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(A) :: "Isto é menos gente do que há quatro anos". A terra natal de Orbán ainda sai à rua em peso para o ver, mas o Tisza instaurou divisões

"Isto é menos gente do que há quatro anos". A terra natal de Orbán ainda sai à rua em peso para o ver, mas o Tisza instaurou divisões

A dois dias das eleições, o tradicional comício de Orbán em Székesfehérvár move multidões e a ida às urnas domina as conversas. Mas o aparecimento do Tisza dividiu a cidade e as famílias ao meio.

Madalena Moreira
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A subida de Viktor Orbán ao palco é apoteótica. Centenas de bandeiras erguem-se no ar, criando uma maré de vermelho, branco e verde, e ouvem-se gritos pelo líder húngaro. “Viktor, Viktor, Viktor!”, aclama a multidão reunida na praça da Câmara Municipal de Székesfehérvár. O edifício atrás do palco também está coberto com as cores da bandeira húngara e a plateia de eleitores do Fidesz estende-se para lá da praça, ocupando as ruas à volta. Correspondendo ao entusiasmo do público, o primeiro-ministro, que procura a quarta reeleição consecutiva, garante logo à partida que “sem o liceu não estaria aqui”.

A declaração explica-se com o facto de Székesfehérvár ter visto nascer Viktor Orbán. A infância do agora líder do Governo foi depois passada noutras localidades, antes de regressar a esta cidade, a 60 quilómetros de Budapeste, para concluir o ensino secundário em 1977. Passados quase 50 anos, a cidade consolidou-se como um bastião do Fidesz, mas a tendência pode terminar no domingo — uma análise do jornal húngaro independente, Átlátszó identifica Székesfehérvár como um dos distritos que tanto podem cair para o partido da oposição, o Tisza, como para o Fidesz. Por esse motivo, a cidade pode servir de termómetro à noite eleitoral.

Como filho da terra, Orbán alimenta a ligação com Székesfehérvár e a cidade tornou-se ponto de passagem obrigatório na reta final das últimas campanhas eleitorais. Em 2026, Orbán não faltou à tradição e, esta sexta-feira, os habitantes de Székesfehérvár não faltaram ao encontro.

Bençãos de Deus e fotos com o primeiro-ministro. O comício de Orbán é “um evento de família”

János Tunikórt e a mulher chegam à praça da Câmara Municipal quando ainda falta uma hora para o evento do Fidesz começar. Ambos estão na casa dos 60 e a mulher move-se devagar, devido a uma doença que a obrigou à reforma antecipada, mas não querem perder o evento. “Estamos aqui rodeados de igrejas, é sinal que Deus vai abençoar estas eleições”, declara a mulher, que prefere não dizer o nome.

A maior parte das pessoas no evento são idosos, um espelho de um país envelhecido, principalmente fora da capital. Muitos trouxeram pequenos bancos e cadeiras de campismo, para esperarem sentados pelo início do evento. Um casal trouxe almofadas, que colocou no banco de jardim onde está sentado. O resto do banco é ocupado por uma mãe com uma criança pequena, que abana uma bandeira da Hungria com entusiasmo — o segundo grupo mais numeroso no público são as famílias.

Attila Becskey e a mulher trouxeram os dois filhos pequenos, um rapaz e uma rapariga, que partilham do entusiasmo generalizado. Vieram de propósito para o evento, pela primeira vez, e estão curiosos para ver o primeiro-ministro. Attila diz que as crianças, ambas de bandeira em punho, queriam uma foto de Orbán. De Orbán ou ao lado de Orbán? “Acho que por agora basta uma dele”, diz a mãe das crianças a rir. Mas se surgir uma chance melhor… A hipótese parece animar ainda mais as crianças.

Aos 16 anos, Peter Oláh já não tem idade para estes entusiasmos infantis, mas também ainda não tem idade para votar, lamenta. Bem no centro da multidão, entre os gritos e os cânticos, explica que veio com o pai e com o grupo religioso a que pertencem e que “quer encorajar as pessoas da [sua] idade a prestar atenção à política”. Fala num inglês fluente, sob o olhar atento e orgulhoso do pai, László, que explica que nunca viu uma eleição como esta e diz estar a presenciar História.

