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(A) :: Há jogadores que ainda sabem Prest(ianni)ar atenção a Mourinho (a crónica do Benfica-Nacional)

Há jogadores que ainda sabem Prest(ianni)ar atenção a Mourinho (a crónica do Benfica-Nacional)

Mourinho fez três mexidas, construiu uma nova ala às direitas com Prestianni a abrir o livro e deu sentido ao que Schjelderup mostra na esquerda. A mensagem do técnico passou – mas nem sempre (2-0).

Bruno Roseiro
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Um empate frente ao Casa Pia, o nono da temporada, um sem número de convulsões com 1.001 teorias sobre tudo e mais alguma coisa a propósito do futuro. Os dois pontos que ficaram em Rio Maior tiveram o condão de agitar e muito o universo benfiquista – das críticas de José Mourinho a alguns jogadores (que não foram identificados) ao admitir que o objetivo do título parecia estar de vez comprometido, passando pela posição do presidente Rui Costa a assumir que a época não tem corrido conforme planeado sem deitar “a toalha ao chão” sobre a possibilidade de chegar ainda ao topo da classificação ou pelo cenário de permanência ou não do técnico. Mais do que a igualdade numa equipa que ainda não perdeu no Campeonato mas que está longe das principais metas delineadas, o deslize quando a margem era nula para que tal acontecesse teve impacto. Até que ponto? Só os próximos meses dirão. No entanto, foi daí que nasceu um Mourinho “diferente”.

https://observador.pt/liveblogs/benfica-nacional-aguias-tentam-regressar-aos-triunfos-na-liga-apos-deslize-com-casa-pia/

O técnico não se escudou em nada na primeira aparição pública após a conferência de imprensa no pós-jogo em Rio Maior – não comentando apenas o nome dos visados que admitiu ter vontade de “encostar” caso não fossem ativos do clube e como tal não pudessem ser deixados de fora. Sobre o Nacional, apenas uma questão e uma resposta de sentido único, entre elogios à capacidade dos madeirenses e a necessidade de voltar já aos triunfos depois do empate com o Casa Pia. “É uma equipa bem treinada, que sabe defender muito bem, com quatro ou com cinco, que defendem ainda melhor quando estão com um bloco baixo. É uma equipa perigosa em contra-ataque. É isso que espero: uma equipa a vir jogar para o ponto, sem perder de vista a possibilidade de levar pontos. Nós precisamos muito de ganhar, por todas as razões e mais alguma. Precisamos muito de ganhar”, apontou, sem deixar passar aquilo que considera ser a escassez de tempo útil de jogo.

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“Jogos de 50 minutos achava que era uma coisa da Turquia, mas afinal é igual ou pior em Portugal. Em jogos de 50 minutos, tens de martelar e acabar o jogo o mais rapidamente possível. Não podes ter este tipo de abordagem em que o adversário pode ficar totalmente instalado. Depois, quando fazes o golo e saltas o muro, não podemos sofrer o golo que sofremos, tal como não podemos sofrer o golo que sofremos em casa com o Rio Ave, não podemos também sofrer o golo que sofremos em casa contra o Santa Clara… Utilizei no outro dia uma expressão com os jogadores que se calhar é uma expressão triste mas telefonarem a dizer que estão a assaltar a tua casa com a tua família lá dentro, quanto tempo demoras a chegar a casa? Voas. Voas. No futebol é um bocadinho isso. No lance do empate tivemos três hipóteses para tirar a bola. Amigo, põe a bola na bancada, é lançamento lateral, defendes e ganhas 1-0 num jogo em que foste pobre mas ganhaste. Tenho de ser mais agressivo, mas eloquente com eles. Se houver algum com 27 títulos que me queira criticar, eu aceito. Com menos de 26, acho que eu é que estou certo”, apontou, num mote para o que seria a conferência.

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Mais do que nunca, Mourinho puxou dos seus “galões”. Voltou a reforçar o desejo de continuar no Benfica na próxima temporada, referiu que apenas cinco treinadores não mudariam em nada o seu plantel face ao que têm nesta altura (todos estrangeiros e a lutar pela Premier ou pela Champons, apesar de não ter chegado a essa parte nas próprias palavras, “e que além da autonomia no mercado estão-se nas tintas para o fair play financeiro”), deu conta de informações incorretas que saíram sobre uma reunião que teve com os jogadores, voltou a abordar a questão dos jogadores que poderia “encostar”. “Não vou referir, não posso referir. Acho que é normal que entre tantas conferências diga coisas que não deva ou coisas que alguns não queiram entender. Inclusive aceito a crítica de ‘Resultado mau, critica os outros e não se autocritica’. Também aceito. Se tenho esse defeito, aceito. Mas é uma consequência de quem sou. Sou alguém que ganhou tudo, e muitas vezes. É consequência de quem sou e do que construí”, atirou o técnico dos encarnados.

