No início do mês o primeiro-ministro escreveu um artigo aqui no Observador com o título, “Dois anos a trabalhar pelo futuro de Portugal”. Se quisermos ser rigorosos, a frase não deixa de ser verdadeira porque óbvia e vazia de sentido. Na verdade, nada mais natural que um governo trabalhar para o futuro do seu país. É o mínimo dos mínimos, mas o primeiro-ministro orgulhasse disso como se fosse um feito que só o governo que dirige pode reclamar.
Mantendo o tom, o texto é uma sucessão de frases sem lógica, pouca ou nenhuma ligação entre si e de uma incoerência exasperante. Veja-se o que sucede logo no final do primeiro parágrafo que Luís Montenegro inicia com uma citação de Francisco Sá Carneiro, na qual este refere que “os Portugueses estão ansiosos por que se deixem os governantes de debate ideológico, de grandes discursos, para se aterem ao exercício singelo e discreto da sua função: trabalhar para resolver os problemas das pessoas, os problemas da nação”. Luís Montenegro pega nesta frase de Sá Carneiro e conclui que o mais natural é, não de forma singela e discreta resolver os problemas das pessoas, mas anunciar que o seu compromisso é transformar Portugal. Mais ideológico que isto é complicado, embora seja provável que Luís Montenegro não se tenha dado conta da incongruência. A falta de conformidade entre a ideia com que se inicia o parágrafo e aquela com que se termina leva-me a questionar se o texto alguma vez foi lido inteiro, ou seja de seguida, antes de ser remetido para o jornal. Mas é provável que sim, que até tenha sido.
Refiro esta incoerência apenas porque é reveladora do que vem a seguir: uma junção de parágrafos que mencionam os resultados positivos que Luís Montenegro refere ter alcançado em dois anos. Vejamos: para o primeiro-ministro, a transformação de Portugal iniciou-se com a devolução de confiança e de estabilidade nas instituições e da paz social. É interessante que o primeiro-ministro o saliente porque foram precisamente a estas duas conquistas que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa aludiram alguns meses depois de terem iniciado as suas funções. Tanto um como o outro, o que pretenderam (e Marcelo foi muito vocal neste ponto) foi devolver a confiança nas instituições, bem como devolver a paz social, nomeadamente entre gerações. Exactamente o que Montenegro diz agora também ter conseguido. No fundo, ser chefe de governo não deve ser assim tão difícil porque basta dizer que se assegurou o que quem lhe antecedeu não assegurou apesar deste oportunamente ter dito que também assegurou. Há transformações mais difíceis. Mas talvez seja por isso que a palavra transformação tenha passado a ser usada com tão pouca parcimónia: se não quer dizer nada é porque significa tudo. Até mesmo o seu contrário.
Depois de assegurada a paz social e a confiança nas instituições, Montenegro avança com outras transformações: nos impostos, no crescimento económico mencionado na The Economist, no desemprego que atingiu mínimos históricos, na subida dos salários mínimo e médio, na redução do IMT para os jovens, no SNS, na educação e até na imigração. Os resultados serão fantásticos não fossem alguns antigos, ou seja, independentes da sua acção governativa e todos sinalizarem incoerências e problemas futuros.
Os impostos desceram num contexto internacional favorável que acabou, sem que a dívida pública tenha sido reduzida. Pelo contrário, a dívida pública não desceu em número e, como várias vezes alertei neste espaço no Observador, é provável que volte a aumentar face ao PIB nos próximos anos. Tenho um grande respeito por Joaquim Miranda Sarmento. O que ministro das finanças conseguiu não é coisa pouca tendo em conta o pouco que o governo fez noutros campos. Mas não se fazem omeletes sem ovos. Sem reformas, os excedentes conseguidos não são para continuar porque não têm sustento que os segure.
Os excedentes orçamentais foram um feito que assentou num crescimento económico derivado de aumento de mão-de-obra. Não da produtividade, que estagnou. Aumento de mão-de-obra não especializada, de baixo valor acrescentado e que este o governo até atacou com as novas medidas de combate à imigração. Fora estas ilusões, para as quais daqui a uns tempos vamos acordar e perguntar muitos supreendidos como é que o céu nos caiu em cima da cabeça quando andava tudo a correr tão bem, não é difícil comprovar que o SNS não foi reabilitado. Já quanto aos preços das casas para a habitação, estes aumentaram na igual proporção em que o IMT foi reduzido para os jovens. Se o problema da habitação é excesso de procura face à oferta, o remédio está em aumentar a oferta. O que fez o governo? Aumentou a procura. Como? Através de uma medida popular que é baixar impostos. O resultado foi o aumento dos preços e o governo poder anunciar aos quatro ventos como é amigo dos jovens porque lhes baixou o imposto que versa sobre o preço que aumentou. Não fosse a iliteracia financeira um dos males deste país (e mudar essa realidade, isso sim, seria uma mudança transformadora) e o cinismo do governo teria sido exposto na praça pública. Assim, ficou o engodo, um texto mal escrito de auto-elogio do primeiro-ministro e os vídeos que este foi publicando no instagram a dar a si próprio os parabéns por ser chefe de governo há dois anos. Sempre fica no curriculum.
Que é o que interessa hoje em dia. Não os resultados, mas as aparências. As percepções. Ao ler o artigo de Luís Montenegro no Observador recordei-me da canção dos Platters, The Great Pretender, que me pus a ouvir enquanto terminava a leitura. Convido-vos a fazer o mesmo.