Na Igreja da Lapa há entre os dois serviços de culto da manhã (os católicos diriam missas) um tempo que chamamos de Escola Bíblica Dominical. Este tempo é o que nos filmes americanos se traduz como catequese mas não é exactamente o mesmo. Nas igrejas protestantes a Escola Bíblica Dominical deseja ensinar a pessoa a manusear a Bíblia em qualquer dia da semana. Há classes de Escola Bíblica Dominical para todas as idades. O objectivo é o dia sagrado servir os restantes dias comuns, convivendo assim o crente com a palavra de Deus dentro e fora da igreja.
Este ano decidimos que o tempo de Escola Bíblica Dominical para os adultos seria um pouco diferente. Temos um pequeno currículo de livros que, não sendo bíblicos, ajudam o crente evangélico em Portugal a compreender o seu contexto. Para isso, escolhemos doze que atravessam a história para abrir caminhos na de agora: em Janeiro estudámos as “Confissões” de Agostinho, em Fevereiro estudámos “Do Servo Arbítrio” de Lutero, em Março “As Institutas” de Calvino, e agora em Abril estamos nos “Pensamentos” de Pascal. Pela frente ainda haverá Padre António Vieira, Kierkegaard, Max Weber, Chesterton, Barth, C. S. Lewis, Dorothy Sayers e John Piper.
Nesta lista há autores protestantes (a maioria, claro), católicos e até aqueles sem fé. O critério é a partir de gente sábia discernirmos o tempo que nos calhou em sorte, como evangélicos na Europa do sul católica do Século XXI. As reacções dos alunos são diversas: uma maioria conhece os autores de nome mas nunca os leu mesmo, uma minoria muito minoria já leu uns quantos, e há até os que apanham bonés sem grande complexo de culpa. A igreja é mesmo assim. Para mim, que sou o professor, interessa-me sobretudo abrir o apetite. Não espero que estes doze autores sejam lidos no espaço de um ano mas nunca se sabe o que surge no futuro.
No final de Março peguei no meu exemplar dos “Pensamentos” do bom Blaise. Recordo que quando os li foi a partir do meu colega Luís Miguel Correia, no tempo da Faculdade, há perto de trinta anos. Ele, que hoje é realizador de um documentário portentoso estreado no ano passado chamado “Santa Iria”, tinha uma daquelas edições da Europa-América em capa mole, já bastante sublinhada. Logo na altura bateu-me forte: aquela apologia do cristianismo feita num modo desavergonhadamente anti-apologético; o facto de ser um rascunho para um livro que não chegou a ser; o suplemento final do memorial. Enfim, se há livro obrigatório é este.
Sei que tinha comprado o meu próprio exemplar dos “Pensamentos” do Pascal. Fui à prateleira e lá o encontrei. Uma edição diferente, não da Europa-América. Gosto de escrever na primeira página a data em que compro os livros. Nem todos têm mas este tinha. Qual foi a minha surpresa ao ver: “Comprado a 21 de Julho na Livraria Bulhosa, em Oeiras.” Ui. Tanto, mas tanto para dizer acerca desta nota. Em primeiro lugar, bye bye Bulhosas do país. Eram livrarias especiais e já não as temos connosco. Em segundo lugar, o dia 21 de Julho foi o dia seguinte ao meu casamento. E notar isto já é notar muito.
As minhas memórias acerca do dia a seguir ao meu casamento não são necessariamente as mais detalhadas. Tendo em conta que o dia de casamento é aquele em que fiz a promessa mais fundamental da minha existência, carregava muitos sonhos e incertezas. O que sabia eu acerca de ser um marido, eventualmente um pai, um cumpridor de pactos, afinal? Ao cruzar-me com uma livraria de calibre, procurei a sombra de uma sabedoria que providenciasse rigor e esperança. Pascal, como não? O francês do Século XVII, cabeçona da matemática à filosofia, prometeu-me ciência mas sobretudo fé. Nem o seu anti-protestantismo me atrapalhou na hora de adquirir esta preciosa ajuda literária.
A verdade é que o livro ficou sem ser lido mais de vinte anos. Só agora regresso a ele. Leio-o em casa, leio-o na igreja, leio-o sobretudo no comboio. Leio-o com fome, leio-o com feeling, leio-o volta e meia com algum tédio também (porque há partes chatas). Mas leio-o como se estas duas décadas sem ele fossem apenas um breve intervalo. “É igualmente perigoso para o homem conhecer Deus sem conhecer a sua miséria, e conhecer a sua miséria sem conhecer Deus”. Se um escritor nos facilita a sinceridade com o pior que há em nós ao mesmo tempo que nos dá esperança, esse escritor não é apenas um escritor: é uma casa. Neste Abril voltei a morar em Pascal. Faço um convite ao leitor que tome nota do meu endereço e me visite.