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Dez dias depois, Artemis II aterra e lança regresso à Lua. Depois vem Marte?

Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen amararam no Pacífico após 10 dias de missão. Dados já estão a ser recolhidos para alimentar Artemis III e futura alunagem.

Martim Andrade
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Dez dias e uma volta à Lua depois, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen regressaram a Terra. No início desta semana, bateram o recorde e foram onde nenhum humano alguma vez tinha ido. Agora, estão de volta com horas de dados por analisar e uma porta aberta para uma alunagem nos próximos anos.

A amaragem, que aconteceu na madrugada de sábado, estava na mente dos quatro astronautas desde o momento em que foram escolhidos para integrar esta missão. “Tenho pensado na reentrada desde o dia 3 de abril de 2023. Temos de voltar, todas as coisas boas veem connosco, temos tantas fotografias, tantas histórias por contar”, referiu o piloto Victor Glover a menos de 48 horas do derradeiro momento.

O sucesso de 10 dias de missão ficariam decididos naquele intervalo de 13 minutos. Entraram na atmosfera terrestre a quase 40.000 km/h e numa cápsula que excedia os 2.700 ºC no seu exterior, pelas 00h53, tal como esperado. Protegidos por um escudo térmico, a tripulação da Artemis II acionou nove paraquedas diferentes, à medida que a altitude foi diminuindo e, pelas 1h07, Wiseman, Glover, Koch e Hansen estavam a flutuar no Oceano Pacífico.

https://twitter.com/NASA/status/2042756933686337713

Equipas da NASA, da Guarda Costeira, e da Marinha norte-americana estavam posicionadas perto da costa de San Diego horas antes de a nave Integrity estar sequer pronta para aterrar. Ainda assim, as operações de resgate só puderam começar cerca de 30 minutos depois da amaragem, para garantir que a cápsula fazia o seu “power down”, ou seja, garantir que os sistemas da nave estavam desligados e, assim, havia condições de segurança tanto para a tripulação como para as equipas de resgate.

Christina Koch foi a primeira a respirar o ar terrestre, pelas 2h32, e o comandante Reid Wiseman foi o último, devido à configuração dos lugares a bordo. Os quatro astronautas foram retirados um de cada vez para uma espécie de “alpendre insuflável” que se montou mais de uma hora após a aterragem mesmo à saída da porta da cápsula, depois de quatro médicos — um por cada membro da tripulação — terem entrado naquele espaço apertado para verificar o estado de saúde de cada um. Neste local no exterior da nave, depois de ter sido dada a “luz verde” pelos profissionais de saúde, a tripulação teve a oportunidade de se adaptar às condições de gravidade terrestre, ao fim de 10 dias de microgravidade.

Foi após 20 minutos de adaptação que apareceu um helicóptero para transportar cada um dos astronautas até ao navio USS John P Murtha, onde foram recebidos com um abraço do administrador da NASA Jared Isaacman, antes de partirem para uma primeira vaga de exames médicos. Daqui, a próxima passagem será San Diego — finalmente, em terra — para observações adicionais, e só depois seguirão a bordo de um jato da NASA a caminho de Houston e do Johnson Space Center, para se reencontrarem com a equipa que os acompanhou não só nos últimos 10 dias de missão mas durante os vários anos de preparação que culminaram neste dia.

Um “voo teste” que poderá “inspirar” a próxima geração a ir onde a humanidade nunca foi

Mesmo antes de subirem ao topo do foguetão SLS e terem entrado naquela pequena cápsula onde viveram nos últimos 10 dias, o objetivo desta missão era claro. O sucesso do programa Artemis foi projetado para ser definido pela eventual alunagem. O prazo foi variando ao longo da última década, mas manteve-se firme que apenas quando astronautas da NASA voltassem a pisar a Lua é que a administração dos Estados Unidos da América estaria satisfeita com o investimento feito na indústria espacial. Entretanto foi adicionada uma base lunar ao final do projeto, mas as prioridades continuam claras.

Por isso, tal como a Artemis I, a Artemis II não foi nada mais que um “voo teste” — mesmo que tenha sido uma missão inédita, histórica e com a capacidade de dar respostas científicas a questões que a humanidade não estava próxima de atingir. Foi a primeira vez desde 1972, quando se realizou a última missão do programa Apollo, que seres humanos saíram da órbita terrestre e foram a caminho da Lua. Tudo para, daqui a 100, 200 anos, virem a “ser esquecidos”.

Este não foi um presságio fatídico delineado pelos aficionados da exploração espacial ou pela administração da NASA. Foram os próprios astronautas que, em diversas ocasiões antes e durante a viagem, garantiram que tinham esse objetivo pessoal. “Espero que sejamos esquecidos. Se formos esquecidos, então o programa Artemis terá sido bem sucedido, teremos humanos em Marte, nas luas de Saturno, fora do Sistema Solar”, projetou o comandante Reid Wiseman, numa conferência de imprensa antes do lançamento.

