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Isabelle Huppert: “Mais do que nas pessoas, confio no teatro e no cinema profundamente"

A atriz francesa é a estrela de "Bérénice", que chega ao São João, no Porto, esta semana. Ao Observador, fala sobre o medo e a alegria em palco e a vontade de voltar a trabalhar com Tiago Rodrigues.

Joana Moreira
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Raros são os atores que deambulam entre o ecrã e o palco com a agilidade de Isabelle Huppert. A atriz francesa não larga o cinema: vimo-la no último título do sul-coreano Hong Sang-soo, no último verão, e voltaremos a encontrá-la em Parallel Tales, o novo filme do iraniano Asghar Farhadi, que terá a sua estreia mundial na próxima edição do Festival de Cannes. Mas é no palco que o seu trabalho recente se tem tornado mais radical e é aí que a encontramos agora, a dar corpo à Bérénice de Romeo Castellucci a partir da tragédia de Jean Racine, que se apresenta no palco do Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, de 17 a 19 de abril.

O encenador italiano propõe uma leitura do clássico de 1670 colocando Huppert praticamente a solo em cena, dizendo o texto em verso alexandrino num espaço quase vazio. A peça reduz-se ao essencial: palavra, corpo, ausência. A história permanece a de sempre — o dilema entre amor e dever que leva Tito a renunciar a Bérénice —, mas a encenação elimina personagens e ornamentos, concentrando tudo na presença de uma atriz. É um método que esta tem vindo a aprofundar nos últimos anos, juntando-se a grandes encenadores, como Ivo van Hove ou Robert Wilson, e a grandes textos, de Tchékhov a Tennessee Williams. Em quase todos os projetos, Huppert ocupa o centro absoluto da criação, frequentemente como figura feminina à beira da rutura.

É por isso talvez pouco surpreendente que no palco, no ecrã ou numa entrevista, Huppert ocupe o espaço de igual forma: com um controlo absoluto. Ao telefone com o Observador, a partir de Paris, dá respostas rápidas e concisas. Mantém-se fiel a uma economia de palavras que espelha o seu estilo como intérprete, também ele cheio de ambiguidade e contenção. Troca o inglês pelo francês apenas para sublinhar o émerveillement (maravilhamento, em tradução literal) de certos encontros artísticos, como o que a traz a Portugal esta semana.

A apresentação na Invicta, cidade onde esteve apenas uma vez, “há muito tempo, como turista”, e à qual regressa agora com entusiasmo, acontece perante uma expectativa evidente (comprovada com todas sessões há muito esgotadas) que atribui, em parte, ao trabalho de Castellucci, “um encenador fantástico”, capaz de mobilizar quem “espera muito do teatro”. Sobre a peça, considera-a “um texto sobre o amor e a solidão”, mas também sobre poder e liberdade. Já quando a conversa se aproxima de si, do seu lugar no mundo, recua. Fala do privilégio de representar, da confiança no processo e nos meios, do medo persistente do palco (“estar viva à frente de tantas outras é sempre assustador”), dessa passagem contínua entre o medo e a alegria. Mas recusa qualquer vislumbrar de autorretrato ou desvendar de curiosidades sobre a atriz escolhida pelo jornal New York Times como uma das maiores deste século. Não é preciso muito para perceber que, tivéssemos mais minutos, continuaria a preferir que fosse o texto, o palco e o próprio espetáculo a falar por ela.

Todas as apresentações de Bérénice estão esgotadas, o que revela um nível notável de expectativa e reconhecimento. Como lida com esse tipo de aclamação? É importante? Ou a sua relação com a fama mudou ao longo do tempo?
Deixa-me muito, muito feliz. Acho que se devem, em parte, também, à grande expectativa em torno do trabalho de Romeo Castellucci, que é realmente um encenador fantástico e que tem uma visão muito forte. Quem espera muito do teatro sabe que, provavelmente, mesmo sem saber mais nada, ficará satisfeito com a proposta do Romeo.

