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Tendências mundiais das indústrias de Defesa

Esperamos que Portugal aproveite a oportunidade e faça parte dos países da UE que contribuem para o esforço de produção interna e se constitua um cluster de indústrias de defesa capaz de exportar.

Hélder Sousa Silva
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para o esforço de produção para as nossas necessidades e, supletivamente, que se constitua um cluster português de indústrias de defesa capaz de exportar.

Há uma frase bastante ouvida nos corredores de Bruxelas, pronunciada com a resignação de quem já viu acontecer várias crises: “a Europa acorda sempre tarde, mas acorda.” Os dados publicados pelo Instituto de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI), no seu relatório anual “Trends in International Arms Transfers 2025”, confirmam, com a crueza dos números que só análises anuais rigorosas são capazes de fornecer, que o acordar da Europa para as questões da Segurança e Defesa chegou tarde, vai custar caro, e eventualmente, está longe de ser suficiente, não por falta de dinheiro, mas, eventualmente, falta de organização.

Entre 2021 e 2025, o conjunto de todos os estados europeus (União Europeia e restantes estados que pertencem ao continente europeu) triplicaram as suas importações de armamento pesado, relativamente ao quinquénio anterior. A Europa, que durante três décadas se habituou a ser a região do mundo que menos gastava em segurança própria e mais confiava no “guarda-chuva” alheio, tornou-se um relevante importador de armas, facto que acontece pela primeira vez desde os anos 1950/60, décadas associadas ao crescimento da NATO e da “corrida ao armamento” provocada pela Guerra Fria. Hoje, é novamente a ameaça a leste que obriga a uma nova vaga de aquisições.

A guerra da Rússia contra a Ucrânia é o catalisador óbvio, mas seria um erro de interpretação reduzi-lo a esta causa única. Kiev absorveu cerca de 10% de todas as aquisições europeias de armamento nos últimos 5 anos, partindo de uns residuais 0,1% no quinquénio anterior, tornando-se, assim, o maior importador mundial num período que não tem paralelo na história recente. Trinta e seis estados forneceram armas à Ucrânia desde o início da invasão em larga escala. Os Estados Unidos da América asseguraram 41% das importações ucranianas, a Alemanha 14%, a Polónia quase 10%. Foi essa mobilização que impediu Putin de concretizar o que a invasão prometia desde o primeiro dia e que passava pela liquidação da Ucrânia como estado soberano e o regresso das fronteiras imperiais à Europa.

Não obstante, em 2025 o volume de transferências de material militar norte americanas para Kiev caiu de forma substancial, reflexo direto da decisão da administração Trump de reduzir a ajuda militar. O vazio foi parcialmente colmatado por europeus e canadianos, dentro dos seus limites de produção. Porém, essa substituição merece ser lida como o primeiro ensaio forçado daquilo que deveria ter sido sempre a norma.

O paradoxo central que os números do SIPRI expõem está precisamente aqui. Os 29 estados europeus membros da NATO aumentaram, as importações de armamento neste período (2021-2025). Mais de metade dessas importações, 58%, vieram dos Estados Unidos da América. Doze países europeus tinham, no final de 2025, 466 caças F-35 encomendados ou pré-selecionados para aquisição, destes 39 foram encomendados em 2025. O F-35 é tecnologicamente excecional, sem qualquer dúvida o melhor da sua classe, mas insere-se numa arquitetura de inteligência, de dados e de gestão que é controlada diretamente por Washington, segundo os seus próprios critérios e os seus próprios interesses, hoje bastante incertos. A Europa está a pagar, com dinheiro dos seus contribuintes, para aprofundar uma vulnerabilidade que os seus líderes proclamam querer eliminar, com uma maior autonomia industrial europeia. Como é evidente, esta reflexão não deve padecer de extremismos, porque vamos ter sempre de adquirir externamente, mas a percentagem, pode e deve reduzir para valores próximos dos 35%. Este valor 35%, está subjacente aos atuais programas europeus de apoio às indústrias de defesa, dentro do espaço da União Europeia (UE), que adiante explicitarei.

Esta contradição nasce essencialmente de uma lógica do curto prazo: quando um parlamento exige capacidade visível e rápida de resposta a uma ameaça ou crise, um governo compra o que está disponível, certificado e entregável. Décadas de desinvestimento na base industrial de defesa europeia criaram um défice tecnológico e produtivo que não se corrige em dois ou três anos, por mais que a retórica política, e a mediatização do tema sugira o contrário. A urgência real da ameaça colidiu com a incapacidade instalada, e o resultado foi uma corrida às compras transatlânticas, que estes dados comprovam, e que nenhum discurso sobre autonomia estratégica consegue dissimular.

