(c) 2023 am|dev

(A) :: Ana Abrunhosa em guerra aberta com jornalista da Lusa que acusa de "fazer política". Lusa considera acusações infundadas e difamatórias

Ana Abrunhosa em guerra aberta com jornalista da Lusa que acusa de "fazer política". Lusa considera acusações infundadas e difamatórias

"Se o jornalista quer fazer política, deve entregar a Carteira de Jornalista", atirou, após notícia publicada sem resposta da Câmara. Lusa considera acusações “descabidas, infundadas e difamatórias”.

Miguel Pereira Santos
text

Ana Abrunhosa acusou um jornalista da Agência Lusa de “fazer política” após este ter escrito uma notícia avançando que a Casa de Cinema de Coimbra está em risco de parar as projeções se o município não cumprir a reabilitação prometida ao espaço. Em reunião pública do executivo municipal (no vídeo é possível ver a intervenção por volta dos 52,09 minutos), a presidente do município entrou em guerra aberta com João Gaspar denunciando-o por “faltar à verdade” e cometer uma “falha deontológica grave“. O jornalista acabou por abandonar o Salão Nobre da Câmara de Coimbra em protesto.

“Se o jornalista quer fazer política, deve entregar a Carteira de Jornalista. Se tem uma agenda própria, deve torná-la pública, como nós fazemos. Dizemos aqui publicamente a falta de confiança que temos doravante neste jornalista que não reporta a verdade, que enviesa os nossos comentários”, acusou esta sexta-feira a antiga ministra da Coesão Territorial socialista.

A presidente da Câmara de Coimbra disse que já reportou a um “responsável” da Lusa e prometeu uma “uma queixa formal desta e de outras situações que reiteradamente acontecem com este jornalista” — João Gaspar cobre a atualidade local para a agência noticiosa. “Todos nós políticos somos escrutinados, mas parece que a comunicação social não pode ser escrutinada. Quando a comunicação social mente, como neste caso, reportámos ao diretor regional da Agência Lusa, que pediu desculpa.”

Contudo, a reação oficial da agência noticiosa considerou as palavras de Ana Abrunhosa como “descabidas, infundadas e difamatórias”. A diretora de informação da Agência Lusa, Luísa Meireles, revela ao Observador que enviou “de imediato” uma carta à autarca de Coimbra manifestando o seu “repúdio” pela acusação “absurda“. Explica ainda que o pedido de desculpas do coordenador regional da Lusa à autarca dizia respeito a um erro cometido noutra notícia sobre o Estádio do Académica, também escrita pelo mesmo jornalista e, entretanto, corrigida.

Mas as acusações de Ana Abrunhosa na reunião de Câmara desta sexta-feira tiveram origem numa notícia da Lusa sobre a Casa de Cinema de Coimbra. João Gaspar entrevistou o coordenador do espaço, que admitiu existir o risco de perder a licença para exibição de filmes (DIR — Documento de Identificação do Recinto) se não fosse cumprido o plano de reabilitação acordado com a autarquia. Depois, no dia 1 de abril, o jornalista enviou perguntas ao gabinete de comunicação da Câmara de Coimbra para obter o contraditório.

Na manhã de quinta-feira, nove dias depois de enviar as questões, João Gaspar encontrou a diretora do gabinete de comunicação, Filipa Gaioso Ribeiro, noutro evento municipal. Nesta altura, reforçou o pedido relativamente à Casa de Cinema de Coimbra e, segundo Luísa Meireles, “não lhe foi dado qualquer prazo sobre quando iam mandar a resposta”. A notícia de João Gaspar seria publicada nessa tarde.

De acordo com Filipa Gaioso Ribeiro — a quem Ana Abrunhosa deu a palavra na reunião de Câmara desta sexta-feira para expôr a sua versão dos factos —, foi dada a garantia de que a Câmara responderia com brevidade. “Não dei nenhum prazo, acho que também não me foi dado nenhum a mim. Foi-me pedido durante a manhã para respondermos ao pedido de esclarecimento e a notícia, à tarde, já estava lançada.”

Por sua vez, a presidente da Câmara de Coimbra justificou o atraso na resposta por estar marcada uma reunião com a vereadora da Cultura para a tarde de quinta-feira, onde a situação da Casa de Cinema seria abordada. Mas, por outro lado, Luísa Meireles sublinha que João Gaspar ficou nove dias à espera dos esclarecimentos da autarquia.

“Cumpriu a sua função como jornalista. É um jornalista muito experiente, qualificado e cuidadoso”, assegura a diretora da Agência Lusa. Depois da reunião de sexta-feira, João Gaspar foi excluído da lista de endereços que recebem as comunicações à imprensa da autarquia, revelou Luísa Meireles. Sem ter certezas sobre que outras repercussões poderá ter a referida retirada de confiança a João Gaspar, não antecipa mudanças da parte da Lusa. “Aguardemos, mas, por nós, ele mantém-se a fazer a cobertura da Câmara.”

De acordo com o Notícias de Coimbra, duas jornalistas do Diário As Beiras e do Diário de Coimbra também abandonaram a reunião de Câmara em solidariedade com João Gaspar. Em reação ao episódio, o PCP lamentou a “tentativa de condicionamento do livre exercício do jornalismo” de Ana Abrunhosa e disse que as acusações da autarca evidenciaram “traços de prepotência”.