Quiçá muitas das pessoas que verão a peça não conhecem o texto de Racine. Ao longo da sua carreira, tem regressado com frequência a grandes textos. O que é que Bérénice ainda lhe diz hoje, nesta fase?
É um texto sobre a solidão… Principalmente sobre o amor e a solidão. Acho que é exatamente sobre isso, sobre poder, claro, e como podemos ser ameaçados e impedidos por esse poder. E sobre a falta de liberdade, uma busca pela liberdade. De certa forma, num sentido muito lato da palavra, como todas as grandes obras e peças, é política, mas é política no sentido de como nos relacionamos com a nossa posição no mundo. Por isso, sim, com certeza que é um texto um pouco político.

Se me permite perguntar, como vê a sua posição no mundo?
Uff! Sinto-me muito, muito privilegiada por poder expressar todas as minhas contradições, medos, tristezas e alegrias, tudo o que sinto como atriz. Acho que é um privilégio enorme. Esta é a minha relação com o mundo: a de alguém privilegiada, altamente privilegiada.

Trabalhar com encenadores como Castellucci implica entrar num mundo artístico muito singular. Já trabalhou com tantos artistas distintos, o que é que ainda a consegue surpreender num processo criativo?
Acho que nunca fico realmente surpreendida. É por isso que gosto de fazer isto. Acho que não gostaria de ficar… Ou, se fico, sou surpreendida no melhor sentido da expectativa. Mas, sabe, às vezes as surpresas também trazem desilusões ou medos e coisas desse género… Trabalhar com alguém como o Romeo Castellucci nunca traz esse tipo de sentimento negativo. Trata-se apenas de mais… émerveillement [risos], deslumbramento, como se estivesse a descobrir algo. Porque é tão inesperado e também porque acho que, por mais formal que o universo dele pareça ser — no melhor sentido da palavra, porque o teatro é formal por definição —, um artista como o Castellucci leva isso ao extremo, tudo o que se pode esperar dessa formalidade. Mas dentro dessa estrutura sinto-me tão livre e sinto-me tão bem… Torna-se quase… Não diria divertido, mas é como um jogo. Sinto-me completamente livre.

Ouço-a falar de medos e isso parece quase impensável quando em palco, na tela ou mesmo em entrevistas, exude sempre uma segurança aparentemente inabalável…
Num palco nunca nos sentimos 100% seguros porque o palco é uma situação tão invulgar… Estar viva num palco à frente de tantas outras pessoas é, por definição, bastante assustador. Mas estava a pensar na ausência de medo no trabalho em si, em relação à ligação com um encenador específico. Quanto a estar no palco e à situação de uma atriz no teatro, sim, é sempre assustador. Mas é sempre uma transformação entre o medo e a alegria. Experimentamos essa passagem entre o medo e a alegria todas as noites. E é por isso que queremos fazê-lo outra vez. Quando termina, sabemos que o medo vai voltar, mas, depois, no momento em que acaba, experimentamos a maior alegria, que é estar em palco. Suponho que é por isso que voltamos a fazê-lo no dia seguinte.

E suponho que seja por isso que regresse ao teatro, por causa dessa sensação.
Sim, sim.

"Estar viva num palco à frente de tantas outras pessoas é, por definição, bastante assustador. É uma transformação entre o medo e a alegria que experimentamos todas as noites. Quando termina, sabemos que o medo vai voltar, mas, no momento em que acaba, temos a maior alegria, que é estar em palco"
Isabelle Huppert

Em 2021, colaborou com Tiago Rodrigues, encenador e dramaturgo português, em O Cerejal, de Tchékhov. Há planos para trabalharem juntos de novo?
Sempre que nos encontramos falamos sobre isso. Vou participar no próximo Festival de Avignon com um papel pequeno, mas muito significativo, não exatamente em palco, mas estarei lá para uma leitura e estou muito feliz por fazer parte do festival. Mas sim, sempre que nos cruzamos falamos sobre o assunto. Tenho a certeza de que, a dada altura, os nossos caminhos se vão cruzar de novo.