Por outro lado, seria injusto ignorar o que mudou, na minha opinião, para melhor. A UE enquanto conjunto de 27 Estados Membros representou 28% das exportações globais de armamento entre 2021 e 2025, o quádruplo da quota da Rússia e cinco vezes a da China. França, Alemanha, Itália e Espanha figuram entre os dez maiores exportadores mundiais. A Alemanha ultrapassou a China e tornou-se o quarto maior exportador global, canalizando 24% das suas exportações para a própria Ucrânia como ajuda militar. A Itália cresceu 157% neste último quinquénio.

A base tecnológica e industrial de defesa europeia existe, tem competência e tem mercado. O problema nunca foi a ausência de uma indústria europeia de defesa. O problema foi, e continua a ser, a fragmentação dessa indústria em lógicas nacionais que se sobrepõem, duplicam e frequentemente se contradizem, em vez de se complementarem numa capacidade coletiva coerente. Se os 50 estados federais dos EUA tivessem estas barreiras, não seria possível para o país ter a maior indústria de defesa do mundo.

Do outro lado da equação está a Rússia, cuja queda é tão dramática quanto explicativa. Moscovo era, até há bem pouco tempo, o segundo maior exportador de armas do mundo, com 21% da quota global. Hoje representa 6,8%, uma redução drástica que foi infligida pelas sanções, pelo isolamento tecnológico e, sobretudo, pelo consumo da própria guerra. Esta degradação estrutural da base industrial militar russa não se reverterá rapidamente, e as encomendas pendentes confirmam a trajetória: em caças de combate, em navios de guerra, em sistemas terra-ar, Moscovo aparece muito abaixo de quase todos os seus concorrentes no top-10 global. Esta é uma oportunidade única para a UE consolidar a sua posição tanto no mercado global como na sua própria segurança coletiva. Desperdiçá-la por falta de ambição ou de vontade política seria um erro histórico da mesma dimensão daqueles que nos trouxeram até aqui.

É, então, agora, que os novos instrumentos europeus ganham toda a sua relevância. O Programa Europeu de Indústria de Defesa (EDIP), com 1,5 mil milhões de euros para o biénio 2026 e 2027, atua pelo lado da oferta, reforçando a capacidade produtiva e tecnológica da base industrial europeia. O instrumento SAFE complementa-o pelo lado da procura, mobilizando €150 mil milhões para aquisições conjuntas entre Estados Membros. Pela primeira vez, a Europa dispõe de instrumentos coerentes em toda a cadeia, da fábrica à linha da frente, e essa arquitetura ainda não está refletida nestes números, mas irá moldar de forma decisiva os próximos anos. O próximo relatório do SIPRI contará, muito provavelmente, uma história diferente: a de um continente que deixou de se limitar a comprar segurança e passou a produzi-la, e até a reforçar a sua quota de exportações.

Esperamos que Portugal possa também aproveitar esta oportunidade e passar a fazer parte dos países da UE que contribuem, em primeiro lugar para o esforço de produção para as nossas necessidades e, supletivamente, que se constitua um cluster português de industrias de defesa capaz de exportar.

Há ainda nesta publicação dados interessantes que evidenciam como o mapa das transferências globais de armamento é simultaneamente uma prova de alinhamentos políticos e de influência estratégica:

  1. o Paquistão importou 80% do seu armamento da China;
  2. a Índia, o segundo maior importador mundial, diversifica para o ocidente, mas mantém 40% das suas aquisições dependentes de Moscovo, e acabou de viver um confronto armado real com o Paquistão em maio de 2025;
  3. o Brasil aumentou as suas importações em 150%, orientando-se sobretudo para a Europa;
  4. a China domina como fornecedor em 23 estados da África subsaariana.

Com esta inevitabilidade geopolítica, a política europeia de exportações de defesa deve passar a ser vista em dois prismas: o comercial e o geoestratégico. É um instrumento de projeção externa de Poder com consequências diretas na estabilidade de várias regiões do mundo, na extensão da influência europeia, e nos laços estratégicos com parceiros em todos os continentes. É um Poder que a UE ainda não aprendeu a usar. Cada contrato é uma relação construída, uma presença sólida e uma alternativa a Washington, Pequim ou Moscovo. Gerir este trunfo através de 27 políticas nacionais com critérios divergentes e interesses frequentemente contraditórios é manifestamente impossível e constitui um desperdício estratégico que afasta a UE do tal papel geopolítico que tanto apregoa querer ter.

O mundo que os dados do SIPRI descrevem é um mundo em que a segurança voltou a ser escassa, cara e geopoliticamente determinante. A Europa que estes números descrevem está a rearmar-se a um ritmo sem precedente desde a Guerra Fria. O que ainda não está claro é se esse esforço vai construir soberania real em termos de capacidade de produção europeia ou apenas atualizar a mesma dependência com equipamento mais moderno. Essa distinção fará a diferença, e os próximos anos serão cruciais para esta aclaração. Temos de pensar mais no coletivo (UE) e menos no individual (Estado-membro).