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Mourinho marcou uma posição em tudo e para todos, recolocando depois a questão no Benfica e naquilo que esta temporada pode ainda trazer apesar dos sete pontos de atraso para o FC Porto e dos cinco de atraso para o Sporting. “Tenho o sentido de realidade, sou muito realista. A nossa qualificação na Champions esta época reflete muito bem aquilo que o Benfica é o que eu sou. Tive muita responsabilidade na qualificação, quando jogo após jogo havia muita gente morta e enterrada, havia sempre alguém que puxava e agarrava. A forma como nos qualificámos, tem a cabeça de alguém que colocou a bola lá dentro mas também tem o dedo de alguém. Quanto ao Campeonato, matematicamente é possível, não preciso que ninguém me diga. Mas realisticamente vejo difícil que o FC Porto perca sete pontos. Uma coisa são as minhas palavras a dizer ‘acabou’, outra coisa é o meu trabalho diário e dizer para trabalharmos sempre ‘mais, mais e mais’ e ‘melhor, melhor e melhor’. O presidente sabe que não me revejo nessa situação de dizer que desistimos. O que importa é que o Benfica tem de ser mais forte a todos os níveis do que o que foi com o Casa Pia”, frisou.

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Estava dado o mote para a redenção, num dia que começava com a receção do Benfica ao Nacional na Luz e que iria apenas terminar com a deslocação do FC Porto ao Estoril, que poderia definir ainda mais aquilo que podem ser as últimas jornadas da Liga. No entanto, mais do que nunca, era na capacidade de resposta dos jogadores encarnados que tudo se centrava. E, com três alterações no onze que mudou toda a ala direita, a reação não demorou. Pela atitude, pelo compromisso coletivo, pela inspiração individual de um Gianluca Prestianni que parece ter estabilizado em termos emocionais depois de toda a polémica com Vinícius Jr., recuperou da virose que o afetou no regresso da seleção argentina, reassumiu a titularidade na direita e fez pela primeira vez na carreira duas assistências. Mais do que os passes para golo, mais do que uma bola no poste, o médio ofensivo mostrou que é daqueles jogadores que, a par de Schjelderup ou Richard Ríos, “ouvem” José Mourinho, evoluem em termos individuais em prol do coletivo e, no caso específico do sul-americano, consegue ocupar espaços menos habituais sem que isso signifique um menor rendimento.

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Ficha de jogo

Benfica-Nacional, 2-0

29.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria)

Benfica: Trubin; Amar Dedic, António Silva, Otamendi, Samuel Dahl; Leandro Barreiro, Richard Ríos (Enzo Barrenechea, 78′); Prestianni (Lukebakio, 77′), Rafa Silva (Aursnes, 77′), Schjelderup (Gonçalo Moreira, 90+2′) e Pavlidis (Ivanovic, 77′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Bah, Sudakov e Anísio Cabral

Treinador: José Mourinho

Nacional: Kaique; Alan Núñez, Leo Santos, Zé Vitor, José Gomes (Vallier, 83′); Laabidi (Joel Silva, 83′), Matheus Dias (Filipe Soares, 61′), Liziero; Daniel Junior (João Aurélio, 90′), Witi (Pablo Ruan, 61′) e Jesús Ramírez

Suplentes não utilizados: Kevyn, Lucas João, Martim Watts e Francisco Gonçalves

Treinador: Tiago Margarido

Golos: Schjelderup (3′) e Rafa (14′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Samuel Dahl (22′), Witi (50′), Léo Santos (57′), Matheus Dias (58′), Joel Silva (90′) e Vallier (90+4′)

Tudo aquilo que o jogo podia dar mudou em menos de três minutos. Aliás, ao contrário do que aconteceu em Rio Maior com o Casa Pia, por exemplo, bastou uma entrada no último terço, um ataque organizado e uma oportunidade para o Benfica inaugurar o marcador numa jogada iniciada e trabalhada por Rafa, que teve o cruzamento da direita de Prestianni para o desvio ao segundo poste com o pé esquerdo de Schjelderup que fez 1-0 (3′). Os encarnados conseguiam o golo mais rápido da Liga, o norueguês mantinha o peso no rendimento ofensivo da equipa como tem acontecido nos últimos encontros, o jogo chegava a uma espécie de bifurcação no seu sentido que tanto podia pender para uma vitória folgada do Benfica como para uma reação mais forte do Nacional que obrigasse a equipa a estender-se mais em campo em busca de outro destino. Não foi preciso esperar 15 minutos para se perceber a tendência – e com o Nacional a cair onde é mais “forte”.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Benfica-Nacional em vídeo]