Mas, no curto prazo, estes astronautas querem “inspirar a Susie e o Johnny”. Neste caso, estes dois nomes não se traduzem em pessoas concretas, foram utilizadas para transmitir a mensagem. “Se calhar inventámos algo que nunca sonharam e inspirámos uma criança algures. Isso seria mágico”, confessou o comandante.

Mas, durante os 10 dias de viagem, os quatro astronautas estiveram presentes nos ecrãs de milhares de pessoas, uma vez que a NASA manteve, durante toda a duração da missão, uma transmissão em direto para aqueles que estivessem interessados em acompanhar integralmente os trabalhos perto da superfície lunar. “Mas que viagem”, descreveu Reid Wiseman, na primeira comunicação com Houston assim que aterraram em pleno Oceano Pacífico.

Durante esta “viagem inesquecível”, como descrita pelos demais integrantes da missão ainda antes de ter terminado, foram registadas centenas de fotografias e armazenadas informações que serão fulcrais para as próximas etapas do programa. Mas também fatores que não estão diretamente ligados aos objetivos inicialmente determinados pela NASA. Foi ainda antes de partirem que detetaram duas crateras que não tinham nome e, daí, surgiu a ideia de batizar estas formações geológicas na superfície da Lua.

Quando as viram com os próprios olhos — e em direto na transmissão online para centenas de milhares de entusiastas —, pediram ao centro de controlo em Houston pela autorização para sugerir nomes. “Integrity“, pelo nome da nave espacial e “Carroll”, numa homenagem à falecida mulher do comandante, foram as designações escolhidas unanimemente pela tripulação para os “pontos brilhantes” que ainda não tinham sido registados. Estes nomes, que vieram a ser aceites pela NASA, vão permanecer nos futuros registos geográficos da Lua e, ao mesmo tempo, impossibilitam que esta missão, estes astronautas e a sua história caiam no esquecimento.

“Isto não é um evento único, é apenas o começo”. Sucesso da Artemis II lança Artemis III e futura alunagem — e ida a Marte?

“Nem sei o que dizer”, comentou o administrador da NASA 20 minutos após o regresso dos quatro astronautas da missão Artemis II. “A minha criança interior não consegue acreditar naquilo que acabei de ver”, confessou Jared Isaacman, a bordo do navio que viria a receber a tripulação momentos mais tarde. “Não podia estar mais orgulhoso”, acrescentou, agradecendo o “trabalho árduo” feito em todo o país e em colaboração com os parceiros internacionais, como a Europa, para levar esta missão adiante.

Sobre os astronautas que agora regressam a casa, Isaacman descreveu “excelentes comunicadores, quase poetas”, e que “não imagina uma melhor tripulação” para esta primeira missão tripulada de regresso à Lua ao fim de mais de 50 anos. “Estes foram os embaixadores que escolhemos enviar para as estrelas”, refere.

Uma vez que os quatro astronautas já chegaram à Terra, em segurança, Jared Isaacman sublinha que “isto não é um evento único, é apenas o começo”. Agora, começa o trabalho de preparação para a próxima missão do programa Artemis. O administrador não escondeu o seu entusiasmo com a possibilidade de começar imediatamente a recolher os dados e a informação a bordo da cápsula Orion, com o objetivo de aplicar este conhecimento recém-adquirido no projeto em curso da Artemis III, que lançará em meados do próximo ano. “Há muito para celebrar”, concluiu.

Esta próxima missão também será tripulada, só que não vai novamente até à Lua. Ainda não se sabe quem serão os quatro rostos que vão protagonizar a nova iniciativa espacial da NASA, mas sabe-se que o objetivo será testar as funcionalidades das duas opções de módulo lunar que estão a ser desenvolvidas neste momento pela SpaceX e pela Blue Origin, respetivamente. Será, em princípio, o último passo antes de a humanidade voltar a pousar sobre a Lua e dar os primeiros passos na superfície lunar desde Gene Cernan, em 1972.

Aliás, Donald Trump elevou o desafio ainda quando os astronautas continuavam à espera de ser retirados da cápsula Orion. Numa mensagem celebratória na rede social Truth, saudou o trabalho desta tripulação “ótima e muito talentosa” que tinha acabado de concluir uma “aterragem perfeita”. “Toda a viagem foi espetacular e, enquanto Presidente dos Estados Unidos, não podia estar mais orgulhoso”, escreveu, aproveitando para convidar os quatro astronautas para o visitarem na Casa Branca “em breve”. Terminou com uma promessa: “Vamos fazê-lo outra vez e, depois, o próximo passo, Marte!”