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(A) :: A “Riqueza das Nações” de Adam Smith: 250 anos

A “Riqueza das Nações” de Adam Smith: 250 anos

Tinha uma inclinação para a matização sem que isso inibisse as grandes proclamações e generalizações nomológicas. E com ele, para o bem e para o mal, a civilização europeia mudou para sempre.

Miguel Morgado
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Para uma civilização como a europeia, cujo destino histórico foi radicalmente afectado pelos livros e pelos pensamentos, o conteúdo desses livros e desses pensamentos é uma das fontes principais da sua inteligibilidade. Não é possível compreendermos a sua história, a sua evolução, nem as suas formas presentes, sem sabermos o que disseram os livros determinantes. Mais, sem percebermos o alcance desses livros – as críticas a que foram sujeitos, os caminhos que abriram para o futuro, as transformações das suas interpretações “canónicas” –, resta-nos a ignorância própria da memorização da sequência dos acontecimentos, dipostos mais ou menos arbitrariamente, e uma indissipável confusão sobre o que nós somos hoje. Um desses livros celebrou há pouco mais de um mês o seu 250º aniversário. Refiro-me à “Riqueza das Nações”, de Adam Smith.

Nada faria supor que um livro extensíssimo escrito numa prosa não particularmente eloquente tivesse gozado de tanta influência imediata. Mas, na verdade, o seu autor era já um pensador consagrado com imenso prestígio pessoal, coisa que ajuda sempre a mobilizar leitores. De resto, os conteúdos do livro ecoariam por milhares e milhares de discussões, tertúlias, debates, artigos e outros livros pela Europa inteira. E não era para menos.

Smith dizia ter descoberto a razão por que umas nações eram ricas e outras pobres. Não era coisa de pouca monta. Afinal de contas, há poucas perguntas mais fundamentais das ciências sociais e, a julgar pela divergência entre os economias sobre a matéria, não obstante o número infidável de universidades e de investigadores por esse mundo fora, continuamos a não conseguir responder-lhe cabalmante. Pelo caminho, Smith ensinava como seguir o caminho da riqueza – e da liberdade – aos povos que a desejavam.

Para tal, Smith não inventou, mas sistematizou uma ciência nova com um conjunto de proposições e axiomas que seriam aclamados, criticados e rejeitados: a ciência da economia política. Como não era homem para se ficar no plano das superficialidades e banalidades, e tinha um gosto genuíno pela refundação do conhecimento das coisas, ensinou-nos o que era afinal a riqueza dos povos. Com uma intuição que não sendo estritamente original, só com ele se sistematizou, revelou que a riqueza das nações não era então, e como era habitual pensar-se, medida pela ostentação dos ricos. Era, pelo contrário, medida e comparável apenas a partir do padrão de vida do membro mais desafavorecido de cada sociedade.

A sua conceptualização do que viria a ser chamado “capitalismo” ou “economia de mercado” supunha também uma radical democratização do jogo económico, na medida em que negava privilégios epistémicos aos supostamente mais “sábios” ou poderosos para governarem a vida dos outros. Devolvia ao homem comum a sensatez suficiente para, na sua condição pessoal, perceber que decisões económicas mais o beneficiariam. Apoiava a criação de mercados internos homogéneos e investimento público em infraestrutura de transporte. Mas repugnava-lhe confiar essa missão a um qualquer déspota que seguisse um plano geométrico de mudança abrupta da sociedade.

E, ao contrário do que diria a caricatura mais tarde construída pela sanha anti-liberal na sua versão ignorante, Smith estava perfeitamente consciente dos limites da “mão invisível” que usava o interesse-próprio, em substituição da benevolência, para realizar fins sociais positivos. De tal modo Smith compreendia os malefícios associados ao funcionamento de um sistema de prosperidade descentralizado que explicitou a uma multidão de intelectuais, que incluía o próprio Marx, os efeitos nocivos sobre a classe operária da divisão do trabalho.

Além disso, derrotou a escola intelectual dominante no seu tempo, e em grande parte do nosso, que ditava as teses e as políticas no plano das relações económicas internacionais. O mercantilismo, supondo que o ganho de um parceiro comercial seria a perda exacta do outro parceiro comercial, minava as bases da perpetuação das trocas internacionais. Smith expôs irremediavelmente as fraquezas e vulnerabilidades conceptuais dos mercantilistas. E, em conformidade com alguns dos seus mestres setecentistas, demonstrou que o comércio internacional era um jogo de soma positiva.

Foi um dos profetas da globalização e da descolonização futuras. Foi historiador da queda dos impérios e proclamador da ascensão das sociedades dedicadas à liberdade individual. Tratava os temas mais centrais das suas teses com uma minúcia e atenção ao detalhe invulgares. Tinha uma inclinação para a matização sem que isso inibisse as grandes proclamações e as grandes generalizações nomológicas. E com ele, para o bem e para o mal, a civilização europeia mudou para sempre.