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(A) :: Das elites de Budapeste à digressão pelas aldeias, passando pelo Fidesz. Péter Magyar, o homem que pôs fim à "longa era Orbán"

Das elites de Budapeste à digressão pelas aldeias, passando pelo Fidesz. Péter Magyar, o homem que pôs fim à "longa era Orbán"

O conhecimento do funcionamento interno do Fidesz foi "a sua maior arma tática", à qual soma um discurso apelativo. Quem é o homem que derrubou Orbán e o que dizem os que nele votam?

Madalena Moreira
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Artigo atualizado às 20h53 após Viktor Orbán ter assumido a derrota

No pequeno cartaz pendurado perto do parque Városmajor, vê-se um homem de casaco azul escuro, camisa branca e cabelo castanho curto com brancos nas laterais. Olha de frente para a câmara, sem sorrir, num fundo também azul escuro. No topo do cartaz, está o símbolo do partido, um infinito vermelho e verde e o nome do partido: Tisza. Na parte inferior, o nome do candidato: Magyar Péter. O cartaz não seria digno de nota, não fosse este distrito de Budapeste o único local em toda a Hungria onde o líder da oposição aparece sozinho nos cartazes eleitorais, e não ao lado do candidato local.

Aqui, no terceiro distrito eleitoral de Budapeste, Péter Magyar é o candidato — é o seu nome que estará no boletim de voto para ser eleito por este círculo eleitoral. E é à frente desse mesmo nome que Nora, de 29 anos, vai colocar uma cruz este domingo. Estava inscrita para votar em França, onde mora há nove anos, mas há duas semanas decidiu vir votar na morada da casa dos pais, onde ainda está registada. “Estive a falar com vários amigos e todos vinham a casa, então comprei os bilhetes porque não queria perder a eleição e tudo o que está a acontecer à volta”, declara ao Observador, entre festinhas a Zazi, o cão que corre entre Nora e os outros dois cães da família.

Depois de votar, a noite eleitoral será passada em casa da tia, Luca Váradi. Luca também está no parque com o resto da família: adultos, crianças e cães. Está sentada na relva, encostada a uma árvore, mas disponibiliza-se prontamente para falar. Este ano, Luca e a irmã decidiram reavivar a tradição que mantinham com os pais de Nora e reunir a família para acompanhar os resultados. “Costumávamos fazer isto antes desta longa era de Orbán, quando as eleições ainda tinham um fim em aberto”, relembra a professora de sociologia da Central European University (CEU), que não perde a oportunidade de dar o exemplo do local de trabalho para criticar o Governo por ter forçado a universidade — fundada por George Soros, o milionário na mira de Viktor Orbán — a mudar a maior parte dos cursos para Viena.

Nesta família, o apoio a Péter Magyar é justificado, em primeiro lugar, por ser o opositor de Orbán, que pôs fim a 16 anos de Governo do Fidesz. Mas a oposição ao líder do Fidesz não justifica, por si só, a onda de apoio a Magyar que varreu a Hungria em apenas dois anos desde que fundou o Tisza — outros antes de si tentaram o mesmo e falharam. Aos 45 anos, o líder húngaro já assumiu muitos papéis e cada um contribuiu de forma diferente para que se assumisse como o principal desafio à manutenção de Orbán no poder.

O homem das elites que passou dos bastidores aos holofotes da política

Péter Magyar nasceu na mesma cidade onde agora se candidata ao Parlamento húngaro. Foi em Budapeste que nasceu, cresceu, se licenciou em Direito e começou a trabalhar como advogado. A carreira na área legal seguia a tradição familiar — o avô de Magyar foi juiz no Supremo Tribunal — e, desde cedo, esteve ligado à política. Mas Magyar nunca foi uma estrela em ascensão na política húngara. Esse lugar pertencia à mulher, Judit Varga, com quem casou em 2006.

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A relação com Judit Varga é um ponto fulcral — e conturbado — da história de como Magyar passou dos bastidores para o palco. O divórcio chegou em 2023 e o escândalo de um perdão presidencial atribuído a uma pessoa acusada de encobrir crimes de abuso sexual de menores rebentou em fevereiro do ano seguinte. A partir daí, os acontecimentos precipitaram-se: Magyar utilizou um áudio gravado sem o conhecimento da ex-mulher, quando ainda eram casados, para denunciar a corrupção no Governo e Varga acusou-o de violência doméstica. Tudo no espaço de dois meses. No mês seguinte, impulsionado pelas críticas ao Governo de Orbán, Magyar fundou o Tisza.

Passados dois anos, na véspera do seu maior teste político, o ponto de viragem na carreira de Péter Magyar é um ponto de discórdia na amizade de Anita e András, que falaram com o Observador no centro de Budapeste. András vê em Magyar alguém capaz de mudança. Anita “não confia nele como pessoa” e revira os olhos a cada elogio que o amigo deixa ao líder do Tisza. Em causa estão não só as acusações de violência doméstica, como as de que consome drogas, aponta Anita, que recusou dizer a idade ou o apelido. As acusações de consumo de drogas são mais recentes e surgiram já durante a campanha eleitoral deste ano — Magyar negou repetidamente as duas acusações.

