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Projecto Sophia

Projetos desta natureza podem — e devem — afirmar-se como verdadeiros catalisadores de empregabilidade, projeção internacional e desenvolvimento territorial.

Paulo Jorge Real
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Em 2015, em Le Bourget, Portugal participou nas negociações que conduziram ao histórico Acordo de Paris, posteriormente assinado, em 2016, na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, sob a liderança do então Primeiro-Ministro António Costa.

Desde então, os sucessivos governos têm-se empenhado no cumprimento dos compromissos assumidos, garantindo uma atuação ativa na implementação de medidas destinadas a reduzir a pegada de carbono — um dos principais fatores responsáveis pelo atual aquecimento global.

Importa, contudo, sublinhar que, ainda antes deste pacto ambiental internacional, Portugal já vinha a dar passos significativos no domínio da transição energética, através de investimentos públicos alavancados por incentivos europeus, bem como pelo envolvimento crescente de empresas do setor privado que reconheceram, a médio e longo prazo, a relevância estratégica das energias renováveis para o desenvolvimento económico e ambiental do país.

É neste enquadramento que surge, no panorama nacional, o Projeto Sophia. A empresa Lightsource bp — start-up britânica adquirida em 2010 pela gigante energética BP — pretende instalar uma central fotovoltaica na região da Beira Baixa, abrangendo os municípios do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, no distrito de Castelo Branco, num investimento estimado em cerca de 590 milhões de euros.

O projeto tem enfrentado forte oposição por parte de autoridades locais, líderes autárquicos, residentes, pequenos e médios empresários, bem como de diversas associações ambientalistas. Acresce que a avaliação de impacto ambiental conduzida pela Agência Portuguesa do Ambiente teve parecer desfavorável.

Este desfecho — ainda que não definitivo — era, em certa medida, expectável. Com efeito, o relatório apresenta aspetos que carecem de reformulação e maior densificação, designadamente no que respeita à dimensão do território a ocupar, às medidas de mitigação ambiental e à reposição de árvores, elementos fundamentais para a preservação da harmonia paisagística e da continuidade das práticas agrícolas.

Mais do que conhecer, em detalhe, o modelo de execução, importa assegurar que as soluções propostas são efetivamente exequíveis e que o seu cumprimento será rigorosamente garantido.

Aspiro a que este investimento venha a ser viabilizado, preferencialmente assente em garantias sólidas de cooperação institucional, diálogo construtivo e convergência estratégica, atendendo à sua relevância para a concretização do PNEC 2030 e dos compromissos assumidos com a União Europeia.

Considerando que a excessiva fragmentação da produção energética não constitui, neste contexto, uma solução sustentável — face às limitações sistémicas existentes, aos elevados custos de produção e às dificuldades em assegurar manutenção eficiente e resposta célere em situações de crise —, centrais desta natureza, em número superior ao atualmente existente, poderão configurar uma opção estruturalmente adequada, desde que complementadas por outras fontes renováveis, como a energia eólica e hídrica.

É, pois, oportuno encarar estas dinâmicas estratégicas como um verdadeiro fator de desenvolvimento e coesão territorial, enquanto trabalhamos em prol de um país mais verde e mais autónomo. A descentralização de infraestruturas essenciais, a criação de emprego e o reaproveitamento da riqueza geográfica e climática — tantas vezes abandonada, isolada e desprovida de planeamento estrutural adequado — assumem particular relevância num contexto de crise climática que já vivemos e que tende a intensificar-se.

As aldeias históricas, as serras e as regiões do interior, marcadas por paisagens de elevado valor patrimonial e ambiental, não serão necessariamente prejudicadas por este tipo de investimento. Pelo contrário, o maior risco reside no abandono, na degradação progressiva e na intensificação dos fenómenos meteorológicos extremos — como incêndios e precipitações severas — que têm marcado os últimos anos.

Projetos desta natureza podem — e devem — afirmar-se como verdadeiros catalisadores de empregabilidade, projeção internacional e desenvolvimento territorial. Quando estrategicamente articulados com iniciativas de cultura verde, centros de congressos e polos de investigação, geram benefícios diretos para comunidades, empresas e instituições públicas. Entre esses benefícios destaca-se, por exemplo, a potencial redução dos custos de consumo energético, criando poupanças que podem ser reinvestidas no desenvolvimento local e regional, fortalecendo a economia, estimulando a inovação e promovendo maior sustentabilidade.

Outro exemplo relevante seria a criação de um hub de criação, investigação e experimentação, capaz de acolher profissionais das áreas da ciência e tecnologia, estudantes, grupos de trabalho e associações. Uma infraestrutura desta natureza não só fomentaria a produção de conhecimento e a colaboração interdisciplinar, como também proporcionaria novas oportunidades de dinamização para o setor turístico e para os negócios locais, ampliando a sua capacidade de crescimento e diversificação.

Deste modo, estes territórios podem posicionar-se como referências de revitalização do interior, conciliando desenvolvimento económico com coesão social e responsabilidade ambiental. Ao mesmo tempo, contribuem de forma concreta para a transição para um país mais sustentável, resiliente e equilibrado, onde o progresso se alinha com a valorização dos recursos locais e o bem-estar das comunidades.