Lisboa tornou-se um paradoxo urbano difícil de defender e impossível de ignorar. Não somos uma cidade pobre, não somos uma cidade sem meios e definitivamente, não somos uma cidade sem ambição. No entanto, no confronto direto com cidades espanholas comparáveis como Madrid (apenas enquanto capital, mas já lá vamos), Sevilha ou Bilbau, revela-se uma realidade desconfortável. Lisboa tem recursos de topo, mas resultados de segunda linha.
Comecemos pelo que é objetivo, mensurável, incontornável. Por opção tomarei os exemplos espanhóis como referencia dado ser um país com cidades bem cuidadas.
Lisboa dispõe de um orçamento anual de cerca de 1.345 milhões de euros para uma população de aproximadamente 545 mil habitantes. Isto significa que a cidade gasta cerca de 2.468 euros por pessoa. Em termos territoriais, investe cerca de 13,45 milhões de euros por quilómetro quadrado.
Madrid, por contraste, gere um orçamento de 6.277 milhões de euros, quase cinco vezes mais, mas para uma escala que a torna incomparavelmente mais exigente pois falamos de cerca de 3,3 milhões de habitantes e uma área seis vezes superior. Ainda assim, o gasto por habitante fica-se pelos 1.902 euros e para os seus 604km2, 10,4milhões por habitante. Menos. Bastante menos que Lisboa. Apesar disso, Madrid apresenta-se como uma cidade mais limpa, mais coerente, mais previsível na sua manutenção e organização. Com um espaço público mais cuidado e mais respeitado e melhores transportes e serviços públicos.
Sevilha, com um orçamento de 1.380 milhões de euros e cerca de 690 mil habitantes, posiciona-se nos 2.000 euros por pessoa. Com cerca de 140km2, Sevilha apresenta um custo de 9,9 milhões por km2, substancialmente menos que Lisboa. Porém, a experiência urbana apresenta continuidade, cuidado, consistência e intenção.
Bilbau, por sua vez, eleva ainda mais o contraste. Com 751 milhões de euros para cerca de 345 mil habitantes, atinge aproximadamente 2.177 euros por pessoa e uns impressionantes 18,3 milhões por quilómetro quadrado (41km2). Ou seja, menos por pessoa, mais por km2. O resultado é uma cidade que se reinventou, que mantém padrões elevados e que executa.
Perante estes números, o eterno argumento do país pobre e da falta de recursos cai por terra com estrondo. Lisboa não está subfinanciada. Desenganemo-nos.
No entanto, basta caminhar dez minutos pela cidade para perceber que algo está profundamente errado. Passeios degradados convivem com intervenções recentes. Estradas a roçar o intransitável. Obras iniciam-se sem calendário e arrastam-se sem urgência (todos sabemos que sempre que vemos a “abelhinha” da CME sabemos que aquele passeio nunca mais será o mesmo). A limpeza urbana oscila entre o pouco aceitável e o totalmente negligente. Os jardins igual. A sinalização é, frequentemente, um exercício de improviso. A cidade não falha num ponto específico, mas sim transversal, sistémica e repetidamente. A falta de brio é palpável.
O problema, é estrutural, cultural e, principalmente, institucional.
Madrid prova que escala não é desculpa pois se uma cidade com mais de três milhões de habitantes consegue garantir padrões consistentes de execução com menos dinheiro por pessoa, então a falha de Lisboa não pode ser atribuída à complexidade. Tem de ser atribuída à forma como é gerida.
Entramos então no verdadeiro núcleo desta questão que é a ausência quase total de accountability, palavra moderna e pomposa para dizer algo simples: responsabilização.
Em Portugal, em particular ao nível municipal, consolidou-se uma cultura onde a responsabilidade é difusa e a consequência é inexistente. Decisões são tomadas sem dono claro. Projetos falham sem responsáveis identificáveis. Prazos derrapam sem qualquer penalização. Talvez mais grave do que isto tudo, a incompetência não tem qualquer custo.
Ninguém é despedido ou sequer repreendido por fazer um mau trabalho. Ninguém é afastado por execução sistematicamente deficiente. Ninguém é responsabilizado por uma cidade que, apesar de bem financiada, apresenta sinais evidentes de negligência.
Este é, para mim, o verdadeiro problema de Lisboa e, em larga medida, do país. Não é a falta de talento, nem a falta de dinheiro. É a ausência de exigência.
Sem consequência, não há urgência. Sem urgência, não há execução. Sem execução, não há cidade.
Os contra-argumentos surgem, previsíveis, com sempre. A pressão turística que Lisboa sofre por metro quadrado é um facto mas essa pressão gera também receita que, por sua vez, justifica ainda mais uma gestão eficaz. Além disso, Madrid e Sevilha estão longe de ser cidades alheias ao turismo. A diferença não está na pressão mas sim na resposta.
Outro argumento é a antiguidade e irregularidade da cidade. Toda a Europa é antiga e inúmeras cidades europeias conseguiram transformar essa complexidade em valor e não em desculpas.
Fala-se ainda de custos, de especificidades e de condicionantes locais. Tudo parcialmente válido, mas tudo absolutamente insuficiente para explicar a evidência visível de uma cidade mal mantida face aos recursos de que dispõe.
Lisboa sofre de um problema mais profundo do que qualquer variável técnica pode explicar. Sofre de uma cultura de tolerância ao “suficiente”, ao “vai-se fazendo”, ao “não está ótimo, mas serve”. Uma cultura onde o provisório se eterniza e onde o remendo substitui a solução. Nenhuma obra é feita para durar pois se assim fosse, talvez se fizessem menos e isso não servisse a alguns.
No entanto, quando analisamos a cidade o que temos é uma escala absolutamente controlável, um orçamento robusto, visibilidade internacional e muita falta de exigência e responsabilização.
Uma cidade não se mede pelo que promete, mas pelo que entrega e Lisboa, hoje, promete muito e executa muito pouco.
Talvez esteja na altura de abandonar a indulgência confortável e encarar o problema de frente. Não com discursos, mas com consequências. Não com intenções, mas com resultados. Não despejando dinheiro dos contribuintes mas responsabilizando quem o aplica e como.
Enquanto a regra forem gastos de topo e gestão medíocre, a cidade assim continuará. Cara, desorganizada e inexplicavelmente mal cuidada.