“É um evento de família”, resume Bulcsú, algumas filas atrás de Peter. O estudante de 18 anos, que prefere não dar o apelido, destaca-se no meio da multidão devido ao boné azul com as palavras “Make Europe Great Again” e “Wake up” (“tornar a Europa grande outra vez” e “acordem”, em tradução livre), que expressam o que diz ser as suas maiores preocupações: a situação política internacional e a necessidade de combater a “ideologia woke“. Também ele veio com a família, explica, apontando na direção onde estão os familiares. A mãe levanta um braço e acena com entusiasmo ao filho. “Eles são todos parte da comunidade dos patriotas, por isso estamos sempre aqui”, diz, com um sorriso estampado no rosto.

Em todas as direções, o ambiente é de festa. O sistema de som passa músicas populares da Hungria, de vários estilos musicais, e as pessoas cantam em coro e chamam os amigos que veem passar para poderem trocar impressões sobre o evento. Mas a verdadeira explosão de energia dá-se quando Orbán sobe ao palco. As almofadas ficam esquecidas no banco, quando o casal se levanta para tentar ter um vislumbre do primeiro-ministro, as crianças mais novas são colocadas às cavalitas para conseguirem ver o palco, as mais crescidas ficam em pé em cima dos bancos de jardim.

“É muito difícil ser primeiro-ministro”. As promessas do carismático Viktor Orbán a idosos e famílias

“Se vocês não estiverem cansados no final disto, não fizemos bem o nosso trabalho”, declara Viktor Orbán, em cima do palco, quando o entusiasmo acumulado da última hora de antecipação finalmente se acalma. Os problemas e as promessas para cidade já tinham sido abordados pelo presidente da Câmara e pelo representante do Fidesz neste círculo eleitoral. A Orbán cabe apenas executar o guião que tem mantido em todos os eventos de campanha e que os seus apoiantes já sabem de cor.

Começa pelas críticas à Ucrânia e a à União Europeia (UE), que dificultam a aplicação das políticas económicas de Budapeste só para alimentar a guerra contra a Rússia, acusa. E dá a primeira alfinetada à oposição. “Peço, por favor, aos apoiantes do Tisza que fiquem apoiados num só pé até a Ucrânia ganhar a guerra”, diz, num tom quase brincalhão, quando se dirige à oposição sem referir o nome de Magyar. A plateia responde com mais risos.

Depois, Orbán joga as cartas na direção dos grupos mais representados no público, os idosos e as famílias, e promete novos benefícios e incentivos fiscais para estes grupos — se a UE e a continuação da guerra assim o permitirem, claro está, argumenta. As promessas são as mesmas desde que a campanha começou, as piadas também, mas o público responde efusivamente a tudo.

O guião do evento está bem estudado e, na manhã do evento, já tinha sido traçado ao Observador por dois apoiantes do Fidesz, quando elencaram o que os leva a votar no partido. György András Répási está sentado num banco de jardim, de olhos fechados e rosto virado para o sol que apareceu brevemente entre as nuvens. Apesar de falar sempre num tom calmo e tranquilo, o voto deste distribuidor da Herbalife de 47 anos (o pin da marca de suplementos é visível na pasta que tem ao seu lado), foi decidido principalmente pela figura aguerrida e energética do primeiro-ministro.

“Sempre gostei como, quando Viktor Orbán fala, ele diz sempre que a Hungria pertence à Hungria. É muito difícil ser primeiro-ministro, ser o responsável, é preciso estar sempre pronto a toda a hora e tentar resolver todos os problemas que afetam as pessoas”, diz com um sorriso.

Já Tibor Gyovai prefere as políticas que Orbán apresenta. O reformado de 69 anos fala animadamente sobre as que mais lhe chamam à atenção, precisamente as mesmas que o primeiro-ministro viria a mencionar no comício: a posição face à guerra na Ucrânia e o facto de fazer frente à UE e, a nível interno, a expansão do sistema de pensões, as isenções fiscais para jovens e os apoios às famílias numerosas. E espera que mais medidas como estas possam continuar a ser implementadas quando o Fidez ganhar. “Se o Fidesz ganhar“, corrige, entre risos.