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Ainda houve momentos que enganaram esse rumo. Os madeirenses tiveram alguns momentos de posse mais prolongados, Liziero testou a meia distância que saiu por cima da trave da baliza (9′), Witi arriscou um golo digno de Messi com uma trivela de pé esquerdo a 30 metros do alvo que ficou nas mãos de Trubin (13′). O golo inaugural tinha mexido com algumas dinâmicas mas o Nacional mantinha-se firme na missão de tentar sair da Luz com pontos com a criatividade do meio-campo a querer acrescentar algo ao ataque. Problema? Os “buracos” que iam surgindo na defesa, com grande dose de demérito à mistura – e seria assim que nasceu o 2-0 do Benfica, com Prestianni a ganhar uma bola perdida a José Gomes, a ficar na frente do lateral e a fazer o passe rasteiro para a pequena área onde Rafa só teve de encostar (14′). Se a forma como a equipa encarnada podia entrar em campo era um dos motivos de interesse para esta partida, a resposta estava dada.

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A partir daqui, tudo o que podia acontecer de melhor ou de pior no encontro dependia bem mais do Benfica do que propriamente do Nacional, com Tiago Margarido visivelmente irritado com algumas ações individuais e coletivas dos jogadores insulares e José Mourinho a assistir de forma serena ao encontro sentado no banco. Tinha razões para isso, apesar de uma fase menos inspirada onde praticamente não houve balizas durante 20 minutos mas que deixou sempre os encarnados no comando do jogo sem margem para que os madeirenses conseguissem sequer esboçar uma reação. Esse foi o grande mérito, acima de todos: a forma como a reação à perda e as transições defensivas “secaram” qualquer problema, deixando depois a equipa mais perto de criar oportunidades para aumentar a vantagem como aconteceu num remate de Dedic desviado que saiu perto da baliza (38′), numa meia distância de Prestianni em corredor central que bateu no poste com Kaique batido (40′) e num desvio de cabeça de Pavlidis na área que saiu ao lado do alvo (42′).

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A segunda parte trouxe uma versão melhor do Nacional, com uma aparente vontade de esticar mais as linhas e chegar ao golo que pudesse reabrir o encontro, mas seria o Benfica a voltar a ter as melhores oportunidades para aumentar a vantagem e fechar de vez o encontro. Trubin ainda travou um remate fácil de Daniel Junior e teve uma boa “mancha” a José Gomes após um ressalto mas era o guarda-redes contrário que estava pronto a mostrar serviço e em dose dupla: primeiro defendeu um remate em arco de Schjelderup num movimento da esquerda para o meio (49′), depois conseguiu mesmo travar uma grande penalidade de Pavlidis por falta de Léo Santos sobre o norueguês na área (58′). Não que o encontro estivesse alguma vez em perigo mas o Benfica perdia a chance de arrumar de vez com as contas e começar a pensar mais cedo no dérbi de domingo contra o Sporting em Alvalade enquanto Tiago Margarido, lançando Pablo Ruan e Filipe Soares, procurava o tal lance que permitisse aos madeirenses acreditarem. Chegou mesmo a aparecer, acabou anulado: Chuchu Ramírez marcou de cabeça na pequena área mas após uma falta de Léo Santos sobre Pavlidis (67′).

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Sem que nada o fizesse prever, sentiu-se de novo a ansiedade na Luz. Mais: houve até assobios. O encontro tinha perdido ritmo, as ações ofensivas dos encarnados eram poucas e inócuas, o número de passes errados aumentava, as aproximações do Nacional geravam desconforto mais nas bancadas do que em campo, com um bom remate de pé esquerdo de Chuchu Ramírez à entrada da área para as mãos de Trubin a ser um gatilho para essa manifestação de descontentamento numa partida que, apesar de tudo, pareceu estar sempre controlada. Aliás, a partir do momento em que Mourinho mexeu, com uma tripla entrada de Aursnes, Dodi Lukebakio e Ivanovic a que se juntou depois Enzo Barrenechea por lesão de Richard Ríos, Kaique foi quase um protagonista único a evitar por várias ocasiões o 3-0 dos encarnados. Schjelderup atirou na área para defesa do brasileiro, Ivanovic também tentou com nova intervenção de Kaique, Leandro Barreiro colocou em jeito para a melhor defesa da noite, Dedic também rematou à figura. O resultado estava mesmo feito e só haveria tempo para mais uma estreia de um miúdo da formação, neste caso o promissor Gonçalo Moreira.

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