Diz-se que a ensinar se aprende, mas o inverso também foi verdadeiro, para mim, na vida profissional onde enfrentei os desafios das duas opções. Desde o início da aprendizagem de anestesiologia, fui ensinada, pela minha primeira orientadora, que devemos ser delicados nos nossos gestos e nos procedimentos, atenciosos com as pessoas vulneráveis e receosas, humanos para com aqueles que vão estar com a vida dependente dos nossos atos. Agradeço muito a todos os que me ensinaram ao longo da vida, nesta e noutras áreas. Aprendi a dor nesta especialidade, onde a dor aguda está permanentemente à nossa frente; sabemos manipulá-la.
Com os doentes de dor crónica que ajudei, apoiei, tratei durante mais de trinta anos, aprendi a lidar com a dor, a ver os efeitos de todas as minhas ações. Aprendi a lidar com a minha própria dor que, mais tarde, não tardou em chegar. Até fui conhecida como “mãe da dor” por ter sido pioneira, por ter ensinado profissionais, doentes e famílias.
Ensinar a dor aos que a sentem implica verificar se aprendem a reconhecê-la, a descrevê-la e a exprimir as suas componentes biológicas, psicológicas, económicas e espirituais, até ao que compreendem das propostas terapêuticas, sejam medicamentosas ou não, os seus efeitos colaterais, de interações e de eficácia.
Estes doentes (chamo doentes porque a dor crónica é considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde) devem sempre ser consideradas como pessoas onde a relação de confiança é a base do sucesso. Aprendi com todos eles e ensinei que, na dor crónica, é o cérebro que aprende a dor e a grava. E assim, ensinar que o seu cérebro deve ter uma nova relação com a dor, mais calma, mais confiante, mais controlada, é promover o autoconhecimento e a preservação da saúde mental.
Encantei-me com as áreas da dor nas crianças e a dor nos idosos, de tal maneira que fiz estágios, cursos e participei em trabalhos científicos. Fui chamada de “Madre … de Calcutá” porque lutei muito para sensibilizar os pares a aprenderem a ver a gratidão nos olhos de quem tem o sofrimento e o vê desvanecer. É bom perceber que basta um aperto da mão para estar a gerar felicidade. É afeto? É responsabilidade? Não custa fazer duas ou três perguntas e perceber que os idosos sentem dor. Muitas vezes, estão fechados sobre esse sentimento, outras vezes agitados.
O tratamento desta dor, como outras, tem regras que devem ser seguidas. O fazer a pergunta “sente dor?”, obrigatória para todos os idosos para cumprir um nosso dever de profissionais porque é uma questão ética [Declaração de Montreal e Carta Europeia dos Direitos dos Doentes], tratar a dor e evitar o sofrimento. A avaliação da dor nos idosos nem sempre é fácil porque alguns têm dificuldade em comunicar. Nesses, a nossa observação é fundamental. Às vezes é necessário fazer uma prova terapêutica. Já o tratamento deve obedecer a orientações clínicas que incluem avaliações repetidas e, assim, temos sempre sucesso. Aprender ao longo da vida é bom para melhorar a relação com estes idosos.
Também me perguntam muitas vezes porque ajudei a organizar uma associação de doentes ao estimular um grupo de utentes da unidade de dor a partilharem com outras pessoas os seus sentimentos, as suas conquistas. Talvez porque percebi que a sua ajuda podia ser crucial para combater mitos, crenças e estigmas. E é verdade que esta associação me levou a outros horizontes, como a grupos internacionais, como sejam o dos Direitos dos doentes no Parlamento Europeu e às plataformas Pain Alliance Europe (PAE) e Societal Impact of Pain (SIP). A Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores, já “quase adulta”, com 20 anos, tem permitido manter o cordão umbilical com tantos doentes que vivem com dor, mesmo em outras associações.
Não sei explicar se são o meu espelho, procurando as explicações da minha dor, tanto tempo adormecida, se eu sou o seu exemplo. Aqui já se trata de matéria antiga como a literacia em saúde para a dor que existe na minha vida profissional desde sempre, porque tratar com responsabilidade implica ensinar, compreender, estimular no autocuidado e nos gestos de se tornarem agentes da sua própria saúde. Por isto, propus um grupo de Dor na Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde.
A dor crónica é como um polvo, aprende-se, ensina-se e nunca mais nos livramos dela, em todas as suas vertentes. Ao mesmo tempo, deixa-nos felizes, se aprendemos a tratá-la por tu, seja como profissionais, seja como doentes.
Coordenadora do Programa Regional de Controlo da Dor na Região Autónoma dos Açores (2009, estendido a 2014) é representante na Comissão de Dor da Direção Geral da Saúde. Professora convidada da Universidade dos Açores, tratou doentes de dor crónica há mais de três décadas e dedicou-se à literacia em saúde para a Dor. Representa a ADDCA no Grupo dos Direitos dos Doentes do Parlamento Europeu e na Pain Alliance Europe. É fundadora da plataforma SIP PT e uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.