Os incidentes e a sua ascensão consolidam-no como uma figura polarizadora e, admitiu o próprio numa entrevista em 2025, confrontacional. Mas, entre todas as reviravoltas da sua vida pessoal e profissional, Magyar nunca deixou de estar próximo das elites, de Bruxelas a Budapeste — uma questão que se impôs como um problema na hora de desafiar Orbán, orgulhosamente nascido e criado nas zonas mais rurais da Hungria.

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Contudo, o opositor rapidamente voltou a mostrar a sua capacidade de adaptação e dedicou a sua campanha ao interior do país. Ao longo dos 50 dias de campanha, Péter Magyar manteve um ritmo acelerado, visitando entre três a cinco localidades por dia. Vista a partir de Budapeste, a estratégia é “admirável”, diz Luca Váradi. “Ele deu um salto e foi a todas as partes do país e passou tempo nas partes mais remotas, onde os políticos não costumam ir”, relata a professora de sociologia ao Observador, depois de ter sido apontada de forma unânime como “porta-voz” da família.

O sucesso da “Digressão Agora ou Nunca”, como chamou à campanha, concretizou-se nos apoios que começaram a chegar de fora de Budapeste, como por exemplo, o de István Orosz, presidente da Câmara de Bátonyterenye, na fronteira com a Eslováquia. Mas o apoio deste autarca também tem outro significado: Orosz foi eleito pelo KDNP, parceiro de coligação do Fidesz, e anunciou a sua desfiliação do partido para apoiar o Tisza nas eleições deste domingo. É um traço em comum com Magyar que é, também ele, um antigo membro do Fidesz.

O homem que tem o “conhecimento interno” — a informação e o estilo — sobre o Fidesz

Em 1990, Zsuzsanna Szelényi foi eleita para o Parlamento húngaro pela primeira vez, no mesmo ano em que Viktor Orbán também se estreava como deputado — ambos pelo Fidesz. “Cheguei ao Parlamento quando eu tinha 23 anos e Orbán 26”, relata a agora investigadora no Democracy Institute na CEU, num encontro com jornalistas internacionais no edifício da universidade, no coração de Budapeste — o espaço é arrendado para eventos académicos, mas são agora muito poucas as aulas lecionadas aqui, explica.

Do deputado da sua juventude, Zsuzsanna lembra um político “estratégico”, que, ao longo das décadas seguintes, se soube adaptar às mudanças no contexto nacional e internacional. Noutro ponto da conversa, utiliza a mesma palavra para se referir a Péter Magyar. Contudo, a investigadora faz questão de dizer que é impossível comparar Magyar a Viktor Orbán — tanto ao Orbán de 1990, como ao Orbán de 2026 —, precisamente por causa das mudanças. “Magyar não pode pensar como o Orbán de há cinco, dez ou 20 anos. É um mundo diferente com um tipo de problemas muito diferente”, pondera, questionada pelo Observador.

István Orosz, que seguiu de perto a evolução ideológica e estratégica do Fidesz, também argumenta que a ascensão do Fidesz e do Tisza aconteceram em contextos incomparáveis, mas vê o facto de Magyar se ter deslocado dentro dos círculos próximos de Orbán como um trunfo. “O conhecimento interno é claramente a sua maior vantagem tática, permite-lhe ter informação e um estilo político que a oposição tradicional nunca teve”, declara o autarca, numa resposta enviada por escrito a questões colocadas pelo Observador.

Kata vota no terceiro distrito eleitoral de Budapeste e vai votar em Péter Magyar precisamente por causa das informações internas que expôs sobre o Fidez. “Ele revelou muitos problemas graves do atual Governo, casos de corrupção, de abuso de crianças”, explica ao Observador, sentada num banco de jardim nos limites do distrito, enquanto o amigo com quem está ajuda a traduzir a conversa. A jovem faz referência aos dois casos já mencionados, mas, na verdade, à medida que a campanha se desenrolou, o Tisza abriu portas a muitos outros “whistleblowers“, como classifica Zsuzsanna Szelényi.

Aos conhecimentos internos, junta-se o estilo de comunicação, a “linguagem” utilizada, não muito diferente daquela a que Orbán habituou o povo húngaro durante os últimos 16 anos, sustentada pelo discurso do líder (e uma boa dose de redes sociais). É uma tática populista, admite a investigadora, encolhendo os ombros, “mas não é nada de novo”. “Nem sequer é uma coisa da direita. É um padrão do panorama atual dos partidos europeus. Temos de nos preparar para ver mais coisas assim”, aponta. Em 2010, Orbán abriu a porta à “era dos partidos populistas” — e deixou-a aberta para Magyar poder passar.

O homem que reuniu verdes, liberais e conservadores num “movimento unificado”

Os eleitores ouvidos pelo Observador no terceiro distrito de Budapeste — que disseram ir votar em Magyar — têm todos uma coisa em comum: o voto é justificado em primeiro lugar com a possibilidade de derrubar Orbán. Depois, surge a hesitação na busca por encontrar a segunda medida do programa do Tisza que mais os atrai.