Quando olha para a sua carreira, mas também para o futuro, o que lhe apetece fazer? Descobrir coisas novas, aprofundar o que já conhece, como escolhe cada projeto?
Não tenho a certeza, mas eu escolho e também sou escolhida. É uma espécie de combinação cruzada de circunstâncias. Não estou propriamente à procura de nada. Isso faz-se encontro a encontro. Alguns provocamos, outros são inesperados. É uma mistura de várias situações. É para onde a vida nos leva. Às vezes há expectativas, outras vezes dá-se o inesperado e até boas surpresas. Na maioria das vezes, devo dizer, tenho muita sorte. Não sei, gosto de agir segundo o meu instinto, mas quando conhecemos pessoas como o Romeo Castellucci, por exemplo, já não se trata de instinto, torna-se uma evidência. Ou seja, não é muito difícil ter um bom instinto quando se fala de alguém como Castellucci, com um mundo tão forte e um universo tão vincado. Para mim, é como uma evidência, se em algum momento os nossos caminhos se voltarem a cruzar não me vou questionar durante muito tempo para tomar a decisão de trabalhar com ele.

Olhando para trás, o seu instinto tem-na servido bem ou cometeu alguns erros?
Na maioria das vezes, sim, serviu. Porque também confio… É tudo uma questão de confiança e, na maior parte do tempo, eu confio… Tenho de confiar nas pessoas com quem estou a trabalhar, mas também, mais do que isso, confio no teatro e no cinema como meios. Confio neles profundamente. Acho que é importante, porque se estivermos sempre desconfiados, é muito difícil fazer as coisas. Temos de confiar no processo: nas pessoas e no processo.

O que faz quando eles falham?
Nunca sinto que falharam comigo. Nunca. Ou, se sinto, encaro isso como algo que posso resolver. Não encaro como algo que não tenha solução.

Confia em si mesma o suficiente para resolver…
Sim.

Como sente que a sua presença como intérprete evoluiu? A sua abordagem a uma personagem mudou?
Acho que não. Realmente não. Sinto-me sempre feliz ao fazê-lo. Nunca penso que é muito difícil, caso contrário não o faria. Não sou corajosa o suficiente para fazer coisas a pensar que são difíceis e que é preciso ultrapassar obstáculos. Não vejo o meu trabalho dessa forma. Se visse, não conseguiria fazê-lo.

Vê o ofício como algo mais natural, se me permite dizer?
Sim.

"Nunca penso que [um papel] é muito difícil, caso contrário não o faria. Não sou corajosa o suficiente para fazer coisas a pensar que são difíceis e que é preciso ultrapassar obstáculos. Não vejo o meu trabalho dessa forma. Se visse, não conseguiria fazê-lo"
Isabelle Huppert

Alguma vez pensou em estar do lado da realização ou encenação?
Já me desafiaram um par de vezes, tanto em teatro como em cinema. Mas não, ainda não [risos]. Talvez um dia. Mas sou demasiado preguiçosa para isso. É preciso tomar decisões. Quando somos atrizes, não tomamos assim tantas decisões. Limito-me a fazer o que me dizem para fazer.

Disse há pouco que Bérénice era um texto sobre liberdade. O que descreve agora não é o oposto de ser-se livre?
Não. Não. Porque sou totalmente livre desta forma.

O que a levaria então a fazê-lo um dia? Encenar, realizar…
Se o fizesse um dia talvez fosse por curiosidade. Sou muito curiosa. Gosto de saber o que está por detrás da superfície. Apenas por isso talvez o fizesse.

Já que é muito curiosa, o que descobriu recentemente? Um livro, um pensamento, um filme… Algo que gostasse de partilhar?
Não [risos]. Não gosto de partilhar muitas coisas.

É difícil para uma atriz ser reservada?
Não, não é difícil. Basta ser-se da maneira que se quer, o mais possível. Não quero preocupar-me muito com obrigações. É só isso.