“Espero que seja um bom evento, porque as pessoas que vêm, vêm para [apoiar] o primeiro-ministro e o Fidesz”, declara Tibor horas antes de o evento começar. As expectativas são comedidas devido ao facto de, noutros eventos, Orbán ter sido interrompido por “pessoas da oposição a tentar perturbar”.

Apesar das preocupações, o evento desta sexta-feira decorre sem incidentes — mas não sem comparações. Ao final do dia, nas últimas filas do evento, onde já é possível circular entre a multidão compacta, há comparações feitas em surdina: “Isto é menos gente do que há quatro anos“, comenta um grupo. “No [evento do] Tisza estava mais gente“, discute outro.

Uma campanha “suja” entre os “apegados ao sistema” e os que “caíram na propaganda”

“Mudaram o palco de lado”. O comentário é feito por uma idosa, pouco depois de os sinos das várias igrejas no centro de Székesfehérvár indicarem que faltam apenas 15 minutos para as 13h — neste momento, faltavam ainda cinco horas para o comício de Viktor Orbán. A mulher de 80 anos, que recusa dar o nome, segue a caminho do cabeleireiro e pára para ver os trabalhos de montagem na praça central da cidade, muito perto da sua casa. Garante que, apesar da curiosidade que a fez parar, não irá marcar presença no evento dessa tarde.

Contudo, também recusa dizer abertamente em quem vai votar. “É segredo”, declara com um sorriso, enquanto explica que mantém a posição para não criar fricções com a família e amigos durante aquela que diz estar a ser uma campanha “suja”. O relato que faz é repetido ao longo do dia por outras pessoas ouvidas pelo Observador: nas últimas semanas, o tema das eleições tomou conta das conversas e dividiu as pessoas em dois grupos, os apoiantes do Fidesz e os apoiantes do Tisza.

Virando à esquerda depois da praça da Câmara Municipal, vê-se ainda mais movimento entre lojas, cafés e serviços públicos. As ruas ainda não estão cortadas e várias pessoas aproveitam a manhã de sexta-feira para cumprir afazeres no centro da cidade. Entre um sítio e outro, as pessoas param na rua para cumprimentar os conhecidos e, em muitos casos, as palavras soltas ouvidas na rua permitem perceber que falam sobre as eleições. Porém, a maior parte das pessoas abordadas pelo Observador recusa “falar de política”.

É o caso da mulher de Tibor, o reformado que vota no Fidesz que falou com o Observador, e de uma amiga. Os três conversam animadamente no meio da rua, mas as duas mulheres rapidamente se afastam quando o homem aceita falar e, sem rodeios, expressa o seu apoio pelo Fidesz e pelo primeiro-ministro Viktor Orbán. “Eu acho que muito mudou, a campanha e a oposição tornaram-se muito mais agressivas. É assim mesmo entre as pessoas que conheço. Eles estão tão apegados ao antigo sistema e ao Partido Tisza”, lamenta.

A mesma divisão transparece na relação de Bence e Tomi. Por volta da hora do almoço, os dois amigos fumam cigarros eletrónicos perto das carrinhas de montagem do Fidesz, nas traseiras do evento. Bence, que não aceitou dizer o apelido, tem 24 anos, usa bigode e o cabelo cortado num mullet e fala numa mistura de inglês e húngaro com muitas hesitações. Tem a certeza que, no domingo, irá colocar a cruz no candidato do Fidesz, mas não está totalmente satisfeito com a sua decisão. “Há um ditado em húngaro: nós não escolhemos o melhor, escolhemos o menos mau“, explica.

"Há um ditado em húngaro: nós não escolhemos o melhor, escolhemos o menos mau. As pessoas votam no Tisza e acham que vão acordar na manhã seguinte e vai começar a chover dinheiro."
Bence, 24 anos, eleitor do Fidesz

Mais do que uma apreciação por Orbán — aliás, nas últimas eleições, votou na coligação da oposição — o voto é motivado por uma desconfiança de Petér Magyar, que acusa de ter um “complexo de Deus” e estar rodeado de pessoas sem qualquer experiência política. “As pessoas votam no Tisza e acham que vão acordar na manhã seguinte e vai começar a chover dinheiro”, desabafa, com ar frustrado. Tomi, ao ouvir o amigo, aceita falar para apresentar uma posição completamente oposta. Também ele não morre de amores pelo Tisza nem por Magyar, mas irá votar na oposição, como voto útil.