O sentimento é o mesmo que se fazia sentir em 2022, compara a professora Zsuzsanna Szelényi, que conversa com os jornalistas numa sala de aula no primeiro piso da CEU. “Em 2022, havia uma colaboração significativa, mas não era bem gerida, não havia uma liderança a sério, não correu muito bem quando tentaram convencer as pessoas que eram uma alternativa viável”, elenca. Já Magyar conseguiu criar à sua volta um “uma grande força unificada”, um “movimento com pessoas de todos os tipos” — dos verdes, aos liberais, passando pelos conservadores.

András — o homem que conversa com a amiga que não gosta de Magyar — quer vê-lo a implementar as propostas que prometeu durante a campanha, focadas nas áreas que o Fidesz descurou durante os últimos anos: da saúde, à educação, passando pelos transportes. Luca destaca, a título de exemplo, o fim da discriminação contra a extensa comunidade romani no país, a começar pela sua inclusão nas listas para o Parlamento. “Isto é muito importante para mim”, remata no final da conversa, num tom mais sério. A sobrinha Nora diz estar mais à esquerda que Magyar em questões económicas, mas encontra outros pontos de contacto: a aplicação da limitação de mandatos como primeiro-ministro, a separação de poderes e a reaproximação à União Europeia (UE).

No que toca a políticas de cariz identitário, se Luca se foca nos Roma, Nora foca-se na comunidade LGBTQ. “Espero que ele esteja alinhado com alguns dos meus valores e que só não os tenha expressado durante a campanha para não dar munições a Orbán para os atacar. Espero que o assédio a pessoas gay e trans acabe”, declara, imprimindo uma certa urgência à voz ao falar sobre o tema.

É precisamente essa a leitura que Zsuzsanna Szelényi faz da estratégia de Péter Magyar. “[Orbán] é que começou as guerras culturais, ele é que estabeleceu os limites”, diz. “Acho que é uma decisão muito consciente (…), mas acho que é esperto, é tático”, acrescenta. Com uma boa dose de tática, coragem e “persona política”, Magyar conseguiu criar um movimento político capaz de disputar o espaço político do Fidesz.

O homem que vai ser primeiro-ministro

Os limites do terceiro distrito eleitoral de Budapeste ficam numa zona muito turística da cidade, próxima do castelo de Buda. De um lado de uma avenida movimentada, estamos no 1.º distrito eleitoral, que contempla todo o centro histórico na margem esquerda do Danúbio, e ouvem-se falar dezenas de línguas. Do outro lado da avenida, entra-se no 3.º distrito. Alguns metros à frente fica o parque, onde há dezenas de casais em bancos de jardins, famílias a brincar em pelos menos dois parques infantis, pessoas a praticar desporto e a passear os cães.

"A minha experiência pessoal é que é preciso passar por dois ciclos eleitorais de forma a ter um partido pronto. Acho que passam seis a oito anos antes de um partido se tornar num partido."
Zsuzsanna Szelényi, investigadora do Democracy Institute na CEU

Só se houve falar húngaro, mas é possível perceber as palavras Tisza ou Magyar numa conversa. Em véspera de eleições, a cidade saiu à rua em peso para aproveitar o bom tempo, mas o contrarrelógio até ao início das eleições já se faz sentir. “Sente-se o cheiro a vitória [do Tisza] no ar”, comenta-se dentro da sala de aula da CEU. Zsuzsanna Szelényi recusa essa possibilidade e mostra-se muito cautelosa, mesmo com a média das sondagens a dar a vitória ao Tisza e a conquistar dois terços dos lugares no Parlamento. “Eu ainda não tenho a certeza que o Tisza consiga ganhar”, alerta várias vezes ao longo da conversa.

A posição não é justificada apenas com a sua experiência de análise, mas com a sua experiência política na génese de dois partidos diferentes. “A minha experiência pessoal é que é preciso passar por dois ciclos eleitorais de forma a ter um partido pronto. Acho que passam seis a oito anos antes de um partido se tornar num partido”, elabora. Ora, fundado, em abril de 2024, o Tisza vai a votos pela segunda vez na sua história na mesma altura em que completa apenas dois anos.

A isto somam-se uma série de reformas eleitorais que Viktor Orbán levou a cabo nos últimos 16 anos no poder e que favorecem o Fidesz: diminuiu o número de lugares no Parlamento, redesenhou os círculos uninominais e reformulou os círculos de compensação. E mesmo no melhor cenário, em que consiga uma vitória com dois terços dos lugares, Péter Magyar terá de enfrentar ainda os aliados de Orbán nomeados em todas as outras instituições políticas. Mas nenhum destes fatores abate o otimismo daqueles que acreditam que a Hungria vai mesmo mudar. “É uma coisa que só acontece uma vez na vida, ver o sistema de um semi-ditador a cair“, declara Nora com um sorriso esperançoso.