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(A) :: Prós e contras da ressurreição de Jesus de Nazaré

Prós e contras da ressurreição de Jesus de Nazaré

A dificuldade em reconhecer Cristo ressuscitado é a melhor prova da sua verdade histórica e sobrenatural originalidade.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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A ressurreição de Jesus Cristo é um dos principais dogmas cristãos: São Paulo afirma que, se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé (1Cr 15, 14). Contudo, não faltam argumentos bíblicos que parecem contrariar essa afirmação. A saber:

1º – Ninguém sabe quando aconteceu exactamente a ressurreição de Jesus de Nazaré, pelo que é problemático acreditar num facto extraordinário que ninguém viu.

2º – Os soldados que faziam guarda ao sepulcro, e que foram as mais próximas testemunhas da alegada ressurreição, declararam na altura que “os seus discípulos vieram de noite e, enquanto estávamos a dormir, roubaram-no” (Mt 28, 13).

3º – São as mulheres as primeiras discípulas de Jesus que constatam a ausência do seu corpo, que não explicam pela sua ressurreição, pois supõem que o cadáver foi roubado: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram” (Jo 20, 2).

4º – Também Maria Madalena interpreta desse modo o facto de o túmulo se encontrar vazio: “levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13) e, quando finalmente vê Jesus, não o reconhece, “julgando que era o hortelão” (Jo 20, 15).

5º – Nesse dia, dois discípulos regressam a Emaús e aparece-lhes Jesus de Nazaré (Mc 16, 12-13), que lhes fala demoradamente da sua paixão e morte (Lc 24, 13-27), mas, apesar de estarem com ele e a falarem dele, não o identificam.

6º – Ao final daquele primeiro dia, dito da sua ressurreição, Jesus também apareceu a dez dos seus apóstolos, que estavam “ainda sem querer acreditar e estupefactos” (Lc 24, 41). Mas, se estavam sem “querer acreditar”, não acreditavam.

7º – Tomé estava ausente e não só se negou a acreditar na ressurreição como, para nela crer, exigiu tocar com as suas mãos nas chagas de Jesus (Jo 20, 24-25).

8º – Nem sequer na terceira aparição de Jesus ressuscitado aos seus apóstolos é por eles reconhecido de imediato, apesar de o verem e ouvirem (Jo 21, 1-14).

9º – São Paulo disse ter visto Jesus no caminho de Damasco (At 9, 1-19), mas ainda o não conhecia e, por isso, também não podia certificar a sua verdadeira identidade.

10º – Os Evangelhos referem quatro ressurreições: a da filha de Jairo (Mc 5, 21-43), a do filho da viúva de Naim (Lc 7, 11-17), a de Lázaro (Jo 11, 1-46) e a de Jesus de Nazaré. Nas três primeiras, ninguém duvidou de que o ressuscitado era a pessoa que antes tinha morrido, mas nenhum amigo de Jesus o reconheceu depois de ressuscitar!

Que dizer a estes argumentos, que parecem negar a realidade histórica da ressurreição de Jesus Cristo? Pois bem, pode-se responder como segue, respectivamente:

1º – Não há, de facto, nenhuma testemunha da ressurreição e, por isso, não se sabe o momento em que a mesma ocorreu, mas há mais de 500 testemunhas do ressuscitado! (1Cr 15, 6). Ninguém assistiu à criação, mas não restam dúvidas quanto à sua verdade, atestada pela existência do mundo, afirmada pela Bíblia e explicada pela teoria do Big Bang.

2º –  A desculpa dada pelos soldados, de que o corpo de Jesus tinha sido roubado enquanto dormiam, é inverosímil: “Astúcia miserável! Apresentas testemunhas adormecidas?! Verdadeiramente estás a dormir tu mesmo, ao imaginar semelhante explicação” (S. Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 63, 15). O facto de não terem sido punidos, por adormecerem enquanto estavam de guarda, com a pena de morte (At 12, 19), prova o contrário do que afirmam: só puderam espalharam o boato que os incriminava porque foram pagos pelos que garantiram a sua impunidade (Mt 28, 11-15).

3º – As mulheres reagiram racional e naturalmente ao facto de o corpo de Jesus não se encontrar onde tinha sido sepultado, o que prova que, não obstante Jesus ter várias vezes profetizado a sua ressurreição (Mt 16, 21, etc.), só nela creriam quando a mesma fosse uma evidência racionalmente inquestionável.

4º – Maria Madalena não reconhece Jesus imediatamente, mas identifica-o quando ele a chama, respondendo de forma imediata, mas respeitosa e formal, não como se fossem amantes, que não eram, mas com a deferência devida ao seu Mestre (Jo 20, 11-18).

5º – Os discípulos de Emaús só reconhecem Jesus ao fim do dia, mas fazem-no com tanta certeza que, de imediato, regressam a Jerusalém, para darem aos apóstolos essa boa nova, o que não teriam feito se neles persistisse alguma dúvida (Lc 24, 32-35).

6º –  A resistência dos apóstolos em aceitar a realidade da ressurreição prova que, por serem “homens sem letras e do povo” (At 4, 13), só a evidência os podia convencer: “não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4, 20).

7º – A incredulidade de Tomé manifesta o seu espírito empírico, ou científico: só acredita no que vê (Jo 20, 26-29). Não crê em boatos, ou rumores: acredita na ressurreição de Jesus quando a mesma é, para ele, uma inegável evidência (1Jo 1, 1-4).

8º – A aparição de Cristo ressuscitado, por ocasião da pesca milagrosa, era já a segunda para Tomé, a terceira para os outros apóstolos, e a quarta para Pedro, que tinha tido mais uma aparição, só para ele, no dia da ressurreição (Lc 24, 34). Já todos estavam em condições de o reconhecer, até porque, embora embarcados, estavam tão perto que puderam dialogar com ele (Jo 21, 4-6). Mas, mais uma vez, só se rendem à realidade da ressurreição quando a mesma se lhes impõe como uma inegável evidência, confirmada pelo carácter milagroso da pesca realizada (Jo 21, 6-7): “nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: ‘Quem és tu?’, sabendo que era o Senhor” (Jo 21, 12).

9º – É verdade que só Saulo testemunhou a aparição de Jesus ressuscitado na estrada de Damasco e que, como o viu então pela primeira vez, não podia estar certo da sua identidade. No entanto, se havia alguém interessado em não ter uma tal experiência era, precisamente, o futuro São Paulo, pois essa constatação o obrigou a uma mudança de vida tão radical que, pouco depois, muitos judeus o queriam matar (At 9, 20-25).

10º – Não houve dificuldade em reconhecer a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro, depois de ressuscitados, mas essa diferença em relação à ressurreição de Jesus de Nazaré é o que melhor prova a sua verdade histórica e radical originalidade sobrenatural. Enquanto aquelas três criaturas regressaram à vida que antes tinham, para depois voltarem a morrer, Jesus Cristo, ao ressuscitar no seu corpo glorioso, inaugurou uma nova vida, que transcende a existência anterior na experiência da comunhão de amor que Deus é.