“Odeio que esta propaganda dure há 16 anos e fico muito triste pela minha avó [que caiu nela]. Tenho muito medo do que pode acontecer”, afirma com ar sério, enquanto explica que os pais também são simpatizantes do Fidesz e que, por isso, evita falar sobre política com eles, dada a sua distância ideológica. “Adorava ter partidos de esquerda no Parlamento, mas o DK [Coligação Democrática, partido de esquerda que liderou a oposição em 2022] tem má reputação”, remata com um sorriso triste.

O apoio ao Tisza dos jovens que não podem votar e dos que “sonham” com a sua chegada à liderança

A escola secundária onde Viktor Orbán estudou fica a cerca de 10 minutos a pé da praça onde se reunirão, horas mais tarde, milhares de pessoas. Ao primeiro vislumbre parece um prédio normal, apenas a bandeira da Hungria na fachada denuncia que se trata de um edifício público, mas, através dos vidros do rés do chão, é possível ver globos pousados nos parapeitos e redes de baliza num ginásio. Porém, as portas estão fechadas e os pátios com campos de basquetebol estão desertos — é o último dia das férias da Páscoa.

Muitos dos estudantes da escola secundária Teleki Blanka — e das outras escolas da zona — aproveitam a tarde do último dia de férias no centro comercial perto da escola: vão ao cinema, juntam-se na praça da alimentação ou simplesmente olham para as montras. A grande maioria são adolescentes que ainda não podem votar, alguns nascidos já depois de Orbán ter chegado ao poder em 2010, mas o facto de estudarem no mesmo sítio que o primeiro-ministro estudou é a única semelhança que têm com ele. Quem verdadeiramente os entusiasma na política é Petér Magyar, revelam. Alguns arrancam cartazes com a cara do líder da oposição para levar para casa, outros ouvem os seus comícios e seguem-no nas redes sociais e todos querem que, no domingo, chegue a primeiro-ministro.

Ao lado do centro comercial, Katinka espera pelo autocarro ao lado da mãe para regressarem a casa. Também fez o ensino secundário em Székesfehérvár e, aos 20 anos, vai votar pela primeira vez no domingo e quer motivos para celebrar. Mas tem algumas reservas. “Depois de tantas desilusões, é muito difícil acreditar que pode haver mudanças significativas”. A mãe, Kati, — Katinka é diminutivo de Kati, e mãe e filha têm o mesmo nome — diz trabalhar numa fábrica, mas é a situação da filha que mais a preocupa: depois de ter concluído o secundário na área de economia e gestão, sem encontrar trabalho na área, começou a trabalhar num supermercado.

Nem as isenções fiscais para jovens a ajudam a ganhar um salário digno e, por isso, Kati também vai votar no Tisza, revela. “Precisamos de uma mudança, isto não é sustentável. Mas estamos esperançosas”, diz, levantando o braço para tocar no ombro da filha, bastante mais alta, que sorri em resposta. Antes de correr para apanhar o autocarro, Katinka revela outro sonho: quer estudar na universidade.

A tendência para os mais novos votarem no Tisza é confirmada horas mais tarde, no evento do Fidesz, por Bulcsú, o jovem do boné azul com as palavras “Make Europe Great Again” que foi com a mãe até Székesfehérvár. “Eu não estou de acordo com a maior parte das pessoas na minha escola e fico muito triste com isso. Eles preferem o Petér Magyar nestas eleições e vão votar nele”, diz, sem se arriscar a fazer previsões. Mas as fricções de que algumas gerações mais velhas se queixam não se reflete nas suas amizades. “Temos muito debates, muitos debates bons, mas nenhum de nós está a espalhar ódio”, garante. Em cima do palco, Orbán garante o mesmo: o Fidesz é o partido da paz, da união, da cooperação e não do ódio. O público aplaude mais uma vez.

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