(c) 2023 am|dev

(A) :: Vamos brincar às manifestações

Vamos brincar às manifestações

Todo o aquele que na rua empunhe uma faixa onde apareçam frases a dizer que não sei o quê é um direito é tratado mediaticamente falando como o porta-voz do povo

Helena Matos
text

Veja e descubra o erro. Ou erros desta fotografia duma manifestação pelas urgências de obstetrícia.

Depois da agressão com um cocktail molotov na Marcha pela Vida, que até começou por não ter cobertura noticiosa, temos agora o espantoso caso da alegada manifestação  pela continuidade das urgências de obstetrícia e ginecologia que na verdade também eram umas alegadas urgências dado o seu errático funcionamento.

Em primeiro lugar não estamos perante manifestação alguma. Poderá ser um protesto, quiçá, e com muito favor uma concentração mas para manifestação falta-lhe o essencial: os manifestantes. Em segundo e muito mais surpreendente lugar vem esse desacerto entre os manifestantes e a coisa manifestada. Quantas das manifestantes que vemos nesta imagem  têm idade para ir a uma urgência obstétrica?  (Quando refiro  “das manifestantes” não estou enganada porque por mais voltas que demos ao assunto só as mulheres engravidam logo só elas são atendidas nas urgências obstétricas e que algumas se identifiquem como homens é um assunto que nada tem a ver com obstetrícia.)

Nos tempos que correm o sentir predomina sobre o ser mas nestas matérias de gravidez e partos a biologia manda. E manda não só no sexo de quem engravida mas também na idade em que tal pode acontecer.  A gravidez em idade materna avançada, ou gravidez geriátrica, começa aos 35 anos e a partir de certa idade, variável é certo, as mulheres deixam de engravidar.Pode ser quase sinónimo de crueldade lembrar isto mas é mesmo assim.

Feito esta espécie de ponto prévio sobre as manifestantes e a sua relação com as urgências obstétricas, voltemos à alegada manifestação. Longe de mim dizer que as mulheres que já não estão em idade de engravidar não podem manifestar-se pela manutenção de urgências de obstetrícia.  Todos nós tomamos posição em assuntos que não nos dizem directamente respeito ou até que não nos afectam de modo algum. Mas é apenas isso: a nossa opinião. Ora em Portugal a cobertura noticiosa, o discurso e até as palavras usadas sobre o que tem a ver com os serviços públicos, as relações de trabalho e a actividade económica são uma espécie de variações sobre as teses comuns a alguns socialistas, aos bloquistas em geral e aos comunistas em particular. Assim,  todo o serviço público é para manter mesmo que, como acontece com as urgências de obstetrícia, não existam técnicos suficientes ou que nem sequer se consiga mantê-las a funcionar dentro de parâmetros de segurança. Todo o manifestante empunhando uma faixa onde apareçam as frases a dizer que não sei o quê é um direito mais que se cumpra ora Abril ora a Constituição é um representante do povo indignado, uma voz telúrica do país que os media interpretam.

Esta espécie de tabu resistiu de tal forma aos factos e ao tempo que acaba a ser corroída pela sua própria retórica, como sucedeu na Marcha pela Vida, quando se desvalorizou o ataque de que foram alvo os manifestantes: era só um incidente, não era? Ou, como escrevia a Lusa, de que somos obrigatoriamente accionistas: Marcha pela Vida terminou com incidente sem feridos em Lisboa. Ou então corroído pelo ridículo. Sim, o ridículo, esse grande desconstrutor,  como aconteceu com estes 50 manifestantes que, segundo a linguagem usada nestes eventos, vieram defender as urgências obstétricas (onde por razões óbvias não entram) mais o SNS e mais o que calhar.