“Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará” (Mt 6,6):
“Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei!” (Jo 15,12; cf. Jo 13,34);
“Ao que te ferir numa face, oferece-lhe, também, a outra; e, ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses;” (Lc 6,29).
1 À luz destes ensinamentos de Jesus Cristo que podemos dizer de qualquer político que faça questão de estar sempre a evidenciar publicamente a sua fé e da sua postura face aos outros?
Para responder a esta questão é necessário equacionar vários vectores que vão da teologia moral à ciência política. Porém, antes de responder, volto a reafirmar o que já expressei inúmeras vezes ao longo de quatro décadas, inclusive em artigos aqui publicados: as opções individuais, independentemente do âmbito, devem ser respeitadas e defendidas. E os direitos individuais, desde que respeitem as leis e não se transformem em imposições sobre terceiros, também.
Não ponho em causa as escolhas de André Ventura, Pedro Frazão e Rui Paulo Sousa. Mas, como sempre fiz, não me abstenho de criticar a incoerência e a inconsistência da prática de cada político.
Quando um político, seja de direita, de esquerda ou de qualquer quadrante, exibe publicamente práticas religiosas para obter capital político, isso costuma ser descrito como instrumentalização política da fé, performance religiosa e, em certos casos, até como hipocrisia no sentido bíblico de hypokrités, i.e., alguém que “representa um papel”.
Não vou julgar as intenções dos actos para perceber o fenómeno. Analisar o uso público da religião como ferramenta de comunicação política é suficiente.
2 A leitura do versículo 6,6 do Evangelho de São Mateus é bastante clara. Cristo não condena ou proíbe a oração pública nem a prática comunitária, mas sim a ostentação – a encenação da fé e a busca de reconhecimento humano como objectivo da oração. A distinção essencial está na intenção: rezar por amor a Deus ou fazê-lo para construir uma imagem religiosa diante dos outros.
Por outras palavras, quando um político faz questão de ser visto a entrar numa igreja, de mostrar publicamente que vai à missa ou em posar em atitude de oração, a questão moral não é se é ou não católico, mas se o gesto é autêntico ou encenado. A crítica cristã incide sobretudo na incoerência entre a aparência de fé e a vida concreta – algo que o Papa Francisco tem denunciado ao falar da hipocrisia religiosa e da instrumentalização da fé. Assim, quando a prática religiosa se transforma numa performance para as câmaras, o paralelismo com este ensinamento evangélico torna-se evidente. Não se trata necessariamente de julgar a pessoa como má, mas de reconhecer que o gesto pode contrariar o princípio evangélico da interioridade.
Do ponto de vista da teologia moral católica, a tradição é inequívoca: a fé não deve ser usada como instrumento de poder nem reduzida a propaganda. A humildade pede discrição. Não foi a hipocrisia religiosa um dos alvos mais frequentes das críticas de Cristo? Por isso, teólogos e moralistas descrevem tais atitudes como incoerência performativa, escândalo moral ou manipulação do sagrado.
Já na ciência política, esse comportamento é frequentemente entendido como sinalização religiosa, uso estratégico da identidade religiosa ou capitalização simbólica da fé – um fenómeno comum em diversas democracias. A lógica é simples: a exibição pública de religiosidade pode reforçar a ligação com determinados eleitores.
Sintetizando, estes comportamentos podem ser vistos como hipocrisia quando há contradição entre discurso e prática; como incoerência quando a oração se torna espetáculo; e como instrumentalização quando a fé é usada como ferramenta de marketing político.
O ponto é este. O critério não é esconder toda manifestação religiosa, mas purificar a intenção: agir bem sem exibicionismo, rezar sem vaidade e viver a fé com humildade. O testemunho público pode ser legítimo. Porém, a fé não deve deixar de ser vivida e passar a uma encenação partilhável. Em termos cristãos, a questão não é mostrar que se acredita, mas evitar transformar a fé num palco.
Jesus Cristo recomendou discrição na oração. A espiritualidade cristã nasce na humildade, não na exibição! A vaidade espiritual é, para Cristo, uma forma de cegueira!
3 Este foi novo mandamento de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei!” (Jo 15,12; cf. Jo 13,34).
Em nenhum momento Cristo impôs limites ao amor, nem o restringiu a um círculo de escolhidos, ou de privilegiados ou até um único povo. Ao contrário do que o Chega diz, o amor de Cristo também deve ser dado aos imigrantes. O Papa Leão XIV está sempre a lembrar a incondicionalidade do amor de Cristo, e a incoerência de quem diz o contrário, porque o amor que Ele exemplifica é universal, fraterno, sacrificial!
É curioso, portanto, ver como certas pessoas que se autoproclamam moralmente superiores fazem exatamente o contrário do que Cristo ensinou. São sectários e desconfiados, preconceituosos e intolerantes, selectivos e discriminadores. O “amor” que proclamam não é universal: é um amor limitado apenas para si e para os seus. Falta-lhe sacrifício, falta-lhe entrega, falta-lhe Cristo!
Ventura e os seus correligionários fazem questão de ser vistos na Igreja. E partilham Ad nauseam esses momentos. Curiosamente, na sua acção política, não dão a outra face preferindo instigar a divisão, a intolerância e a violência. Paradoxalmente, “dar a outra face” (Mt 5,39; Lc 6,29) não é covardia nem passividade. É um acto de coragem, incluindo moral. É a força de não responder ao mal com o mal, de quebrar o ciclo da violência pela firmeza da paz. Foi aqui que Cristo rompeu com a Lei de Talião – “olho por olho, dente por dente”. É preciso grandeza para não descer ao nível do agressor.
Se Jesus Cristo voltasse hoje, muitos dos fariseus contemporâneos – autênticos vendilhões da moralidade e mercadores da fé – não O reconheceriam. Nem tampouco perceberiam que Ele estava ao seu lado!
Por isso pergunto: ainda não Chega de hipocrisia?