301409870178

A cerca de 60 quilómetros, Pogacar, Mads Pedersen, Bissegger, Laporte, Van Aert, Stuyven, Laurence Pithie e Jordi Meeus (estes dois últimos da Red Bull) seguiam na frente, a 55 quilómetros aquilo que parecia uma utopia começava a ser real: Mathieu van der Poel ainda podia colar com os primeiros classificados, tendo em conta todas as incidências que se iam passando na frente. Mais: o vencedor iria provavelmente surgir do corredor que menos esforço tivesse feito para chegar ao primeiro grupo, mais do que qualquer tática. Antes de nova entrada de um setor de pavé, Wout van Aert atacou, Pogacar respondeu deixando Pedersen mais descolado, o belga voltou a forçar percebendo-se que estava a deixar o esloveno com mais problemas para se manter colado (sendo que quase caiu a certa altura numa curva), havia outro elemento da Red Bull a surgir e que foi o único a conseguir agarrar no ritmo infernal que Mathieu van der Poel levava: Mick van Dijke.

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043318688149868747

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043319313709322540

Até aí tudo e mais alguma coisa tinha acontecido, a partir daí só uma coisa havia para acontecer: Wout van Aert e Tadej Pogacar tinham na mão a vitória com uma parte final fortíssima mas ficava por saber ainda qual iria ser o primeiro a cortar a meta. Pogacar foi tentando arriscar em zonas mais complicadas para van Aert responder da melhor forma, van Aert foi passando apenas nas fases em que podia respirar sem ser atacado para manter a corrida como queria. Ninguém descolou até à entrada no velódromo e, aí, todos sabiam o que ia acontecer: o belga era muito mais forte do que Pidcock, como aconteceu na Milão-Sanremo, e bastou um ataque fulminante na última volta para “rebentar” por completo Pogacar para a vitória naquele que foi o segundo Monumento da carreira de quem, em 21 provas destas, fez 18 top 10 e quase dez pódios.

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043331056086982866

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043338648775496167

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043342129037021350

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043334968181469384

Quando todos os olhos estavam focados em Mathieu van der Poel e Tadej Pogacar, Wout van Aert assumiu a batuta de mais um hino ao ciclismo num Inferno do Norte que não deu tréguas a nada nem ninguém e fez um sprint para a história que teve uma dedicatória especial: Michael Goolaerts, belga que era companheiro do vencedor de 2026 na edição de 2018 e que perdeu a vida depois de uma queda na Paris-Roubaix. Oito anos depois, a homenagem de quem nunca esqueceu o amigo chegou com uma vitória para a história.

https://twitter.com/vismaleaseabike/status/2043337914994549024

https://twitter.com/TeamEmiratesUAE/status/2043334468723790176

https://twitter.com/parisroubaix/status/2043338674947948848

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2043339062958768219