A equipa de astronautas da missão Artemis II já ultrapassou várias barreiras e quebrou um recorde de 6.500 quilómetros de distância de casa, o mais longe a que o homem foi no espaço. Mas ainda têm de enfrentar uma derradeira prova de fogo: o regresso à Terra.
Segundo os especialistas da NASA, a reentrada na atmosfera terrestre é um dos momentos de maior risco, devido à velocidade e às altas temperaturas a que a nave Orion estará exposta. Após dez dias na órbita da Lua, Reid Wiseman, Christina Koch, Victor Glover e Jeremy Hansen deverão começar a entrada na atmosfera às 19h53 locais, 00h53 em Lisboa.
“São 13 minutos de coisas que têm de correr bem”, frisou Jeff Radigan, diretor de voo da Artemis II, em conferência de imprensa na quinta-feira. Mas se tudo correr bem, a equipa de astronautas deverá amarar na costa de San Diego, no Pacífico, às 20h07 locais, 1h07 em Lisboa.
https://observador.pt/2026/04/08/sem-subsidios-de-risco-ou-compensacao-por-horas-extraordinarias-quanto-ganham-os-astronautas-que-deram-a-volta-a-lua/
A Orion vai entrar na atmosfera terrestre a uma velocidade que pode chegar a 38.600 km/h, o que fará com que os astronautas sejam expostos a uma força equivalente a 3,9 vezes a força de gravidade normal da Terra. A juntar a isto, ainda haverá seis minutos de silêncio de comunicações, em que a nave estará a enfrentar temperaturas de 2.760 ºC, nota a NBC News.
O momento de entrada na atmosfera acarreta por si só vários riscos. Só que, na missão Artemis II, há uma preocupação em particular com o escudo térmico. É esta camada de proteção térmica, na base da cápsula, feita de um material chamado Avcoat, que absorve o calor da reentrada, protegendo a restante cápsula.
Na missão anterior, a Artemis I, em 2022, a cápsula Orion esteve perto da Lua, mas sem tripulação. Reentrou na atmosfera e fez uma amaragem, mas o escudo ficou danificado, perdendo pedaços pelo caminho e ficando com buracos de dimensões consideráveis.

O New York Times (NYT) refere que, durante dois anos, foram feitas várias investigações para perceber o que aconteceu com o escudo. Algumas fotografias sobre os pedaços em falta no escudo térmico só foram reveladas em maio de 2024, quando foi divulgado um relatório sobre a preparação para a segunda missão.
Na Artemis II, está a ser usado o mesmo tipo de escudo que ficou danificado em 2022 — uma situação que foi contestada por alguns especialistas. O NYT refere que Charlie Camarda, um antigo astronauta da NASA e especialista em escudos térmicos, não devia ter lançado a Artemis II com este escudo. “Vou rezar para que nada aconteça”, disse numa entrevista alguns dias antes do lançamento da missão deste mês. O palpite do antigo astronauta é a de que haja uma probabilidade de 95% dos astronautas regressarem em segurança.
Apesar da contestação, a agência espacial norte-americana diz-se confiante em relação ao escudo. Foram feitas análises detalhadas ao material do escudo que deixaram a NASA “confortável com o que é possível suportar nesta missão”, disse Jared Isaacman, o administrador da NASA, numa entrevista em janeiro.
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Além disso, a NASA optou por modificar a rota de entrada da cápsula, numa tentativa de minimizar o risco para os astronautas.
De qualquer forma, a imprensa norte-americana refere que as dúvidas sobre o escudo geram desconforto devido a dois momentos negros da história da NASA. Quando em janeiro de 1986 o Challenger se desintegrou 73 segundos após o lançamento e, em fevereiro de 2003, quando o vaivém espacial Columbia se desintegrou no regresso à órbita da Terra.
NASA detalha todo o processo de descida e reentrada na atmosfera
A agência espacial dos EUA tem uma página dedicada aos momentos finais da Artemis II. No último dia completo no Espaço, os quatro astronautas ouviram a música Lonesome Drifter, de Charley Crockett, quando se começaram a aproximar da Terra.
https://twitter.com/NASA/status/2042268423770521679
Já esta sexta-feira, os primeiros momentos deste regresso arrancaram com Christina Koch e Jeremy Hansen a preparar a cabine para a reentrada. Ou seja, a arrumar equipamento que foi usado durante a missão, a prender as estruturas necessárias e também a colocar os assentos onde vão passar os últimos minutos da viagem.
Quando a cápsula estiver a 120 quilómetros de altitude, será feito um controlo de eixo. Será nesse momento que haverá um silêncio de seis minutos nas comunicações e quando a cápsula vai ser sujeita a temperaturas elevadas.

Se tudo correr como previsto, esse momento deverá acontecer à 19h53 locais, 00h53 em Lisboa. Depois do blackout, a Orion abrirá os paraquedas perto dos sete quilómetros de altitude. Um minuto depois, já com os três paraquedas principais abertos, deverá começar o momento de amaragem no Pacífico, a cerca de 3,2 quilómetros de distância da costa de San Diego.

A tripulação só vai ser retirada duas horas após o splashdown. Os quatro astronautas vão ser recolhidos por equipas que vão usar helicópteros e transportados para o USS John P. Murtha. Vão ser sujeitos a avaliação médica antes de serem transportados de avião para o Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston, no Texas.